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O que vem a ser chalaça?
Antônio Houaiss define o termo como sendo “dito ou feito espirituoso, zombeteiro; escárnio, gracejo, motejo, dito ou gracejo de mau gosto; chocarrice. Elegância no andar da cavalgadura, entre os ciganos”. Pois muitos autores consideram que Francisco Gomes da Silva, conhecido como “O Chalaça”, foi o personagem mais influente do Primeiro Reinado, ainda que o Brasil contasse na época com algumas figuras consideradas exponenciais na corte, como José Bonifácio de Andrada e Silva e o Marquês de Barbacena.
José Roberto Torero escreveu a vida desse personagem da história do Brasil com irreverência e humor. Mas como fazer de uma comédia bufa senão isso? O livro – rigor histórico discutível pelo próprio estilo imposto à narrativa – é delicioso de ler. E mostra um pouco da construção da, digamos, “alma nacional”. Numa época em que o país ainda não existia – tratava-se de um Reino Unido – e a dita cultura brasileira, difusa, ia se formando à medida em que crescia a economia da ex-colônia com as iniciativas tomadas por Dom João VI (foto) e sua corte européia visando sempre, claro, seu conforto e riqueza.
Essa história nos remete a uma constatação necessária. Inevitável. O Brasil nasceu, cresceu, passou por fases distintas e crises inimagináveis, sempre à sombra de poderes diversos que se construíram/constituíram sobre instituições civis extremamente frágeis. Raramente a população foi ouvida quando decisões de Estado foram tomadas. A história da vinda da corte para o Brasil é o início disso. O Chalaça, como personagem, já morreu. Mas os chalaças sempre proliferaram no país e podem ser encontrados em praticamente todos os eventos marcantes da vida nacional. Inclusive os que são vividos hoje, quando finalmente parece que se está construindo instituições civis mais fortes. Perenes, quem sabe.
O Chalaça viveu à sombra, às custas e graças à paixão que Dom Pedro I tinha pelas mulheres. Soube se aproveitar disso, habitou a corte que se estruturava com os anos passados no Brasil e, no curto espaço do Primeiro Reinado, de apenas nove anos, tornou-se uma figura extremamente poderosa. E também odiada porque sua influência sobre o filho do rei rendia-lhe inimizades.
Há fatos na vida do Chalaça que nos remetem inevitavelmente aos dias de hoje. Em 1816, recebeu o rendoso emprego de Juiz da Balança da Casa da Moeda. Fantástico! Sensacional! Brilhante! O pilantra trabalhava conferindo o peso do ouro. É como a raposa tomando conta das galinhas…
Para que se faça idéia das benesses com que foi agraciado o incrível personagem que caiu nas graças de D. Pedro I, basta ler um resumo que dele traçou Alberto Rangel, historiador de “D. Pedro e da Marquesa de Santos”:
“A 19 de novembro de 1822, foi-lhe mandado entregar ouro para fatura da Coroa e do Cetro. Em dezembro de 1823, encontra-se oficial da Secretaria dos Negócios do Império: depois, a 4 de abril de 1825, oficial maior graduado da mesma Secretaria, com exercício no Gabinete Imperial; e a 16 de abril de 1827, um decreto mandava que ele, a seu pedido, recebesse emolumentos em “todas as Secretarias de Estado”, como se fosse Oficial efetivo delas! Intendente Geral das Cavalariças, Secretário do Gabinete Imperial, Conselheiro de Estado, Comandante da Imperial Guarda de Honra, Concessionário da Exploração do Ouro, oficial da Ordem do Cruzeiro, comendador honorário da Torre e Espada, comendador da Ordem de Cristo e de S. Leopoldo, ministro plenipotenciário, procurador e “factótum” de D. Amélia viúva, tudo isso Gomes o foi”.
Estranha e incrível figura, essa. Mas poderosa. Tanto que, ao não ter outra escolha a não ser a de mandar embora o Chalaça, Dom Pedro não permitiu que ele deixasse o Brasil enxovalhado, como um simples português desterrado. Nomeou-o Embaixador em Nápoles. O contador de piadas, o arranjador de namoradas, o gaiato, o biltre da corte portuguesa, terminava a carreira como diplomata brasileiro. Não é assim que acontece até hoje?

Gostei da idéia da trilogia, que a Lys vai fazer. Bem, a minha trilogia aborda três formas de preconceito que perpassam o conto: questão de idade (falei no meu ultimo post sobre isto); questão de gênero e questão de incesto. Hoje, vou falar sobre o incesto.

“I have everything, she decided. But then, a voice from her depths – I have nothing.”

Doris Lessing, As avós.

O incesto é um tabu fortemente estabelecido em nossa cultura. Aparentemente, acreditamos que é um tabu “natural”, ou seja, que todas as culturas através dos tempos, apresentam este mesmo tabu. A explicação “cientifica” para tanto é que a preservação da espécie fala mais alto – e relações entre parentes consangüíneos apresentam maior possibilidade de gerarem filhos com problemas genéticos.

Vários graus de incesto

No entanto, existem uma larga variedade de relações sob a denominação “incesto”. Pais com filhas. Irmãos com irmãs. Tios com sobrinhas. Primos com primas – e vice versa, ou do mesmo gênero. Os dois últimos casos (sobrinhos, primos), por apresentarem um distanciamento genético maior suscitam também maior discussão, dentro da regra acima falada (geração de filhos saudáveis). É interessante destacar que tal postura reafirma que as relações de amor e sexo devem ter um só objetivo: a procriação. Aliás, esta fato também é reforçado no conto, quando as duas amigas conversam sobre o futuro de seus filhos – precisam se casar, ter seus próprios filhos, enfim, devem se “enquadrar” no modelo familiar tradicional. A noção de família com o objetivo de procriação vem sendo profundamente questionada desde o advento da pílula anticoncepcional – e hoje o debate ganha força renovada com a questão do aborto e dos movimentos pró-vida. Denise discute este assunto em seu blog, ao comentar o filme Juno.

