Angústia, agonia, aflição, preocupação, inquietação, ansiedade, medo… Esse é um trajeto possível, no dicionário, para a dança das palavras que pulsam o sentido do que aqui debatemos. Existem diferenças sutis entre esses estados humanos. Mas todos possibilitam pensar uma questão interessante do mundo atual, que é essa ânsia (outro sinônimo possível) por “liberdade” e “felicidade” que acomete o sujeito (palavra que, ironicamente, vem do latim “por baixo”) contemporâneo.

Segue um trecho de Lacan: “O inseto que passeia na banda de Moebius, caso tenha a representação do que é uma superfície, pode acreditar, a todo instante, que existe uma superfície que ele não explorou, a que está sempre no avesso daquela em que ele passeia. Ele pode acreditar nesse avesso, embora este não exista, como vocês sabem. Sem que o saiba, ele explora a única face que existe, e, no entanto, a cada momento, há realmente um avesso” (tirado do avesso da capa do seminário 10 – A angústia).

O real não existe. Porque ele repousa na esfera do inconsciente. Esse abismo do humano, ser que falesse (assim mesmo, com dois esses) na linguagem. Falesse. Fale, ser. Falecer. A linguagem gera, por tabela, a tal angústia de castração de que a psicanálise nos fala (!). Presos no lado de fora do real, falamos as coisas. E há, portanto, instaurada uma falta, no exato momento em que somos (!) aprisionados.

Falta que é a essência da angústia de ser humano. O símbolo, o que gera é uma guerra incessante entre o repertório do inconsciente (sempre maior do que podemos dar conta) e o que vem “de fora”, sempre aleatório a ponto de fazer retornar a angústia por meio de uma articulação qualquer.

Não podemos ter certeza de nada. Porque andamos sempre no avesso do definitivo. E é por isso que estamos sempre “de olho” no outro. O que nos prova e reprova. Com ou sem prova. E o Outro, então.. Toda aproximação que o inconsciente (Ele, o Outro) produz em relação ao ego gera angústia, justamente por que o ego existe como estratégia de sustentação de uma barração dessa angústia. Por isso que, como diz o Lobão, “na verdade nada é o que parece ser”. O que parece ‘ser’, na verdade só ‘é’ enquanto defesa contra a angústia. A verdade está sempre alhures. Ou, como coloca Lacan, o símbolo não supre a falta. A banda de Moebius é irredutível. Como formiguinhas andaremos, pelos oitos e oitentas da vida…

Todo discurso crítico gera um transitar pela angústia. E isso nos faz pisar o solo da proximidade com o inconsciente. Próximos assim, não resolvemos o problema.. Mas transitamos nEle, o que possui o mérito de não resultar na pecha do ressentimento, filhote imediato da ilusão de felicidade. Isso porque, apesar dos comerciais de TV, você não vai ‘ser’ feliz. O sujeito vaga sempre por baixo, mesmo que se agarre no Aufklarüng do lustre do teto do porão…

Marcelo Henrique Marques de Souza