Minha ideia hoje era publicar algo sobre um artigo que saiu na Scientific American sobre a Neurologia do Medo. Li o artigo e achei no final que seria pouco interessante para o Clube, pois a maior parte do artigo fala sobre experiências com macacos. Tudo bem que segundo o autor, as reações são basicamente as mesmas, mas achei chato portanto preferi não entrar em detalhes por aqui.

Essa semana combinamos de responder a pergunta da Dani, que foi: Quem tem medo de sentir medo ? Vou então mudar a pergunta para: Você tem medo de que ?

Eu concordo com o Lino que disse que o medo é uma coisa natural. Medo é um estado emocional que nosso corpo experienta quando estamos expostos ao perigo. O medo é um dos maiores responsáveis pela sobrevivência de uma espécie (e isso vale para todas) e é ativado com um estímulo negativo, como a dor ou a raiva entre outros. É o próprio que ativa nosso organismo rapidamente para a resposta correr ou lutar (fight-or-flight). Sob a menor experiência do medo nossa pupila se dilata, todos nossos sentidos se tornam mais sensíveis e aguçados, o coração acelera e outros orgãos menos importantes para a ação entram em estado de baixa requisição de energia. Os nutrientes vão diretamente para os músculos e recebemos uma carga extra de adrenalina para correr o mais rápido possível ou lutar até a morte.

Por outro lado também concordo com a Mércia que disse que tem o lado bom de sentir medo e, melhor ainda, de vencer os nossos medos.

A Scliar abordou muito bem no post dela dessa semana as várias facetas do medo, que pode ir das mais fúteis como o medo de quebrar a unha até as mais inevitáveis e assustadoras como o medo da morte. Mas eu também não acho que é possível classificar medos corretos e incorretos, portanto, nesse post não vou entrar no mérito de cada medo e, assim como a Dani fez no post dela, vou falar sobre o medo de forma bem genérica e dividir o mesmo em apenas duas faces: o medo imaginario e o medo real.

O medo do imaginário muitas vezes está associado às nossas crenças. O medo real já é outra história e ai entra a questão da sobrevivência e até mesmo o desenvolvimento da espécie. Note que essas definições são minhas, e o limite entre medo imaginário e medo real é complicado de definir diante de tanta manipulação e interesses que se baseiam única e exclusivamente em nossos medos nesse mundo cão.

O Exorcista

O Exorcista

O medo do imaginário é sedutor. Por isso que existem tantos filmes e livros de terror que fazem sempre o maior sucesso. A Scliar nesse post aqui nos contou sobre uma pesquisa interessante incluindo o terror e sexualiadade e é fácil de entender o porque dessa relação já que temos todos os sentido aguçados como descrevi no parágrafo acima e não precisamos nem correr e nem lutar… a solução é achar outras alternativas para gastar tanta energia🙂 . Nesses medos imaginários entram os vampiros, os zumbies, os espiritos, sacis, e quem aí lembra do chupa-cabras ? Tudo o que sejamos capzes de criar e acreditar ! Todos esses medos imaginários são formas divertidas de encarar nossas próprias crenças e um friozinho na barriga não faz mal para ninguém. Sem falar que esses medos fazem a alegria da garotada nos acampamentos de férias.

O medo do real é um pouco mais complicado e nesses casos entram o medo de ser assaltado, medo de morrer, medo de bater o carro, medo da guerra, enfim, tudo que pode colocar nossa vida em risco de fato. Esses medos por um lado podem ajudar a nos manter vivos, mas por outro lado também podem impedir-nos de viver. Já que não somos mais homens das savanas e tão pouco temos que dividir o mesmo espaço de terra com animais ferozes, só nos sobrou então o medo dos nossos semelhantes. O Marcelo citou um exemplo bastante interessante nesse post dele aqui. Hoje em dia há condomínios fechados por todos os lados em São Paulo, entupidos de seguranças particulares, redes de câmeras de seguranças para todos os lados e enfim… uma falta de privacidade imensa e um pânico geral financiado pela indústria do medo.

Concordo que ser assaltado ou ter uma arma apontada para sua cabeça não é o tipo de medo que diverte, no entanto, até que ponto devemos deixar nossos medos nos levar a viver sob a vigilância atenta de um Big Brother ?

Contraste Social

Contraste Social

Não consegui entender se existe um limite claro entre o que é saudável e o que é doença, mas acho que a cada ano que passa rumamos para uma civilização cada vez mais frágil, impotente e amedrontada, que está disposta a pagar e muito por seus próprios medos. O que é claro para mim é que a cada ano que passa nos aproximamos ainda mais de uma completa segregação social, dos que vivem em seus condomínios protegidos como uma caixa forte considerados como a verdadeira civilização, condomínios esses que são vendidos com panfletos mostrando crianças loirinhas a correr livremente com os pés descalços na grama verde de um pátio arborizado. Do lado de fora desse muro fica a selvageria como já falamos tanto aqui na ocasião do livro Admirável Mundo Novo. Muitas vezes ao lado desses condomínios de luxo podemos encontrar as favelas, escondidas atrás de projetos Cingapuras (em Sampa), que funcionam como tapetes para deixar o lixo embaixo apenas para não agredir a vista dos moradores dos condomínios. Como surgem as favelas nesses lugares ? Quem você acha que vai limpar o banheiro dos moradores da tal caixa forte ? Simples assim e dá-se então o contraste social que é imediatamente seguido de uma revolta natural e que por sua vez é seguido por mais violência.

Depois de todo esse post posso responder finalmente para a Dani que sim, eu tenho medo de sentir medo… pois o medo nos está levando a uma sociedade infeliz e completamente desequilibrada. Nesse caso, termino meu post concordando com o Marcelo que disse que está na hora de refletir o que se esconde por baixo desse tapete e tentar achar meios reais para acabar com esses nossos medos reais e não apenas nos esconder por trás de nossas fobias dentro de uma caixa forte ou carro blindado.

Uma ótima semana para todos e semana que vem tem livro novo aqui no nosso Clube !

Lys