Estranhamento

O incesto ganhou status suficiente para ser analisado e discutido em nossa sociedade a partir de Freud, que disseminou o conceito do Complexo de Édipo. Édipo, cheio de culpa, que assassina o pai, que se casa com a própria mãe, que arranca seus olhos… Existe uma análise, de Foucault, sobre o mito do Édipo, em que ele mostra como, dentro da peça teatral de Sófocles, Édipo Rei, se percebe a construção das várias formas de culpa/castigo e justiça que o ser humano desenvolveu através dos tempos. Bom, mas isto já é outro tema. Voltemos ao incesto. No livro, este incesto transparece pela relação não consangüínea, mas sim, desenvolvida durante o crescimento dos dois meninos. Algo similar com a adoção que, hoje, também é tão debatida. O sentimento de maternidade / paternidade é instintivo ou construído? Os defensores da adoção e das novas estruturas familiares defendem que ele é construído. A cultura popular defende o contrario – daí a quantidade de “madrastas do mal” que povoam as histórias e contos infantis. Que tal examinar dois exemplos nos dias de hoje para conferir como as pessoas reagem quando as histórias saem da ficção para a realidade?

Incesto consangüíneo: o caso de John e Jenny.

É claro que os casos de incestos raramente vêm a público, mas psicólogos acreditam que são mais comuns do que usualmente se pensa. Um dos que geraram controvérsia foi o do casal australiano, John,61, e Jenny Deaves, 39. Eles se reencontraram após trinta anos e se envolveram sexual e afetivamente. Tiveram dois filhos. O primeiro, morreu com 4 dias. O Segundo bebe, que tem 9 meses, vai bem, obrigada. O pai alega que a morte do primeiro bebê não tem nada a ver com o fato de serem parentes. Afinal, diz ele, morrem centenas de bebes todos os anos com o mesmo problema, e ninguém alega que a culpa é dos pais.. Continua ele: -A sociedade se incomoda com este fato. Nós não! Estamos felizes, não fazemos mal a ninguém.
Mesmo assim, o justiça interveio no caso, e sentenciou o casal a três anos de prisão. Atualmente, eles são monitorados e proibidos de manterem relações sexuais (o que no Brasil se chama casamento com separação de corpos). Agora, uma perguntinha: proibido de terem relações sexuais? Por que? Para saber mais sobre o caso, ele está na mídia.

Incesto não parental: o caso Woody Allen

Em 1992, Mia Farrow, então esposa de Woody Allen, descobriu que ele a filha adotiva do casal, Soon-Yi, estavam tendo um caso. A repercussão foi enorme, incluindo a questão do incesto e da diferença de idade (Allen é 35 anos mais velho que Soon-Yi). O casal se separou e Woody Allen finalmente se casou com a filha adotiva em 1997. Adotaram duas crianças. Durante todo o processo, Mia alegou que Woody Allen havia molestado as crianças, proibiu a visitação aos outros filhos do casal e colocou lenha na fogueira. O cineasta foi praticamente execrado nos EUA e colocado – não vou dizer na geladeira! – foi no freezer mesmo. A relação já dura 16 anos e Allen conseguiu cativar novamente o público Americano.

São muitas as perguntas em torno destes assuntos. Uma, que me intriga, é a interferência do estado nos assuntos familiares. As vezes, parece nítido e claro que esta interferência deve existir – a obrigatoriedade da vacinação está aí para comprovar isto. Outras, nem tanto. Como delimitar o campo de atuação? Quais os critérios que devem ser utilizados? O que deve ser considerado aceitável – e por que? Afinal, os escravocratas tinham fortes argumentos para considerar “normal” a exploração dos negros! Hoje, sabemos que era uma questão econômica. E no caso do incesto, consangüíneo ou não? Como delimitar a aceitação? No livro, parece fácil aceitar. Na vida dos outros, também - afinal, quem deve se meter onde não é chamado? Mas… Mães e pais de plantão: como vocês reagiriam com seus próprios filhos casando com seus parceiros? Ou seus filhos casando entre si? Ethel Scliar

Estou a mais de meia hora olhando essa tela tentando escrever meu post, mas minhas avós ainda não chegaram (como se não bastasse tá inventando palavra no título, essa intimidade com quem ainda nem foi apresentada) e estou tentando me basear nos post dos outros colegas para fazer o meu. E como se faz isso sem cair no pecado “concordo com fulano, discordo de beltrano”? E ainda me fica aquela sentimento de “não gastar munição antes de começar o tiroteio”.

Lesbianismo e incesto… pois é né? Nem era para ser polémico. Amizade, amor… eeeiiii, a gente tá falando do mesmo livro??? Eu jurava que ia ler um história de duas senhoras amorosas que sentam em suas cadeiras de balanço para bordar enquanto um delicioso cheiro de bolo de fubá inunda o ambiente… Que coisa!!!

Mas é essa a visão de avó que 90% das pessoas tem. E isso nao mudará de uma hora para outra. Não estou levantando bandeira para acabar com essa imagem doce e terna da vovó, por favor, minha veia revolucionária foi clampeada a algumas décadas… NAO MUITAS, pois só uma jovem avó!

