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Um dos aspectos que me chamou a atenção em O Chalaça, que este Clube está lendo, foi o tratamento dispensado às mulheres. Em alguns momentos, elas são tratadas como se fossem deusas e olhadas como tal. Mas mesmo nestes momentos são vistas, de certa forma, como objetos.

Veja-se o caso do próprio Chalaça. Seus envolvimentos foram, tirando o último, todos somente sexuais. As mulheres, neste caso, não representavam nada além de um bom sexo - o que, sendo aceitável para os dois lados, não pode ser condenado. Não há um relacionamento diferenciado. Será que era uma característica da época?

Outro aspecto interessante sobre os relacionamentos é, pelo menos do ponto de vista do livro, a facilidade para o relacionamento sexual. E não estou falando dos prostíbulos, não. Estes sempre existiram - e continuam existindo, de forma diferente. O livro faz parecer que o intercurso sexual era natural, em se tratando de relacionamento homem e mulher.

Na verdade, se olharmos o lado histórico, há, efetivamente, a prevalência do machismo, já que as mulheres eram, mesmo na nobreza, voltadas para dentro de casa, submissas a seus senhores e maridos. Mas pelo que sei, não havia a permissividade sexual retratada nas “memórias” do conselheiro.

Pode ser que a nobreza tenha tido maior liberdade sexual, mas ela não chega, pelo que se vê na história, nem perto do que O Chalaça retrata. E isso, no meu entender, mostra que, antes de fazer história ou usá-la para desenvolver o romance, José Roberto Torero inestiu tudo na ficção.

E ao fazê-lo, centrando-se no picaresco, acabou sobrevalorizando comportamentos que são ahistóricos.

Sou uma leitora contumaz. Leio tudo mesmo. Até obituário de jornal (vai que morri e esqueceram de me avisar!). Leio bula de remédio, rótulo de embalagem de caixa de fósforo, etiqueta de toalha no banheiro. Vejo graça nas Páginas Amarelas, produto em extinção graças ao Mr. Google, que tudo sabe e tudo responde. Pois vou lá digitar. Espere um pouco aí.
(… 10 minutos depois)
150 links para “ler pelo prazer de ler”. Os primeiros trazem de volta aqui para o Clube do Livro, então fica uma coisa de labirinto, que anda em círculos e não chega a lugar nenhum.
Mas outros trazem algumas informações preciosas. No Horas Serenas, com humor, 10 bons motivos para ler, um texto destinado aos jovens (bem, somos todos, pois não?). Destaco três:

1. Ler deixa os pais confusos;

2.Você não é obrigado a tomar banho depois de ler (ao contrario da Educação Física) e…

3. Os livros não ficam presos no aparelho dos dentes!

A pesquisa poderia continuar, enfronhando-se pela busca da definição do que é um bom livro… Existiria consenso?

Motivos e anti-motivos

Livros que nos surpreendem, livros que contem algo de novo, que nos acrescentam, emocionam… Não sei bem ao certo. A surpresa, descartei. Afinal, se fosse assim, jamais iria reler algumas obras. Mas existem algumas que criam raízes, leio e releio e gosto cada vez mais. Outras, na memória eram espetaculares: na segunda leitura não resistiram ao tempo. Fico sempre em dúvida, ao indicar um livro… Será que o outro vai achar mesmo bom ou vai achar bom…ba?

