Quem tem medo de sentir medo?

A pergunta, a propósito do tema e dos livros indicados para discussão neste Clube, acabou gerando a escolha de O servo dos ossos. O objetivo era, a partir de obras de suspense, discutir a questão do medo e como nós o encaramos. Será, então, que temos medo de encarar o medo?

A questão do medo tem sido muito estudada e uma das afirmações mais frequentes é que ele sempre funcionou como preservação do próprio homem. Ao sentir medo nós, os humanos, não nos expomos demais e foi graças, digamos, cautela que conseguimos sobreviver em tempos difíceis, evoluir e conquistar – pelo menos para alguns – a segurança que temos hoje.

Tememos, normalmente, o que não conhecemos e não conseguimos controlar. E talvez seja por isso que elegemos divindades, colocando-as acima de nós e dando-lhes, muitas vezes, o controle de nossas vidas. O termo usado para isso é subsumir, não em uma servidão voluntária, mas no aceite de que há algo maior e que a ele temos de nos curvar.

Um pouco de O servo dos ossos passa por aí. E se há medo de Azriel, ele se deve, basicamente, ao fato de, por ser um espírito, representar o desconhecido, o que não controlamos. Mas se há, neste aspecto, um medo quase que ascenstral das dividindades – mesmo que duvidemos de sua existência – há, de outro lado, a vergonha de reconhecer que temos medo.

Como humanos, dominamos o mundo. E temos de mostrar toda nossa fortaleza, fingindo que somos imunes ao medo. Ou que, pelo menos, o enfrentamos e não o deixamos vencer-nos. Talvez por isso é que histórias sobrenaturais, como a de Azriel e de vampiros, para citar dois casos, atraiam tanta gente. Nela, lidamos com o desconhecido, mas sabemos que é ficção, então, não precisamos sentir medo.

E há, ainda, um terceiro aspecto, o do medo como entretenimento, desde o despencar de uma torre na Disney, até os loops das mais loucas montanhas russas. Nelas, testamos nossa resistência, resistimos ao medo e damos uma demonstração que somos fortes. Será mesmo?

Acho que não. No meu entender, sentir medo é natural. E dizer que o temos, também. Não há porquê, então, temer dizer que se sente medo. Ao admitirmos isso, desmistificamos as coisas, mesmo as que não entedemos ou não conseguimos explicar. E neste caso, não precisamos de espíritos ou deuses para nos colocar na linha, nos amedrontar.