Porém, gostaria de levantar uma questão: se fosse “As tias”, mudaria alguma coisa? Eu sei… ninguém aqui está “chocado” com duas velhotinhas lesbicas, mas e o mundo?

by Bianca ScliarEstranheza. Perplexidade. Um impulso de  subverter o curso da história, refazendo a própria história. A relação amorosa das duas amigas (avós, o que reforça a diferença de idade) e seus respectivos filhos, é encoberta pelos planos para que uma vida rotineiramente tradicional se estabeleça. Como a diferença de idade é um dos plots do conto, vamos pular da ficção para a realidade.

50 ANOS DE DIFERENÇA

Tive dois namorados (não simultaneamente! Minha “modernidade” não chega a tanto…). Entre os dois, uma diferença de 50 anos. Ou seja: tive um namorado 25 anos mais novo que eu e um outro 25 anos mais velho. Geralmente, a pergunta que eu mais ouvia, em especial dos homens, quando contava isto, era: -E qual era o melhor? Entenda-se, aqui, “melhor” como desempenho sexual! Que parece ser uma grande preocupação masculina (me corrijam os homens, se eu estiver errada).
O problema, para mim, é definir este melhor. Lembro o que disse uma das minhas filhas, quando ela tinha 18 anos, sobre seu recente namorado. Ela, toda orgulhosa e muito segura de si: -Ah, está maravilhoso! Nós temos uma relação fantástica na cama, perfeita.
Caramba! Ou minha filha tem o dom da sabedoria precoce, ou eu era uma completa idiota aos 18 anos (agora, menos completa).
Voltando aos comentários. Em relação ao namorado que era mais velho, o comentário do filho dele: -Ela só pode estar interessada no seu dinheiro.
Em relação ao mais novo, comentário da família e dos amigos: -Ah, ele só pode estar interessado em seu dinheiro!
Parece que existe um tabu nas relações afetivas que transgridem as barreiras geracionais e que, portanto, só podem se estabelecer segundo os critérios de valoração na sociedade atual: sexo e dinheiro. Preconceitos que achamos superados Estarão mesmo? No caso do meu namorado mais novo, existia um outro componente, pois ele possuía um cabelo super longo e eu, na época, usava cabelo Joãozinho, bem rente. De costas, segundo os critérios vigentes, eu parecia o menino e ele a menina… Mas aí já entra a questão de gênero -também presente no conto-, que fica para o próximo post.

Vamos começar o post de As Avós como se esse artigo não fosse coisa séria. Mas é. Um belo dia, cansado de conviver diariamente com as diatribes do governo Lula, e também de tanto ler e ouvir sobre escândalos, Chico Buarque de Holanda propôs ao presidente, que já tem 38 ministérios, a criação de mais um: O Ministério do Vai Dar Merda. A ele seria dada a incumbência de evitar que a sucessão de escândalos e besteiras aumentasse além da conta. Além disso, acenderia a luz vermelha sempre que algo pudesse dar em merda.

As Avós é a típica história que teria de terminar dando errado. Em merda, no caso. E acaba sendo deliciosa de ler, e de ser lida em um único fôlego – no meu caso, com parada apenas para o almoço –, pois é impossível não curtir aquela trama que, desde sua metade, encaminha-se inevitavelmente para um final de comédia pastelão apesar da carga dramática dos momentos finais. Que, aliás, estão divididos entre as primeiras e as últimas páginas de forma magistral.

As Avós romperam com todas as convenções sociais vigentes. E o mais interessante na trama é que seu maior álibi se sustentava na visão equivocada de um senhor maduro apaixonado por Lil e que, num belo dia, chegou à terrível conclusão de que ela e Roz eram lésbicas. Amantes, por tão próximas, tão presentes uma na vida da outra. Isso as deixou tranqüilas. E como…

A novela (é uma novela) de Doris Lessing, escrita de forma magistral, mostra que algumas coisas a gente não deve registrar por escrito. Nem com a infantilidade com que se escreve de sopetão, nem com a maturidade preservacionista com que se guarda certos escritos por candura. Rupturas de convenções sociais são guardadas somente na memória. Até porque, nela, a gente pode manipular as recordações e dar asas à imaginação.

Quem nunca rompeu com uma convenção social? Que homem nunca teve atração, por exemplo, por uma priminha linda? Que mulher jamais se sentiu atraída por um exemplar do sexo oposto bem mais jovem? E aqui estou falando somente do que o livro trata: de relacionamento heterossexual maduro, furtivo, escondido, definitivamente a minha especialidade. E sem querer tecer críticas a quem prefere o inverso ou incursões em ambas as opções dessa atividade.

As Avós não é uma história aética. Nem amoral. Nem, muito menos, imoral. Não agride, embora transgrida. Ela conta em pouco menos de 100 páginas – repito, magistralmente escritas – um fato perfeitamente possível. Quem não conhece ao menos uma história do homem e da mulher que se apaixonaram, mesmo ambos sendo os melhores amigos dos parceiros do outro?