Pelo avesso

E se eu pensar ao contrário? O que NÃO gosto em um livro? Frases feitas, chavões, parágrafos que enrolam, enrolam… Um certo pedantismo. Livros que não se assumem – ora pois, há espaço para água com açúcar, sim senhor! Por que inventar de dizer que é alta filosofia? Eu li muita Biblioteca das Moças, chorei lagrimas verdadeiras pelas heroínas que se perdiam nos braços de amores impossíveis. Nada disto afetou (bom, pelo menos eu acho!) meu futuro de leitora – Machado de Assis, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Padre Antonio Vieira, li com prazer as obras “obrigatórias” da escola, junto com outras, furtivas –Lolita, Suave é a Noite. Junto, muito gibi, é claro! Gêneros de todo tipo, se for citar, não acaba mais, pois gosto de infantil, de ficção cientifica, de biografias, contos, história. Leitura cientifica também. Filosofia. Psicologia. Educação. Gosto da polêmica e da textura das palavras e do papel. Alguns me atraem pelo título ou pela capa. Tudo tem seu tempo, tudo tem sua hora. Até aceito, com ternura, os livros que jamais lerei, mas que outros folheiam com prazer. E espero que alguém, um dia, abra as páginas que eu mesmo escrevo e diga, com espanto -Mas quem é esta onde me reconheço?

E seria um personagem ou realidade, mas seria.

*Este é o verso de uma poesia de Cecilia Meireles, que termina, se não me engano, assim: Tanto que fazer, e nunca fizemos nada, nem sabemos o porquê.

Voltando ao tema proposto pela Lu… o que é um livro bem escrito pra você?!?!

Concordo que ler um livro bem escrito é um prazer indescritível!! Se ambientar na história, se sentir amiga(o) dos personagens, ter aquela sensação de curiosidade e de tristeza com o final do livro… tudo isso é bom demais!!! Mas volto a pergunta: o que é um livro bom pra você?!?! Será que um livro que eu adoro vai ser bom pra Lys ou pro Lino, pra Lu, pra Ciça, pro Álvaro, pra Scliar?!?! (por isso também o Clube é tão bom!!)

Confesso que tenho um certo preconceito com os livros “intelectuais”, ganhadores de prêmio Nobel e afins. Sou leitora assumida de romances, adoro aqueles água com açúcar!! Meu paidrasto fica me zoando que minha leitura melhorou muito depois de entrar aqui no Clube!!! Mas a verdade é que eu gosto de ler um livro fácil, relaxante!! Tudo bem, admito, ADOREI As avós!!! E olha que eu tava meio receosa de detestar!! Assim como, desde o começo, temo a vez da Lys escolher a Simone!!! rs

Enfim, o que quero dizer é: um livro bem escrito também depende de quem está lendo. Neve, por exemplo, que foi uma das opções da Lu, eu comecei a ler e desisti porque detestei!! Mas penso que com livro é assim, não importa se ele é Nobel ou não, alguns vão nos conquistar e outros nem tanto!!!

E você. o que considera um livro bem escrito?!!?

Mil beijos, Dani

Hoje eh dia de encerrar a Trilogia dos Excludentes e Excluidos que conta com os posts: Amizade (que ja foi publicado aqui), Cumplicidade (que tambem ja foi publicado aqui) e Incesto. Hoje vou publicar a terceira e ultima parte.

Incesto:

O diferencial nesse conto, no meu ponto de vista eh o incesto como Lino citou bem em seu post. E depois a Scliar reforcou em um dos posts dela. A amizade era forte porem normal segundo o que eh entendido como normal pela sociedade, a separacao dos casais compreensivel, o amor das mulheres pela sua cidade compreensivel, o relacionamento de uma mulher mais velha com um rapaz jovem tambem eh compreensivel. O que nao eh compreensivel, nem mesmo pelas protagonistas, eh o fato de esses rapazes serem praticamente seus filhos.

Na wikipedia achei uma definicao bastante interessante de incesto e nesse caso do livro a relacao pode sim ser definida como incestuosa de fato, como um incesto nao parental. Visto que na palavra parente pode ser incluido ligacoes maternais nao sanguineas. Com isso, fazer sexo com o filho adolescente de sua melhor amiga, que foi criado desde bebe sob seus cuidados como se fosse uma segunda mae, tambem eh definido como incesto.

