violenc.jpgInsurgir-se contra a violência, principalmente quando ela é institucionalizada, é uma coisa muito difícil. Neste sentido, o comportamento de Mukthar Mai é impressionante, pois saiu de um lugar onde nada lhe era permitido para desnudar o comportamento de um segmento social que trata a mulher como objeto e age, em relação aos outros – sejam homens ou mulheres – como se fosse proprietários deles.

O que a paquistanesa fez – e deve-se a ela todos os elogios e reconhecimento pela iniciativa – foi expor uma parte da sociedade que nós, no Ocidente, por hipocrisia ou por desconhecimento, acreditávamos não mais existir. A violência é uma constante e são mulheres e mais pobres que estão mais sujeitos a ela. Institucionalizada, ela é usada como tacão para a manutenção do poder, de privilégios, como uma forma de subjugar pelo medo. Romper esta barreira é um ato de heroísmo. E foi isso o que Mukthar fez.

Há, em relação a questão, um aspecto que já ressaltei antes, mas que vale reabordar. Com a globalização, problemas que ficavam restritos às mais distantes regiões batem, todos os dias, à nossa porta. Foi assim que a situação de Mukthar se espalhou e contribuiu para dar-lhe abrangência, promovendo a mobilização que, no final, transformou o seu grito em apelo mundial. A idéia é que ao expor um problema, estamos contribuindo, de alguma forma, se não para a sua resolução, pelo menos para a mudança da intensidade dele.

Mas o que mudou? Se olharmos a questão seriamente, veremos que nada. A violência, no Paquistão e em inúmeros outros locais, continua sendo a tônica. E ela é exercida de forma indiscriminada, atingindo, sim, as mulheres, mas não poupando os homens e as crianças. Veja-se o caso da mutilação vaginal. Veja-se casos de ritos de passagens com jovens adolescentes. A prática é justificada como tradição.

Sim, pode ser uma tradição, mas no Ocidente é visto como algo exótico, como algo que só acontece lá, à distância. Nós somos civilizados. Eles são bárbaros. Eles são os outros e servem para nos diferenciar. É verdade. Mas também é verdade que os mesmos comportamentos que condenamos ocorrem no nosso quintal. E muitas vezes são aplaudidos.

Para que a situação mude precisamos de dezenas, centenas, milhares de Muktars Mais. Talvez assim o mundo – globalizado ou localizado – desperde para o fato de a toda hora alguém ser vítima da violência, seja ela física ou simbólica – o que não quer dizer que doa menos.

Anúncios