As Avós tiveram paixões que eram para elas, irresistíveis, iguais às dos exemplos citados acima. E foram correspondidas. O mais é considerar que, se elas tivessem o auxílio do conselho de Chico Buarque de Holanda, não teriam deixado o rastro que deixaram. Mas aí a novela não seria o primor que é.

woman in lineIsolar-se do mundo, criar um novo universo – mas quando o artista (em qualquer arte, em todas as formas) abre uma porta para este  território, nós espiamos, entreolhamos – e mergulhamos neste aquário.
Um pouco do cotidiano se esvai. Um pouco da rotina se desmancha no ar. Mas ao fechar a última página, voltamos para o nosso dia-a-dia, destino irrevogável.
E assim é, assim será com as duas avós: elas criam seu próprio mundo. Desde crianças, um caminho de proteção, um aquário construído por ambas, para se protegerem de tudo que escapa à compreensão. Fogem, pela amizade, ao bullying, à família, ao casamento cujas aparências mascaram, como um vidro sujo do aquário, os tesouros enterrados na areia.
E tentam – ah!, como tentam – quebrar estes vidros que aprisionam, mas, ao mesmo tempo, libertam. No entanto, isto não é possível. O destino das vidas entrelaçadas está amarrado. E a história se repetirá - quem sabe? – com as netas que crescem à beira-mar. E o livro, em tom poético, esconde, na verdade, a violência daquilo que a sociedade não aceita e a desesperança do irrealizável. Ethel SC
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PS: Eu não li o Carnê Dourado, o livro mais famoso de Doris Lessing. Mas, pegando o gancho do Lino, não dá para julgar um autor só por um livro (embora… bom, deixa isto prá lá, vou falar no assunto em outro post!). Doris tem até um pseudônimo, Jane Somers, com o qual publicou novelas sem ter o “peso” da fama. Até que descobriram, claro! Mas quem não tem estas múltiplas personalidades? Até as avós do livro – amigas, mães, avós, amantes. 

Crédito da foto: Woman in line. Performance. Criação e foto de Bianca Scliar.

Esse é o último post sobre esse tema super interessante escolhido pela Cissa. Desde o comeco, antes mesmo do livro ser escolhido, esse tema já estava dando pano pra manga nos e-mails que trocamos entre os participantes do Clube do Livro. A discussão continuou aqui nos posts, sempre de forma super interessante e enriquecedora.

A verdade é que ninguém passa batido, sem ter nenhuma opinião ou uma reflexão a respeito, quando o tema é esse. No caso da Mukhtar, que foi estuprada, a violência é física e, por isso, visível. Quando a violência deixa provas concretas, o nosso engajamento intelectual e emocional acaba sendo quase que imediato. Primeiramente ficamos revoltados com o ato em si e sentimos extrema empatia com a vítima, para depois passar a tentar fazer com que alguma coisa nessa história terrível faca sentido. A mesma coisa ocorre quando, por exemplo, falamos de circuncisão feminina. “Que coisa horrível, que ato bárbaro. Pobre menina, doe em mim só de pensar. Mas é a tradicão deles, a cultura é assim.” A verdade é que quanto mais longe da nossa própria cultura, mais difícil fica de compreender os rituais dos outros, ainda mais quando esses envolvem violência física. Já a violência que não deixa tracos físicos não nos engaja da mesma maneira. Por exemplo:

- Milhares de fetos são abortados todos os dias e em muitos países unicamente pelo fato de que esses fetos são meninas.

- Milhões de mocas e rapazes sao obrigados a aceitar casamentos arranjados por suas famílias.

- Milhares de viúvas na India são condenadas a viverem isoladas, sem contato algum com a sociedade, pelos simples motivo de que seus maridos estão mortos.

- Milhöes de mulheres ainda hoje recebem salários bem menores que homens, mesmo desempenhando a mesma funcão e tendo cargas horárias equivalentes.

- Milhões de mulheres alteram seus corpos através de cirurgias estéticas, colocando muitas vezes suas vidas em perigo, a fim de que consigam corresponder aos padrões sociais de beleza.

Na minha opinião, a violência que se pratica de forma sutil, tao sutil que a própria vítima não se percebe como tal é a  pior de todas. Mukhtar já era vítima dessa violência muito antes dela ter sido estuprada, mas por conta da quietude dessa violência, ela jamais recebeu ajuda, tão pouco identificou ela mesmo que necessitava de ajuda.

Ou a tradição da violência? Porque ela não se restringe à mulher. Do homem contra a mulher. É homem contra homem. Mulher contra mulher. Nação contra nação. Pele contra outra pele. Os fatos não me deixam mentir: André São Pedro, 22, estudante de farmácia, Maria Dias, 24, estudante de medicina e Thaís Tibiriçá, 24, estudante de jornalismo,brasileiros, foram barrados em Dublin. 48 horas na prisão. André é negro. Maria, morena. Uma garota de 12 anos é mantida acorrentada e espancada. Responsável: Sílvia Calabresi Lima, 41, empresária. Do marido, no mínimo cúmplice por omissão, nada se sabe. Os fatos relatados causam espanto e horror – mas se repetem continuamente e nada parece mudar.

Naturalmente violento
Será a espécie humana, como outras, naturalmente violenta? Afinal, é o homem que mata outro homem, seu vizinho, seu amigo, gente do mesmo agrupamento, coisa que poucas espécies fazem. Aponta-se a educação como saída para reverter tais fatos. Mas o ato de educar é violento – da violência física, até pouco aceita e estimulada, à violência psicológica. Bater com o chinelo, bater com cinto, dar umas palmadas ou uns cascudos – isto ainda é considerado “educar” em muitas famílias. Apenas 16 países no mundo proíbem que os pais dêem palmadas nos filhos. Na América Latina, somente o Uruguai. Para a sociedade, este é um “direito” dos pais (voltarei ao assunto no final do post: direitos x violência).
Paulo Sérgio Pinheiro (USP) realizou uma ampla pesquisa e encontrou dados estarrecedores. Em 106 países, é permitido que as escolas empreguem castigos corporais. Quando se trata de instituições assistenciais, o número sobe para 147 países. Em casa, como já vimos, o uso é generalizado.

