Costumo dizer isso desde que a leitura se tornou um hábito para mim, na metade da adolescência: se você quer dominar a arte do diálogo, leia Shakespeare. Se você quer dominar a arte da narrativa, leia Machado de Assis.
Mas admitamos a hipótese de que você não queira escrever nem por diletantismo. Seu ofício é outro que não esse. Então leia os bons autores. Sem deixar de conhecer a arte de Shakespeare e de Joaquim Maria Machado de Assis, nosso maior escritor e um dos maiores do mundo em todos os tempos.
“O Alienista” não é considerado um dos maiores textos de Machado à toa. Nele, o grande autor brasileiro conseguiu dar ironia à história do doutor Simão Bacamarte e a incrível fauna que o cercou em Itaguaí onde ele dedicou-se com afinco à luta por livrar a cidade de todos os loucos. Como dizia, “a ciência é meu emprego único; Itaguaí é o meu universo”.
Graças a isso ele provocou uma verdadeira revolução na cidade e que teve desdobramentos incríveis. Tudo relatado com grande maestria pelo autor. A “Casa Verde”, para onde eram mandados os “loucos” da cidade, passou a ser o centro do relato da história embora, notem bem, nenhum fato importante, rigorosamente nada, se passe dentro de suas fronteiras. A questão sobre quem é louco, foco central do livro, percorre a cidade ao redor dela.
Simão Bacamarte até se casou com mulher feia, desinteressante, porque só lhe interessava que ela procriasse. Queria guardar o melhor de suas energias ao encontro das verdades científicas. Até o dia em que disse para consigo mesmo: “Vejamos. Vejamos se chego enfim à última verdade”.
Em setembro serão completados cem anos da morte de Machado de Assis, o criador de Simão e uma infinidade de outros personagens. Todos tinham e têm um ponto em comum: são personalidades riquíssimas. Mas se você, leitor, percorrer as livrarias brasileiras, vai encontrar dificuldades em ver-se de frente com a grande maioria deles. E não apenas Dona Evarista, o padre Lopes, o boticário Crispim Soares, o barbeiro Porfírio e os demais d’O Alienista.
Essa novela – ou conto longo –, por sinal, é considerada o primeiro conto realista escrito no Brasil. Talvez nem seja. Mas é o melhor. A genialidade de Machado de Assis se revela a cada linha. Na simplicidade da escrita, o que faz com que todos a entendam sem dificuldades. E na maestria com que consegue concatenar as idéias, a sucessão dos períodos, frases, parágrafos, permitindo que a narrativa se revele toda ela, em sua essência e magnitude.
Quem conseguiria isso num texto de menos de 80 páginas, que se lê com folgas numa única manhã e tratando com fina ironia da questão da loucura? E ainda mais um texto escrito no século XIX, quando a maioria dos hospícios eram instituições para onde as pessoas – as tidas como loucas – eram levadas para fazer “tratamentos” que, no mais das vezes, se constituíam em aplicar a elas altas doses de choques elétricos. Não raro, fatais.
Machado é um caso único por motivos outros. Pobre, mulato – num Brasil escravocrata – gago e epilético, ele nasceu como o protótipo do fracassado. E teria sido efetivamente caso não fosse um gênio. Quando morreu, uma verdadeira multidão seguiu o cortejo do “Bruxo do Cosme Velho”, no Rio de Janeiro que recém entrava no Século XX das conquistas tecnológicas.
Na semana passada, quando sai do escritório para procurar – pensei que bastaria ir buscar – o livro, entendi porque brasileiro lê pouco. Numa livraria havia efetivamente dois exemplares da novela que eu procurava. Na outra, um único de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Nada de “Iaiá Garcia”, por exemplo. No ano do centenário da morte de nosso maior mestre, ele passava em branco para a maioria dos donos de livrarias do país. Há, se houvesse uma “Casa Verde” para eles… Para esses “modestos” senhores…