Uma das questões que o livro As Avõs põe é o do relacionamento amoroso ou apenas pelo sexo entre pessoas de idades diferentes. Doris Lessing trata da questão com todo cuidado, contando o geral, mas omitindo as partes (?). No entanto, fica, no final – pelo menos foi o que senti – que o relacionamento entre os quatro personagens do livro – as duas avós e seus filhos – é quase incestuoso.

O que leva a esta impressão é o fato de as duas avós serem amigas de sempre e para sempre e terem criado os filhos juntos, de tal forma que no final as duas eram mães deles. Então, o relacionamento que daí decorre, a proximidade entre os quatro, acaba levando a um outro tipo de relacionamento, que nada tem de filial, mas avança para o complexo de Édipo realizado.

Além do relacionamento carnal, quase uma troca de filhos, há, de outro lado, um aspecto interessante para se discutir a partir do livro, que é as amizades fechadas, que não permitem a inclusão das pessoas e criam um mundo todo particular, so entendível para quem está dentro. É o caso de As Avós. De tão amigas, cúmplices mesmo, elas criaram um mundo particular, só delas, que não admitia gente de fora.

O que se pode questionar é se tal amizade é saudável. Usando uma analogia, é como se fora o sistema solar, com tudo girando em torno de um centro. E nele estão as duas avós. Na verdade, elas têm vida fora desta amizade, mas a impressão que a narração dá – pelo menos no meu entendimento – é que ela é secundária. O que as sustenta, na verdade, é a amizade sem limites, ao ponto de suportarem que seus filhos se tornem amantes da outra.

Como criaram um mundo particular, só delas – nele incluindo os filhos – elas podem estabelecer as regras de convivência, sendo que todas elas se submetem ao que querem, ao que pensam. E estas regras não têm de ser, necessariamente, as da sociedade. Daí a naturalidade com que o quase incesto é tratado.

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