Escândalo através dos séculos
O hábito de bater em crianças escandalizou os índios brasileiros, durante a colonização. Bater em crianças é algo impensável nas tribos. Não que eles fossem “bonzinhos”. Sua violência manifestava-se de outras formas. Além da violência física, há a violência psicológica. Fiz um trabalho prático com meus alunos de Mídia Eletrônica, em que eles precisavam desenvolver uma campanha publicitária para combater o bullying. Bullying é uma espécie de assédio moral (outra forma de violência) nas escolas. Estudo da ABRAPIA, Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência, demonstrou que 45% das crianças e jovens do Rio de Janeiro envolvem-se com a prática do bullying, seja como vítimas, seja como alvos (muitas vezes, das duas formas). Os números são condizentes com pesquisas realizadas em outros países. Pois bem, no final da aula, uma das alunas me procurou, com lágrimas nos olhos –“Então era isto que faziam comigo!” Contou que, aos 18 anos, fez uma cirurgia só por causa dos traumas que ficaram da infância. Os professores? Ausentes.

Vergonha, vergonha, vergonha
Vergonha, acreditar que a dor interna é normal, que isto acontece com todo mundo são alguns dos motives que levam as pessoas a se calarem. Mukhtar tem o mérito de ter falado, aberto a porta para a discussão do problema – um passo para encontrar a solução. Se somos violentos por natureza, o que fazer com esta violência, negada e renegada? Existe uma violência “do bem”?

As fronteiras da violência
O impulso da morte – Tanatos – foi desviado através dos tempos para rituais religiosos. Rituais de dança. Rituais de competição. Nos esportes, dos gladiadores gregos aos cavaleiros medievais; da caça à luta de boxe. Já tentaram me convencer que luta de boxe é um balé. Balé? Qual a graça de ver dois homens se esmurrando? Qual a graça de uma tourada? De uma farra do boi? Uma rinha de galos?
É claro que muitos irão alegar que existe uma graduação na violência, mas estabelecer este “termômetro” me parece muito difícil. Na época da abolição, os escravocratas se revoltavam com a perda do seu direito à propriedade. Sim. Os escravos eram “bens”, portanto, propriedades, direito este que a abolição estava violando. O mesmo direito que, hoje, os pais alegam em relação aos filhos. Assim, a questão da violência acaba tangenciando a questão dos direitos, mas todo direito positivado (adquirido) acaba por negativar um outro direito. O direito da criança de não receber palmadas significa a restrição da liberdade dos pais de darem palmadas, significa o direito do Estado interferir na vida privada. Por mim, lutas de boxe (e qualquer tipo de luta) seriam proibidas. Extremismo? Pode ser. E as violências do bem, como a arte? Já foi citado aqui o filme Laranja Mecânica. Ok. Mas como ficaria o Clube da Luta? E as panfletagens que inflamam as massas? Qual o limite e a fronteira entre uma violência aceitável e uma que deve ser combatida?
O Livreiro de Cabul, cuja história virou livro, considerou a publicação uma violência sem fronteiras – pois a vida morre, mas as palavras ficam.

Você é como uma criança que aprende a caminhar. É uma vida nova e você tem que recomeçar do começo. Eu não sou psiquiatra mas me conte sobre a sua vida antes disso tudo, sobre a sua infância, seu casamento e até mesmo sobre essa situação horrível a qual você foi submetida. Você tem que falar, Mukhtar, porque falando a gente põe pra fora tanto coisas boas quanto ruins. A gente se liberta. É como lavar uma peca de roupa suja: só quando ela finalmente fica limpa é que a gente pode usá-la sem receio.

(…)

“- Você fala sempre o que você pensa?

- Sempre!”

(…)

“Eu consegui realmente falar com Naseem e contar tudo pra ela. (…) O meu sofrimento físico e psíquico, a vergonha, a vontade de morrer, a confusão mental, como quando eu voltei sozinha para casa e me atirei na cama, como um animal agonizante. Pra ela eu pude falar coisas que seriam impossíveis de ser faladas para minha mãe ou minhas irmãs, pois, desde muito pequena, somente uma coisa eu fui ensinada - a me calar.”

Esse insight da Mukhtar, pra mim, valeu o livro, e a partir daí eu comecei a achá-lo interessante. Foi a necessidade de fazer com que a sua história fizesse sentido, que a levou a tomar as atitudes que ela tomou. Foi assim que ela aprendeu a falar - até então, ela só repetia a história dos outros.

Beijo pra vocês e bom fim de semana.

Terminei de ler o livro. Ele em sueco chama-se “A honra tem seu preco”, e no prefácio o editor descreve como o livro foi feito. Uma jornalista especializada em escrever “auto-biografias” de mulheres foi ao Paquistão, escutou os relatos da Mukhtar que foram devidamente traduzidos do idioma dela para o francês por dois intérpretes. A escritora então colocou tudo no papel em francês. Os interpretes traduziram novamente, só que dessa vez do francês para o idioma de Mukhtar, e gravaram uma espécie de audio book para que Mukhtar pudesse escutar e autorizar a publicacão. Ou seja, foi um trabalho grande de traducão. Mas isso é só uma curiosidade, que de repente até está na edicão em português.

