No meu primeiro post sobre o tema proposto pela Dani, contei a vocês sobre minha paixão adolescente por vampiros e fixação por cemitérios e coisas do além. Hoje vou fazer uma nova declaração bombástica. Tudo bem, sei que corro o risco de acabar de vez com a minha boa reputação, mas assim é a vida e estamos na chuva para se molhar. Da outra vez disse que tinha algo em comum com a Anne. Hoje digo que tenho também algo em comum com os dois personagens da Anne, Azriel e Jonathan.

Azriel passou grande parte de sua infância as voltas com seu melhor amigo Marduk, que apesar de invisível aos olhos dos outros e considerado uma espécie de Deus aos olhos de uns, para Azriel, Marduk não passava de um amigo invisível. Jonathan por sua vez, ficou amiguinho do Azriel quando esse último também já não fazia parte desse mundo. Eu, que não perco uma também, assim como Azriel tive uma amiga invisível quando criança, mas infelizmente ninguém teve a honra de ve-la como eu a via e pensando agora, acho que foi bom, afinal, Azriel pagou com a própria vida por tentar misturar os dois mundos.

Outra coisa é que eu não tinha na época a menor idéia do porque somente eu era capaz de ver minha amiga. Mas não me questionava muito sobre isso pois a única coisa que realmente importava era brincar, brigar, ou conversar… coisas que duas amigas crianças e inseparáveis fazem o tempo todo. Para quem quiser saber mais da saga da minha amiga invisível é só ler esse post aqui, mas aqui a prosa vai tomar outro rumo…

Por um lado voltamos aí com a ciência tentando explicar os amigos invisíveis através da psiquiatria como sendo algo comum em crianças solitárias. Por outro lado, vem a religião tentando nos fazer crer que de fato vemos espiritos, demônios ou anjos. Passei por isso e saibam, é muito difícil crer que meu cérebro criava a minha amiga com vontade própria a qual lembro em detalhes até hoje. Por outro lado ela também não tinha nada de etérea ou de má. O que podemos concluir então é que ou eu sou louca por completo ou sempre tive uma porta meio que aberta para o além Terra. Seja ele real ou fantasioso. Por isso decidi desde a mais tenra infância passar bem longe dos chás de cogumelos e afins, pois viajar mais do que eu já viajava caretona mesmo era algo quase que inaceitável. O fato é que essa minha amiga não foi o único e nem o último evento fantasmagórico ou fantástico que ocorreu em minha vida e as vezes é difícil mesmo explicar, mesmo para quem optou pela ciência como profissão, afinal, no final, somos todos sujeitos a essa nossa condição tão humana não é mesmo ?

A única pena é que essas coisas só aconteciam quando eu era criança. Jonahtan teve mais sorte nesse aspecto. A ciência explica que eu era uma criança extremamente criativa e portanto criava esses fantasmas que vinham trazer recados para minha família. A religião por sua vez dizia que eu era mais sensível e pura… uiii e por isso funcionava como um meio de comunicação. Que foi ? Pensa que é facil ? Ainda mais para mim que sempre tive orelhas de abano ? Isso foi cruel🙂 ! Só lamento o fato de que se isso acontecesse hoje eu pelo menos poderia sentar e tomar um cafezinho, batendo um papo cabeça sobre a vida após a morte, mas obviamente, hoje em dia ninguém mais dá as bandas por esses lados. Apenas algumas aparições que podem ser classificadas facilmente como frutos da minha imaginação, que é fértil… ah isso sim ela continua sendo ! Talvez falte então a pureza ou a criatividade😀

Mas mesmo assim, no maior estilo mocinha do filme de terror que escuta um barulho e vai atrás para ver o que é, ao invés de sair correndo e buscar por socorro, eu e Edu fazemos todos os Ghosts walks possíveis e imaginários pois adoramos a sensação de levar susto e sentir medo. E quem sabe de quebra não rola um contato imediato e um papinho sobrenatural, não é mesmo ? Isso seria pra lá de fantástico !!!

