O medo anda de mãos dadas com o prazer. São irmãos siameses. O medo existe pra alimentar o prazer de não se rememorar.. justamente aquilo que é a causa exata do medo. Estranho? Talvez.. mas a questão é que existe um filtro em nossa mente que controla o emergir do que dá medo. Esse é, inclusive, o preceito da fobia. Esta seria um ápice do medo, estratégia fatal, que consuma o desejo de sufocar a aparição do que amedronta.

Por conta disso, é curioso quando se encontra pessoas que verbalizam o objeto da fobia: “tenho fobia de lugar fechado”; “sou claustrofóbico”… A fobia age como um substitutivo alienante do que dá medo. Ela é justamente o álibi, a estratégia que o sujeito usa para que não reapareça, oriundo do inconsciente, aquilo que dá o maior medo. Por isso a fobia não se mostra assim facilmente. Ela é sempre “outra”.

O caso do pequeno Hans, contado pelo Freud, é um caso clássico desse quadro: o menino verbalizava pavor de cavalos, e ficou conotado, posteriormente, que se tratava, na verdade, de um substitutivo para a culpa que ele sentia pelo “assassinato paterno” constitutivo do Complexo de Édipo. E a culpa pressupõe sempre, nesse sentido, uma ausência de intenção. O que dá a pista…

Mas o que quero dizer com isso, exatamente? Que o medo de sentir medo é, na minha conotação, na verdade um medo de refletir o que se esconde por trás do que-se-diz-medo. Determinados tipos de reflexão são extremamente dolorosos e ninguém escapa de por (muitas) vezes procurar pela abstenção.

O que me faz concluir, interessado, que o preceito da nossa discussão diz muito sobre a questão. No fundo, todo medo é, nas entrelinhas, um medo de sentir medo. Ou um medo de sentir [o] medo. É assim que a banda toca.. por baixo do tapete da orquestra.

Marcelo Henrique Marques de Souza