Até ontem ainda não havia decidido sobre o que escrever. Quando assisti o Espaço Público, da TVBrasil, no início da madrugada. O debate, muito interessante, teve como um dos temas o caso do segurança-PM que escoltava o filho de uma promotora envolvida nos casos do Fernandinho Beira-Mar, e que assassinou um jovem numa boate da zona sul do Rio, por conta de uma simples briga. O debate, que teve a participação do meu amigo Vinícius George, presidente do Sindicato dos Delegados do Rio de Janeiro, me lançou a idéia que precisava..

Vivemos sob o signo do medo nas grandes cidades, hoje em dia. As pessoas estão mais violentas e a própria força de segurança pública está profundamente corrompida pela corrupção e pelo cada um por si. O que, inclusive, deve servir para que deixemos a inocência de lado e partamos para criticar a própria idéia de que a “urbanidade” salva alguém da selvageria… Não salva. E está aí a estranha expressão “violência urbana” para não me deixar mentir. Urbano, que sempre significou civilidade, hoje denota muito mais os muros de concreto do que educação e comunhão de valores.

Outro dia, conversando com uma professora do colégio onde dou aula, sobre um aluno surdo que temos por lá, soltei uma que me fez pensar. Ela comentou que ele, com seus 11 anos, é “super-tarado” e não larga as meninas. No que propus: imagino que seja porque ele não ouve (!) a palavra ‘Não’ e todas as suas implicações..

A propaganda e o marketing exageram na referência incessante aos egos, desconsiderando a necessidade de deslocamentos psíquicos outros para a manutenção da vida em sociedade. Exemplo disso é uma propaganda recente da ABP (Associação Brasileira de Propaganda), que tinha como slogan “Toda Censura é Burra!”. Ou seja, para o mercado, não existe o “não”. A não ser quando se pretende debater alguma outra coisa que não o dinheiro e o produto: aí, o mercado te dá um rotundo NÃO!

Esse quadro reflete o movimento de privatização da cultura que vivemos hoje no Ocidente. E quem se dá bem com isso? As empresas de segurança e de seguros, que lucram horrores com a disseminaçâo do medo. E a TV, que veicula a violência como produto, angariando a selva de telespectadores ávidos por violência para si.

O medo é angústia, mas também lucro. Basta pensar nas mílicias, que, segundo o jornal O Dia de hoje lucram 2 bilhões de reais por mês no Rio de Janeiro, o que lhes permite inclusive montar esquemas de “campanha eleitoral” extremamente autoritários.

A polícia do Rio de Janeiro está, no momento, amplamente envolvida em casos de corrupção, através de seus integrantes. O que transforma a confiança em dias melhores em algo completamente vazio.

E não existem as “lendas urbanas”? Pois então.. Há também a violência urbana”, de que já falei.. Medo constante e gastos excessivos com adicionais de segurança, que deveriam ser comprometimento do Estado. A indústria dos seguros lucra cada vez mais.. Por que não é seguida aquela velha premissa, muito inteligente: “melhor prevenir do que remediar”. Acontece que prevenção não dá lucro…

Como se vê, o medo rende nos mais diversos debates. E vocês? O que acham dessa completa privatização da segurança? A indústria de seguros é legitima? Ou há outros meios de resolver a questão? Quem é que paga o pato de toda essa zona?

Marcelo Henrique Marques de Souza