Mas porque estou falando tudo isso ? O post do Marcelo me fez lembrar um passeio que fiz em Dover aos túneis secretos da segunda guerra e na linha de raciocínio, juntando com o que já li do livro da Anne, lembrei que o castelo de Dover, assim como esses túneis secretos estão listados entre os lugares mais infestados de fantasmas da face da terra. E foi divertido viu ?

O áudio, a iluminação fraca e falha nos fazia o coração pular para fora pela boca, estimulados pelo ambiente e também por sabermos que de fato ali morreram milhares de pessoas em estado lastimável. Era possível sentir a pulsação cardiaca mais elevada de todos os presentes, o cheiro do suor dos soldados misturado com o cheiro fétido da carne podre parecia ainda percorrer aqueles corredores pequenos e assustadores. Era quase possível sentir a angústia e a impressão marcante era a de que se olhassemos para tráz veriamos um soldado com um pedaço do corpo faltante pedindo ajuda. Os pelos dos braços na posição perpendicular ao braço, um arrepio forte na espinha e na nuca. A sensação que o tempo todo tinha alguém atrás de mim. Olhava para trás e nada… ninguém. Em um momento tive a impressão de ver um vulto, mas dessa vez não fui atrás para confirmar pois o clima estava pesado demais por aquelas bandas. Ok ok… fantasmas não existem, mas por via das dúvidas é melhor não arriscar e olhar só para a frente e caminhar muito rápido para sair logo daquele lugar horroroso.

No andar de baixo as coisas eram mais leves. Se é que isso é possível né ? Mas em comparação com o que era o hospital, a área do exército parecia a verdadeira visão do paraíso. O ar menos pesado, o coração batia menos forte. A cor voltando aos poucos no rosto de todo o comboio. Aprendemos um monte sobre logística das guerras e o medo de ver um fantasma foi substituido imediatamente pela curiosidade de entender tudo o que acontecia por ali em tempos de guerra. Nesse momento, o medo do imaginário toma um tom diferente, que é o medo do real. Foi possível reviver o pânico de estar ali no meio de um bombardeio, no meio de uma guerra, enfrentando o medo real, o medo da morte e não mais do morto.

Na torre medieval encontramos um menininho de uns 3 anos que ao nos ver imediatamente lançou um “Hello!” desconfiado. Eu entendi imediatamente o que ele quiz dizer e respondi amigavelmente com um sorriso que deixou claro que eu estava viva e bem viva. Ele me sorriu aliviado. O que aconteceu ? Apenas lembrei da minha infância e entendi que se eu estivesse no lugar dele com a idade dele, ia ficar feliz de ter certeza de que estou vendo alguém vivinho da Silva ! E branquela do jeito que sou, em um tunel daqueles, ele até foi perdoado por me confundir com o Gasparzinho. Para se certificar melhor dizer logo Hello! Pois pelo menos ele ficou sabendo se eu era camarada ou não🙂

O mesmo menininho foi nos acompanhando por um bom tempo até um ponto que o pobre entrou num berreiro e dali os pais não conseguiram passar. O que ele viu la ? Sei lá uai… já não tenho mais minha visão além do alcance. Essas crianças são tão criativas não é mesmo ?🙂 Mas pelo lugar, entrada do castelo, não era difícil imaginar que ali, naquelas mesmas portas havia morrido milhares de soldados esmagados.

Mais uma vez saí do Castelo sem poder bater o tal papinho cabeça, também não vimos nada de sobrenatural como mostra o vídeo aí em baixo, mas ta valendo ! Só de sentir o arrepio na espinha e o frio na barriga
já valeu a viagem ! E sem contar toda a parte histórica e o “Hello!” impagável do meu amiguinho que também via “dead people”, ou seja lá o que for que a psiquiatria explique.

E voce ? Já passou por uma situação assim assustadora ? E se você tivesse o privilégio de encontrar um ser do além, tal qual ocorreu na vida de Jonathan, o que voce faria ? Ou melhor, o que perguntaria ?