A minha opinião depois de ter lido o livro é que não dá pra lê-lo sem se horrorizar com o sofrimento dessa moca. Muito menos dá pra ler um livro desses sem pensar sobre como violência contra mulher, religião e poder estão todos interligados nessa trama canalha. Infelizmente, há uma série de referências no livro sobre leis religiosas, tradicões locais e arranjos sociais que eu nunca havia lido sobre. Por isso mesmo eu nem me arrisco a colocar aqui minha opinião sobre quem é o ovo e quem é a galinha nessa história toda.

Uma coisa que fica evidente pra mim é como o corpo da mulher, independentemente da cultura, se torna sempre objeto na mão dos poderosos. No exemplo de Mukhtar, eles mantêm o poder, além de reforcarem e lavarem sua honra, através de atos de violência contra as mulheres. A religião parece ser um pano de fundo, que tanto dá esperanca e conforto à vítima, quanto é usada como arma contra ela pelos seus algozes. O corpo, o que ele significa, como pode ser usado e por quem é, a meu ver, o central em toda essa história. Não à toa as feministas no ocidente travaram e travam batalhas à favor do aborto e contra a pornografia.

Deixei um comentário há uns dias atrás aqui no clube, em que eu dizia que esse tipo de literatura “só” reforca a idéia que o Ocidente tem a respeito dos não-ocidentais como sendo não civilizados. Depois de ler o livro, eu definitivamente mudo de idéia. Acho que esse livro tem seu espaco e razão de ser.

Beijo pra vocês e desculpe o atraso em publicar o post.

violenc.jpgInsurgir-se contra a violência, principalmente quando ela é institucionalizada, é uma coisa muito difícil. Neste sentido, o comportamento de Mukthar Mai é impressionante, pois saiu de um lugar onde nada lhe era permitido para desnudar o comportamento de um segmento social que trata a mulher como objeto e age, em relação aos outros - sejam homens ou mulheres - como se fosse proprietários deles.

O que a paquistanesa fez - e deve-se a ela todos os elogios e reconhecimento pela iniciativa - foi expor uma parte da sociedade que nós, no Ocidente, por hipocrisia ou por desconhecimento, acreditávamos não mais existir. A violência é uma constante e são mulheres e mais pobres que estão mais sujeitos a ela. Institucionalizada, ela é usada como tacão para a manutenção do poder, de privilégios, como uma forma de subjugar pelo medo. Romper esta barreira é um ato de heroísmo. E foi isso o que Mukthar fez.

Há, em relação a questão, um aspecto que já ressaltei antes, mas que vale reabordar. Com a globalização, problemas que ficavam restritos às mais distantes regiões batem, todos os dias, à nossa porta. Foi assim que a situação de Mukthar se espalhou e contribuiu para dar-lhe abrangência, promovendo a mobilização que, no final, transformou o seu grito em apelo mundial. A idéia é que ao expor um problema, estamos contribuindo, de alguma forma, se não para a sua resolução, pelo menos para a mudança da intensidade dele.

Mas o que mudou? Se olharmos a questão seriamente, veremos que nada. A violência, no Paquistão e em inúmeros outros locais, continua sendo a tônica. E ela é exercida de forma indiscriminada, atingindo, sim, as mulheres, mas não poupando os homens e as crianças. Veja-se o caso da mutilação vaginal. Veja-se casos de ritos de passagens com jovens adolescentes. A prática é justificada como tradição.

Sim, pode ser uma tradição, mas no Ocidente é visto como algo exótico, como algo que só acontece lá, à distância. Nós somos civilizados. Eles são bárbaros. Eles são os outros e servem para nos diferenciar. É verdade. Mas também é verdade que os mesmos comportamentos que condenamos ocorrem no nosso quintal. E muitas vezes são aplaudidos.

Para que a situação mude precisamos de dezenas, centenas, milhares de Muktars Mais. Talvez assim o mundo - globalizado ou localizado - desperde para o fato de a toda hora alguém ser vítima da violência, seja ela física ou simbólica - o que não quer dizer que doa menos.

Acho que eu devo ser a única aqui no clube que ainda não leu o livro. Comecei essa semana, li umas dez páginas e pretendo acabar a leitura nesse fim de semana.

Os posts dessa semana já deram uma idéia do nível de discussão que vamos ter aqui no clube durante 5 semanas. O Lino comentou de forma muito pertinente, entre outras coisas, sobre a hipocrisia que volta e meia rola quando a discussão é sobre violência contra mulher. Dani nos lembrou da relação existente entre educação e poder, muito evidente no caso da nossa heroína. Ethel enumerou casos em que tribunais paralelos ao sistema judiciário decidem o destino de supostos infratores. Já Ciça nos chamou atenção à razão pela qual Mukthar escreveu o livro, além de nos lembrar que, quando se trata de proteger mulheres vítimas de violência relacionada a honra e tradição, muitas vezes o que impera mesmo é a politicagem.

Então só me resta ler o livro pra poder tentar alcançar o mesmo nível do amigos aqui do clube.

Beijo pra vocês e bom fim de semana.

Hoje era o meu dia de escrever algo sobre o tema “Fabricacão de humanos”. Passei uma boa parte do meu tempo pensando sobre o que escrever, depois de todos essas semanas de discussão sobre o livro.

Matutei, matutei e não cheguei a conclusão nenhuma. Apesar desse tema e do livro terem sido muito apreciados por mim, eu  realmente não tenho mais nada a acrescentar. Por enquanto, ainda somos criados a partir de uma ato muito humano, que se nem sempre é de muito amor, é invariavelmente de muita, digamos, tensão. Pra mim tá bom assim.

E o resto já foi dito.

