Bem, continuando a minha trilogia sobre o Servo dos Ossos (com imagens capturadas na Internet), uma outra vertente perpassa o livro: a busca de riqueza – sim, riqueza no sentido literal – com ajuda do Além. Está muito bem colocado pelo Lino: já que não se consegue por bem resolver os problemas, então que seja por mal… Enfim: se a boa conversa, se o intelecto não dão conta do recado, que se use a força ou se apele para o desconhecido e se invoque o Servo dos Ossos – ou outro servo qualquer! Na esquina, vejo o servo – não o dos ossos, mas o operário braçal, o servo do capital – rezando forte, fazendo promessas e gerando dívidas no Além para ganhar na megasena (e pagar suas dívidas aqui, é claro!). O Marcelo também tocou no assunto: estimula-se o ter a qualquer custo, a posse, o que estimula a violência que, por sua vez, gera a necessidade da proteção, que também alimenta o lucro… Os Mestres buscavam certificar-se, com correntes e cadeados, que o Servo dos Ossos estaria sob sua propriedade. Conseguiam?

Dinheiro, prá que dinheiro?

O livro já começa com a transmutação do corpo terreno em corpo recoberto de ouro – o ouro que dará o poder. O mesmo ouro que os cabalistas buscavam com a pedra filosofal, a pedra do ouro e da imortalidade. Mas o ouro da imortalidade mata. Lembram de Midas? Pediu para ter o poder de tudo transformar em ouro e sua cobiça é a sentença de sua morte: já não podia mais se alimentar. A comida virava ouro. Não podia acariciar a mulher amada. Não podia abraçar um amigo. A busca da riqueza, assim, corrói a verdadeira vida. E o Servo dos Ossos, feito de ouro, submisso, poderia ser a ponte para que seu amo e senhor tudo tivesse. Por isso, todos desejavam, a qualquer custo, dominá-lo: terror, poder, riqueza.

A sedução do dinheiro

Que bom seria ter um amigo que estivesse sempre com a gente, sem jogos de poder. Um amigo invisível, aquele amigo para tudo e para todas as horas, que por ser invisível, sempre está ao nosso lado. Um amigo raro, como o da Lys. Não custa lembrar: tudo que é raro atrai. Dá status. Seduz. As jóias. Diamantes. A cor púrpura (quando isto era difícil de obter, símbolo da alta hierarquia religiosa). As especiarias. O petróleo. Em breve, a água. A biodiversidade. Batalhas foram travadas e guerras foram perdidas, reinos erguidos e derrubadas por imperadores e exércitos em busca do vil metal. Vil? No fundo, é o ser que deseja ser diferente. Parece gritar: –Sou livre! Não sou igual aos outros. Tenho o que você não tem. A liberdade que o Servo dos Ossos busca – e muita gente acha que o dinheiro compra. Às vezes, compra mesmo.

O outro lado da moeda

No entanto, para ser mais diferente ainda, queremos recusar o poder da riqueza, principalmente nos países escravocatas, como o Brasil. Afinal, ser rico significa (na maioria dos casos) ter que trabalhar para isto. Trabalhar? Ora bolas, coisa de escravo! E nós, que moramos na casa-grande, estamos destinados a algo mais nobre, o livre pensar. Daí a dificuldade de se cobrar pelo trabalho intelectual no Brasil: este não pode estar associado com ganhar dinheiro, com enriquecer. São dois tipos de “riqueza”: a material, palpável, concreta, bezerro de ouro que irá arder no inferno e a “digna”, imaterial, onde os anjos tocam sua lira. Mas será assim mesmo? O Servo dos Ossos procura se distanciar deste pecado capital. Somos como ele? Buscar a riqueza é um mal? Para seduzir, basta o amor e uma choupana? Ou precisamos de um pouco mais? O que você compra com o dinheiro? E eu sonho com o que teria e quem seduziria, olhando uma pedra filosofal que não existe. Ethel Scliar Cabral