A primeira coisa a pensar é que, para ser corajoso, é preciso ter medo.Afinal, se não tenho medo de nada, como posso ser corajoso? Ter coragem é enfrentar os próprios limites e terrores! Talvez esteja aí uma pista para entender o porque da atração pelo terror: ao controlá-lo, reafirmo que posso controlar a minha própria vida. O Servo dos Ossos enfrenta os seus: o primeiro medo, de transmutar-se em estátua semi-viva, morrer aos poucos, com dor e sofrimento (e quem não teria medo disto?). Depois, ao passar dos séculos, enfrentar a sua própria eternidade. Medo do que não controlamos  e desconhecemos. Que o medo ajuda a garantir nossa própria sobrevivência, disto não tenho dúvidas.  Não fosse ele, já teríamos deixado em paz nosso pobre planeta Terra! Parece que existem alguns medos universais, e as exceções estão aí para confirmar a regra: medo de bichos peçonhentos, medo de ficar sem um abrigo (ai, estes brasileiros que tanto querem por que querem ter sempre a casa própria!)  e outros que tais. Parece que o medo da morte, assim, se esparrama por todos os lugares.

Prêmios, medalhas e invencibilidade

Será por isso que  a gente se esforça por deixar uma marca imortal? O primeiro lugar nos esportes, o time de futebol que vence, um Oscar aqui e outro acolá, Nobel, ser o primeiro da classe, ou o melhor em alguma coisa, nem que seja em concurso de guspe à distância: tudo para mostrar que alguém lembrará de nos depois que partirmos. Evitar, como diz Fernando Pessoa, a morte total e absoluta:
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura, morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
” (A tabacaria, Fernando Pessoa).
Na Folha de São Paulo deste domingo (13 de julho de 2008), Ethevaldo Siqueira escreve sobre as previsões de Ray Kuezweill, que disse que ali pelo ano 2060 seremos todos imortais. 82% dos leitores, entrevistados por internet, acharam que isto seria muito chato (chata deve ser a vida destes leitores, retruco eu). Olha só os motivos: ter uma sogra imortal (coitada de mim, que sou sogra!), conviver com a mesma esposa por mil anos, e outros argumentos do gênero.

Terror pessoal

Mas existem também terrores bem pessoais e intransferíveis. A Veja fez uma matéria sobre fobias. A jornalista comentou que existe uma palavra até para quem tem fobia de galinhas (alectorofobia), ora vejam só, ridicularizou ela: galinhas! Recebeu uma cara desaforada de uma leitora com fobia de galinhas, que fulminou: “fobia é fobia, para quem a sente, é tão aterrorizante quanto qualquer outra. Acho ridículo ter medo de altura ou de multidão – jamais senti este medo”. Então, quem á jornalista para classificar medos corretos e incorretos? Pois dou toda a razão à leitora! Em tempo: tenho medo de altura! Lembro que meus irmãos adoravam ver uns seriados de terror – 5a. Dimensão e Além da imaginação. Eu sempre começava a ver, mas depois pulava para trás do sofá e fechava os olhos… (Um episodio eu vi inteiro: a última cena, do homem com os óculos quebrados e sozinho no mundo, sem poder ler, me persegue até hoje). Por que será que fechamos os olhos ou puxamos os cobertores? Como se o inexplicável fosse sumir simplesmente porque não o vemos!

Um pouco de mágica

Assim como tentamos fazer sumir nossos medos e terrores com um passe de magia, é este próprio desaparecer que aterroriza: perder o poder, perder a beleza, perder o dinheiro (por pouco que seja),perder a juventude, perder o emprego… A engrenagem da economia gira em torno destes medos, ao mesmo tempo aprisionando as pessoas (não faça nada! Não jogue fora o que já conquistou!) e também oferecendo algo para manter sob controle este medo tão profundo: compre isto, beba aquilo, coma tal coisa, use este produto, estude muito… e você será jovem, feliz, poderoso,amado e feliz. Sem medos. Ethel Scliar Cabral