Fechando a minha trilogia sobre preconceitos nas relações – já abordei diferença de idade e relações intra-familiares – hoje vou falar sobre a questão de gênero, que também perpassa o conto As Avós. Nele, existe uma relação não explicitada de lesbianismo entre Lil e Roz , se não real, pelo menos percebida assim pelos outros. Até que ponto esta relação se projeta na transferência que permeia a atração de cada uma pelo filho da outra é algo que permanece em aberto. O assunto não parece tão polêmico, hoje, quanto o do incesto (que, aliás, voltou ao noticiário com o caso tenebroso de Josef Fritzl, o austríaco que manteve sua filha aprisionada durante 24 anos, e com quem teve 7 filhos – 6 sobreviveram). Ou estou enganada?

Ações afirmativas pelo avesso

Audrey Vachon, uma canadense, abriu processo contra o bar Le Stud, um bar gay em Montreal. O motivo: o garçom recusou-se a atende-la, porque era mulher. E o dono, frente ao escândalo que se instaurou, reforçou: “os clientes exigem um ambiente exclusivo para homens.” Ou seja: a exclusão que garante o respeito aos homossexuais. Como sempre, o direito de um é a negação do direito de outro. Garantir o direito dos homossexuais de terem um espaço só seu significa excluir as mulheres. E vice-versa. Quem decide qual direito prevalece sobre qual? Para saber mais sobre este caso, leia aqui.

(a charge foi tirada do site: http://www.slapupsidethehead.com/2007/06/)

Escândalo à brasileira

Mas deixamos os escândalos politicamente corretos do primeiro mundo e vamos ficar com a questão de gênero que pipoca no Brasil mesmo. Pois as últimas manchetes dão conta da tentativa de extorsão de Ronaldo, conforme seu próprio relato, por parte de um travesti. O outro lado da moeda diz que Ronaldo se recusou a pagar pelo programa. Seja como for, pipocam na imprensa a questão de porque o jogador, famoso, rico, teria procurado por travestis para, conforme suas palavras “extravasar” sua tristeza. Diz ele que se “enganou”, achou que era uma prostituta mulher, que chamou mais duas amigas – todas travestis. Ronaldinho então, ao descobrir tudo, ora bolas, desfez o programa porque… ora, porque, onde já se viu, homem com homem é coisa de lobisomem! E jogador de futebol é muito acho sim senhor. Resumo da ópera:a Nike, patrocinadora de Ronaldo, aguarda os desdobramentos e repercussão para decidir se rompe ou não o contrato. Coisa assim dos seus R$ 167 milhões (não, não errei na digitação, é isso mesmo: R$ 167 milhões). Enquanto o escândalo não pesa no bolso, fez a primeira baixa no coração do jogador: sua namorada rompeu o romance. Alguém se importa? O caso de Ronaldo está aqui.

Fatos reveladores

Assim como nas Avós, estes episódios só fazem vir a tona os muitos preconceitos que ainda existem em relação à identidade sexual. E o fato de se instituírem tantas ações afirmativas (a Parada Gay é a apenas o exemplo mais aparente) só reforça o quanto a sociedade ainda olha, com desconfiança, tais relações. Da mesma forma que no caso do incesto, o componente sexo com fins de procriação também está subjacente – tanto é que as avós (e só são avós por isso) querem que os respectivos filhos casem e, por sua vez, tenham filhos. Coisa impossível no caso da homossexualidade, se excluirmos a adoção – e aqui, volta-se ao tema o quanto um filho adotivo cria o laço parental ou não. Woody Allen que responda.

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