brave4.jpgA partir do capítulo X e até o capítulo XV, Huxley expõe o não civilizado à civilização e deixa antever o que temos lá no fundo, bem no fundo da alma, começando pela vingança de Bernard Marx contra o DIC, expondo-lhe ao ridículo de lhe apresentar uma Linda decrépita e com um filho adulto, que se ajoelha diante dele chamando-o de pai, o que o torna motivo de chacota de todos e faz com que não resista ao escândalo e suma.

Que mostra maior de individualidade do que a vingança? E é exatamente dela que Bernard se vale, usando, a seguir, o Selvagem para se transformar em uma estrela, inflando seu ego, tornando-o importante, desejado pelas mulheres. O que o livro mostra é uma corte onde a bajulação tem um papel importante, abre portas, cria relacionamentos, presta e cobra favores, mesmo que sejam de natureza sexual. Os civilizados, neste caso, agem de forma idêntica aos selvagens, mostrando que o homem não perdeu, ainda, toda sua humanidade.

Ao mesmo tempo em que Bernard cria uma individualidade, a partir de seus sentimentos de diferença, o Selvagem cria uma estranheza. Criado para admirar a civilização, ele não se enquadra nela, não aceita que um seja de todos e se ferra ao amor, à paixão, mas a quer domada por um comprometimento, que é o casamento, o que pressupõe sacrifício, heroísmo, não o oferecimento de sexo fácil, como faz Lenina, o que a enquadra como prostituta, que não é digna do seu amor. A individualidade, aqui, leva a dois sentimentos básicos, o amor e a paixão, fazendo com que fiquem muito próximo do ódio, que virá a seguir e se voltará contra a civilização.

Sendo um indivíduo e tendo sentimentos, o Selvagem se vira, primeiro, contra Bernard, recusando-se ao beija mão que ele promove com os poderosos de plantão. E depois, no jogo da morte – lembrem-se que o corpo é matéria – vista como um ciclo natural, o que é difícil para alguém não condicionado aceitar, contra a própria civilização, atirando o soma ao largo e acabando preso. A revolta, no caso, não é contra a morte, mas contra o seu ritual, a despersonalização, a naturalidade com que é encarada.

O que sobra? O estranhamento de ser diferente, de não se enquadrar, o medo da perda de identidade. Pertencemos a um meio, parece dizer o Selvagem, e o civilizado Admirável Mundo Novo, não é o seu. Como aceitá-lo, então?

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