Hoje deixo o terror um pouco de lado, para propor o tema e o livro que seguirá ao Servo dos Ossos. As dúvidas foram muitas. Primeiro pensei em propor o tema Família. Não, não o assunto família, mas sim livros escritos pela minha família. Ora, vejam só. Papai, Plínio Cabral, acaba de lançar mais um livro: Recordações de um olho Torto. Adoro o título (e o livro também é muito bom, viu gente?). O anterior, O Riso da Agonia, ganhou prêmio e acho que está esgotado. Tem outros títulos, mas fiquemos com estes dois últimos. O irmão mais velho, Fernando Cabral, está com um livro no prelo: Elas e os Tintos. São contos, cada um associado a um tipo de vinho – e no final do conto, tem um pouco sobre cada um dos vinhos escolhidos. Mamãe, Leonor Scliar Cabral, é poetisa. Um de seus livros, De Senectude Erótica, é composto de sonetos sobre a sexualidade na 3a. Idade, até hoje um tabu em nossa sociedade. Mas poesia sai um pouco do nosso foco, aqui no Clube do Livro…. E do tio, Moacyr Scliar, bom, este já é bem famoso! Bem, os meus escritos ainda estão na gaveta. (Atualização: na verdade, Moacyr é primo de mamãe, mas como a gente tem este péssimo hábito de chamar todo mundo de tio… Que ele não leia isto, vai me puxar as orelhas!). Mas achei que seria um pouco de nepotismo, não? Então vamos esperar mais um pouco. Mas podem comprar o livro de papai, viu? Tem no submarino e tem também na cultura. Pensei em biografias, que adoro, mas lembrei que tem alguém por aqui que não gosta (quem era mesmo?). E eu que não vou começar logo de cara comprando briga com a turma! Gosto muito de literatura infantil, tem gente que acha que é uma área menor. Cecília Meireles dizia que não, pois só existem dois tipos de literatura: a boa e a ruim! Para ser provocativa, também pensei em ir pro lado da auto-ajuda, mas… Deixa para lá. Pelo sim, pelo não, fiquei com o tema: nossa condição tão humana.

Mas que raio de tema é este?

Bem, englobei neste tema livros que abordam esta angustia que vivemos, de consumir, de competição, de sentido da vida. Do que é real e do que não é. Do por que estamos aqui, e para onde vamos. Da ciência e da religião. De todos os conflitos de amores, paixões, de ser e não ser. Teria uma infinidade de livros que vão por este caminho, a começar por Kafka, que adoro. Para afunilar um pouco mais, resolvi ficar com autores que escrevem em português e livros que, se alguém já leu, acho que vale a pena a releitura. Fiquei com Saramago, Machado de Assis e Chico Buarque. Três autores, três estilos, três abordagens sobre o tema. Vamos aos livros.

A CAVERNA

José Saramago, Cia. Das Letras, 350 p.
O livro começa com uma citação de Platão: “Que estranha cena descreves e que estranhos prisioneiros. São iguais a nós.” Ele possui várias camadas de leitura, mas durante todo o trajeto, acompanhamos a vida de um oleiro e sua angústia para sobreviver, o trabalho mecânico que realiza, a rejeição, a busca pela sua própria expressão e individualidade. Um espaço que não consegue entender, um ambiente fechado, onde tudo é monitorado – um grande shopping center – e “eles” que determinam tudo, a aceitação ou não do que se faz. Mas quem são “eles”? E quando o oleiro, sua mulher e seu fiel cão conseguem romper com as barreiras, defrontando-se com outra vida mais vivida, quem neles acreditará? Assim como a caverna de Platão, já não se sabe o que é sombra e o que é realidade.

O Alienista

Machado de Assis, Atica, 80 p.

Bem, no centenário da morte de Machado de Assis, não poderíamos deixar de lado este escritor fantástico. O alienista fica entre conto e novela e tem aquela ironia todo especial de Machado, que eu adoro. É a história de um médico que vai para uma cidadezinha do interior, com o único objetivo de estudar e classificar a loucura. Consegue, com apoio da Prefeitura local, construir um asilo para “alienados mentais” – por isso, o título da obra: o alienista, aquele que cuida dos alienados, mas também há outras possibilidades de interpretação: seria ele um alienado? Ou a pessoa se torna uma alienada pelos olhos dos outros? Aos poucos, a fronteira entre loucura e o que não é loucura fica difícil de identificar. A população revolta-se, busca-se uma saída, mas será que há saída? Onde fica mesmo o hospício? Do lado de for a ou do lado de dentro da construção inaugurada?
Como o livro já está em domínio público, pode ser baixado pela internet, por exemplo do portal Domínio Publico ou da Biblioteca do Futuro

Budapeste

Chico Buarque, Cia. Das Letras, 176 p
Aqui, é uma história dupla, a história de um ghost writer. E afinal, quem somos nós, com tantas mascaras e personalidades e papéis desempenhados em cada hora e em cada lugar? O livro se passa entre Rio em Budapeste (daí o título) e o autor/personagem se defronta com todo o estranhamento e dificuldade de quem se vê as voltas com um espaço e com uma lingual que não domina. Este estranhamento que temos, às vezes, ao acordar, ao olharmos nosso rosto no espelho e perguntar: -Mas quem é este mesmo que se reflete aí? Quem sou eu? Perguntas que vão se entremeando em uma narrativa de um amor que vai se desvendando aos poucos.

Bem, e na próxima 5a. continuo com os afrodisíacos! Até lá. Ethel Scliar Cabral