Bom, antes de começar o post, só para falar que, claro, baixei o texto da Internet. Mas depois, acabei comprando o livro 50 Contos de Machado de Assis, publicado pela Cia. Das Letras. Loucura? Gastar dinheiro com algo que tem de graça? Ai, ai, ai. Pois já começa por aí a discussão… Os contos foram selecionados por John Gledson, que assina a introdução, explicando os critérios de escolha. Algo interessante é descobrir que Machado escreveu aproximadamente 200 contos. A maior parte dos contos escolhido pertence a um período John chama de “explosão criativa”: dos 40 aos 50 anos. O Alvaro já comentou um pouco sobre a biografia do Machado. Engraçado o que é o preconceito: no meu período de escola, nunca falaram que Machado era negro! Loucura, não?

Nosso tempo

Ele também fala sobre como Machado foi um dos pioneiros no gênero conto. Neste, faz uma critica ácida à sociedade do seu tempo – que parece ser o mesmo tempo que ainda hoje vivemos! Estranho pensar que hoje se trata de forma medicamentosa o que poderia ser simplesmente um traço de personalidade: a timidez, ou excesso de energia, a dificuldade para persistir em uma determinada tarefa, a ingenuidade em acreditar nos outros e assim por diante. Se tratadas pelo Dr. Simão Bacamarte, estariam na Casa Verde, no hospício da cidade. Hoje, são sedadas por Prozacs da vida. Mais gente não escaparia, embora soltos depois, já que a loucura seria o estado permanente do ser humano: políticos corruptos, gente mesquinha, golpes para se obter o poder, amores escusos, propaganda enganosa, gente que morre em guerras sem sentido (pois no livro, a revolta não leva à morte de 11 pessoas e mais 25 feridos?); o medo disseminado de perder a liberdade, de ir contra gente que matraca, matraca e matraca. Aliá, a matraca dá bem o sentido da propaganda: fica fazendo um barulho insistente, que não quer dizer nada, apenas para chamar a atenção. Até hoje os vendedores ambulantes usam, em especial na praia. Então, vou matraquear um pouco…

Louco são os outros

A loucura sempre me fascinou. A loucura na história – atos insanos, até mesmo de uma sociedade inteira! A loucura usada como desculpa para inocentar assassinos. A arte feita pelos loucos, como a do Bispo do Rosário. O manto aí do lado é criação dele. Outras obras você pode ver aqui e um pouco sobre a vida, neste outro link. A loucura através da história, como fronteira e limite de uma sociedade. Mas qual é a minha loucura, particular? Só para fazer uma ponte com o tema que discutimos antes (medo) e que agora me voltou. Sabe um dos meus maiores medos? Ficar louca, perder a razão. Meu analista dizia que quem tem medo de ficar louco, não fica… Porque o louco, este não consegue se perceber como tal. Mas é estranho que, com o passar do tempo, vamos usando a palavra loucura para definir atos que jamais faríamos, ou que fizemos e agora renegamos, não faríamos de novo. As loucuras de juventude. As loucuras por amor. As loucuras para sermos aceitos, até mesmo para nos diferenciarmos dos outros (ah, a estranha sensação de que somos únicos!) ou, ao contrário, de nos perdermos na multidão.

Pois os torcedores fanáticos não agem em bando de forma totalmente alucinada, como se aquele monte de corpos fosse um único ser vivo, agindo em sintonia? Sim, bem como o povo de Itaguaí, ao se revoltar e depois revoltar-se de novo contra os revoltosos, agindo como uma boiada bem tangida… Pois eu já fiz algumas loucuras na vida, mas, como se diz, sou louco manso, que ninguém saiu ferido (por que existe o Anjo Protetor dos Loucos e, naquela hora, ele estava de plantão ao meu lado!). São as pequenas loucuras do cotidiano, de que a Mercia também fala: são as pequenas loucuras, ou indulgências, que aceitamos naqueles que amamos e perdoamos. Hoje normais, amanhã, quem sabe? Ethel Scliar Cabral