Então, amigos, eu só tenho a desejá-los um ótimo fim de semana. Um fim de semana de muita alegria e descanso.

… apenas partem antes de nos.

Monet

Querido Alvaro, sinta-se abracado por todos seus companheiros do Clube do Livro.

Quando eu li Brave New World pela primeira vez, eu o fiz pra cumprir com uma tarefa escolar. Todo mundo já passou por isso, certo? O professor escolhe um livro e todo mundo tem que ler e discutir o bendito. Nem preciso dizer que essa obrigacão de ler um livro não me agradou nem um pouco. Mas li, fazer o que?, e não gostei muito do livro. Achei meio datado, com a paranóia do perído entre-guerras e principalmente cientificamente atrasado. Me refiro à forma como as pessoas eram criadas, alterando as condicões ambientais às quais os “bichinhos” eram expostos. A descoberta do DNA só seria feita décadas depois do lancamento do livro. Reler Brave New World, entretanto, me deu a chance de reavaliar os meus conceitos a respeito dele e de seus personagens. Um personagem, por exemplo, que me chamou bastante atencão dessa vez foi Bernard Marx.

Ele nasce em uma sociedade de castas, em que as pessoas são criadas com cópias,  não devem ficar sozinhas mas sim devotar seu tempo a atividades coletivas, devem consumir o máximo possível, não ter parceiros fixos, etc. Tudo isso em nome da estabilidade. Mas principalmente, elas não devem sentir-se infelizes. A profilaxia da felicidade se faz através de doses regulares da pílula chamada soma, a qual já foi discutida aqui no blog. O que acontece com Bernard Marx, um cara chato e com complexo de inferioridade,  é que ele não se sente feliz e não quer tomar o soma. Além disso, ele quer ter o direito de ficar sozinho. Ou seja, ele é a antítese do cidadão socialmente normal.

Voltando ao livro, e pra encurtar a história, Bernard Marx acaba recebendo autorizacão para visitar a reserva habitada pelos selvagens - os não-civilizados. Nessa lugar ele acaba ficando com uma mulher nascida civilizada mas acabou sendo levada a morar entre os selvagens. Essa mulher, por sua vez, tem um filho, nascido na reserva e que sonha em viver entre os civilizados. Quando ele finalmente concretiza seu sonho, os valores do mundo onde ele vivia e do mundo novo colidem, resultando em um catastrofal choque cultural. Bernard Max é a ponte entre esses dois mundos e, no final das contas, acaba sendo banido por seu comportamento não conformista.

Só por essa trama, o livro já vale a pena ser lido. Se da primeira vez que li o livro, me liguei à parafernália tecnológica e àquele mundo anti-utópico, e achei o livro um tanto chato, dessa vez me chamou mais atencão o conteúdo socio-psicológico super atual. Quantos Bernards conhecemos realmente? Que preco se paga, quando se escolhe o não-condicionamento? Qual a interferência da tecnologia nas relacões entre as pessoas e os conceitos de felicidade?

Dessa vez então eu recomendo a leitura e fico grata de ter surgido a oportunidade de reler esse clássico.

Abraco  pra vocês!

bandeira brasileiraVou retomar um dos fios do Admirável Mundo Novo, que já foi abordado aqui: a questão do controle da informação, da estabilidade e do poder ditatorial. Mustafá Mond, discutindo com o Selvagem, pondera: “Nós acreditamos na felicidade e na estabilidade. (…) Sete horas e meia de trabalho leve, de modo algum exaustivo, e depois a ração de soma, os esportes, a cópula sem restrições e o cinema sensível. Que mais poderiam pedir?

Em fevereiro, tem carná…
Faltou acrescentar carnaval e futebol, em fevereiro, tem carná…
Por isso, me espanta a bandeira brasileira: ordem e progresso. Mas dá para ter progresso com ordem? Para mim, o progresso sempre foi associado, justamente, com um ligeira desordem, aquele desequilíbrio que impulsiona a superação. Justamente o que o Admirável Mundo Novo quer impedir, mantendo a estabilidade e o status quo. Castas felizes – e sem mobilidade. Na ditadura assim era, assim seria. Campeões do mundo, feliz, 80 milhões em ação, salve a seleção. Mas nos jornais, censura rígida. Tudo
em ordem, na santa paz da casa. Afinal, a classe média clama por ordem – conheço bem, faço parte dela.

Big Brother nas esquinas
Não quer perder o pouco que tem: cadê a coragem para abrir mão do carro, do sonho da casa própria, da escola particular e de outros símbolos desta casta? Que venham as câmeras, vigiando ruas, casas, lojas e supermercados. Que venham as grades nas janelas e os espaços de lazer confinados.

Admirável Brasil Novo
Mas um professor, no fundo do seu inconsciente, perdeu um milhão ao responder: na faixa da bandeira está escrito Ordem OU Progresso.
Foi no Show do Milhão, do dia 21 de fevereiro de 2002, e a resposta foi dada pelo professor aposentado Jair Hermínio da Silva. Errada? Acho que ele respondeu certo.

Troquemos a bandeira! Só não sei o que colocaríamos no lugar para representar este Admirável Brasil Novo. Aceito sugestões.

Passei quase que a tarde inteira escrevendo um post sobre como foi reler esse livro agora, quase 15 anos depois de ter lido pela primeira vez. No final das contas resolvi dar uma olhadinha no you tube sobre o que havia sobre o Brave New World. Achei esse depoimento do próprio Aldous Huxley, com legendas em português, e que vale muito a pena dar uma olhadinha. Reparem que o cachorro que aparece no vídeo é uma alusão aos “cachorros de Pavlov”, experimento que foi a base para a teoria sobre o condicionamento clássico e que veio a influenciar uma escola psicológica muito na moda na época em que Huxley escreveu o livro e muito viva até hoje. A Lys já escreveu sobre isso aqui.

Curto e conciso. O meu derradeiro post sobre esse livro, guardo pra próxima semana.

Beijo bom fim de semana pra vocês.

Bem, estreando aqui como “posteira”. Depois da maratona do Lino, ficou complicado! Mas vamos que vamos. Como uma vez palpiteira, sempre palpiteira, vou ser o-b-r-i-g-a-d-a a comentar também alguns posts que já se foram. Mas esta “repescagem” fica para o próximo. Agora, vamos polemizar um pouco, que adoro uma luta vale tudo verbal…

 O sopro da vida
Uma das questões que me atraem no livro é justamente como definir o que é humano e a questão –tão atual – das pesquisas genéticas. Onde começa a vida humana? Onde termina? É uma questão científica? Histórica? Moral? Para debater a Lei da Biogenética no Brasil, não se convocou nenhum filósofo. E até hoje ainda se discute – sem sucesso – a questão do aborto: direitos da mãe, direitos do feto. Isso, para não falar  na famigerada melhoria racial e nas limpezas étnicas. Parecem todos contra – mas e os anacéfalos? É o cérebro que define nossa humanidade? Qual o limite da inteligência para tanto? Alguém tem a resposta?

Pelos excluídos
Oscar PitoriusPara complicar, tem a questão da inclusão. Somos todos politicamente corretos – ou não? Afinal, queremos uma sociedade mais justa, em que as diferenças sejam respeitadas. Que todos tenham as mesmas oportunidades – ao contrário do Admirável Mundo Novo, em que cada um deve ficar feliz com aquilo para o qual foi programado. Gostamos de incentivar, de ver as pessoas “virarem a mesa” e superarem desafios. Certo?

E nas Olimpíadas…
Nem tanto. Como fica o caso de Oscar Pistorius, o corredor sul-africano, campeão para-olímpico? Oscar quer disputar os 400 metros na Olimpíada de Pequim (não a para-olimpíada, mas aquela que inundará nossos lares). Bacana – afinal, como não torcer por ele, que nasceu com um problema nas pernas, amputou abaixou dos joelhos as duas, e agora tem uma prótese de carbono? Um verdadeiro herói! Exemplo de determinação. Só que o comitê olímpico acaba de proibir. Afinal, a “desvantagem” de Oscar foi considerada uma vantagem: suas pernas são biônicas. Como os desajustados de Huxley, onde ele se encaixa? Deve se negar o direito de ele correr com qualquer corredor? Ou estaremos abrindo as portas para que, no futuro, atletas amputem seus membros para dar lugar a um admirável mundo novo? Qual a sua decisão?

Recebi meu livro ontem. Fui buscá-lo assim que saí do trabalho e comecei a ler depois que coloquei a gurizadinha aqui em casa pra dormir.

Estou achando muito interessante a história e o tom meio que satírico com que o autor conduz a trama. “Depois de Ford”, por exemplo, e a alusão descarada ao calvinismo com “os predestinados” não é demais?

Capítulo um já se foi, fim de semana chegando, e pra quem não leu ainda, eu rrrrrrecomendo!

Boa leitura a todos.

Oi, gente.

Voto em “Admirável mundo novo” como leitura e comentários. Lino diz que como a sugestão dos três títulos foi dele, ele se abstém de votar e aceita a escolha que for feita. 

Um abraço

Álvaro Silva

Gente, bom dia.

Ontem o Lino Resende, meu sócio, convidou-me para fazer parte do clube e a Lys, gentilmente, não apenas aceitou como também leu um artigo de meu blog e fez um comentário. Que início de dia ótimo!!!

Estou feliz em fazer parte desse grupo. Adoro literatura e, inclusive, já “cometi” alguns desatinos nessa área.

Vamos em frente porque ler é bom, comentar o que se lê é melhor ainda e trocar opiniões enriquece a todos. Tenho certeza de que nosso convívio vai ser uma experiência enriquecedora. Quero aprender muito com vocês.

Um abraço geral.   

Depois de ter me perdido em vários caminhos, esquecido login e senha e ter sido salva pela Lys, chego ao Clube do Livro!
É bem verdade que já estava a par de tudo que aqui acontecia. Ainda assim, dá um friozinho na barriga me saber parte de um projeto que é inovador e tem como objetivo a leitura comentada. Preciso dizer que morri de inveja da Lys. Este foi sempre um desejo meu: criar um espaço onde houvesse leitura e interação - pra mim, mais do que atitudes, dois grandes instrumentos de crescimento individual e coletivo.
Então, começo a minha participação parabenizando a moça do reino encantado que teve a brilhante idéia e todo o trabalho para colocá-la em prática. Parabéns também ao Lino pelas sugestões dadas. E parabéns aos participantes por terem aceitado o desafio de passar por cima de suas limitações de tempo e espaço (todos temos) para fazer nascer, crescer, e quem sabe espalhar-se, o Clube do Livro.
E fico com a escolha que me parece já definida: Aldous Huxley! Este, o autor de um dos melhores livros que já li e que releio sempre: Contraponto. (Sei que não cabe falar de outros livros agora, mas tinha que falar deste) Então vamos à leitura de Admirável Mundo Novo.
Por enquanto, deixo beijos a todos - autores e participantes. E repito: é um prazer estar aqui!