Na maior parte dos paises o incesto eh legalmente proibido, mesmo que haja consentimento de ambas as partes. Ou seja, no livro, ou mesmo que eles estivessem vivendo essa experiencia na vida real, os quatro tinham motivos de sobra para manter esse segredo longe do alcance dos outros. E nesse caso “os outros” nao significa apenas nao pertencer ao grupo de amizade e sim nao pertencerem ao grupo dos “pervertidos”.

Na natureza, entre os animais e ate mesmo em nossos antepassados colonizadores, o incesto era legal e aceito com uma certa naturalidade. Um filho proveniente de uma relacao consanguinea pode reproduzir e intensificar problemas geneticos pre-existentes. Relacoes sexuais e amorozas entre pessoas ligadas em paretesco, nao necessariamente sanguineo, eh condenada pela igreja e sociedade aonde nos e as avos vivemos.

A questao eh: “Os quatro” sao de fato culpados por terem deixado esse amor acontecer ? De fato nao precisamos tomar uma posicao pois a sociedade ja o faz em maioria e as avos sabiam muito bem disso e por essa razao escondiam. Independente do que achamos ou deixamos de achar, ocorreu um incesto e essa relacao nao poderia deixar de ser excludente, como disse a Dani. No entanto, pensando por esse lado nao seria mais uma vez “os quatro” os excluidos ao inves dos excludentes ?

O fato eh que “as avos” estavam definitivamente fora do que poderia ser aceito pela sociedade que as rodeava e aos nao aceitos so resta a exclusao. De qualquer forma, eh como o Alvaro disse: So poderia acabar em merda…

Continuando o que comecei no meu post passado, hoje darei continuidade a Trilogia dos Excludentes e Excluidos que conta com os posts: Amizade (que ja foi publicado aqui), Cumplicidade e Incesto. Hoje vou publicar a segunda parte.

Cumplicidade:

Uma coisa que concordo mas ao mesmo tempo discordo dos comentarios que li eh a sugestao de que as avos tenham criado um grupo fechado aonde ninguem entra e ninguem sai. Como assim concordo discordando ? Pois bem, concordo que no final existia um grupo fechado entre os quatro (avos e filhos), mas acredito que isso tenha acontecido apenas por forcas das circunstancias. Afinal, os que nao se encaixam se excluem nao eh mesmo ?

* Segundo o ponto de vista deles: Eles eram cumplices de uma situacao que se desenrolou de forma natural que aos olhos da sociedade seria visto como um crime. Essa mistura de culpa e remorso os faziam fechar e omitir com todas as forcas o seu grande segredo. Eram os quatro cumplices de um crime que nao podia ser divulgado. Olhares atentos e preocupacoes constantes sobre a exposicao de um sentimento. Qualquer caricia ou carinho deveria ser policiado a cada momento. Se as pessoas descobrissem seria uma vergonha. Uma vergonha nao porque duas mulheres maduras e bonitas e independentes estavam tendo relacoes sexuais com adolescentes, nao por causa disso, mas sim porque esses adolescentes poderiam ser considerados seus proprios filhos. Essa propria dor que as atormentavam era a mesma fortaleza que as protegiam pois jamais ninguem suspeitou que algo do tipo poderia estar acontecendo, afinal, eram todos uma grande familia. Ser considerada lesbica nesse aspecto, mesmo que de forma equivocada, era mais confortante para as avos do que expor a vergonha de estarem apaixonadas por seus proprios filhos. Pois ser lebica as excluiriam sim, mas nao as colocariam na fogueira dos infernos como a familia Borgia do seculo atual ;) .

Na atmosfera, uma mistura de amor, ternura, cumplicidade e acima de tudo medo que aos olhos de outros poderia ser interpretado de algumas maneiras:

a. Segundo o ponto de vista de Hannah: Eles sao apenas uma bela familia e com a cumplicidade natural de uma familia. Eh natural que exista esse carinho e cumplicidade entre os rapazes e as maes, ja que foram criados juntos desde que nasceram. Elas sao as maes deles !

b. Segundo o ponto de vista de Sam: Elas sao lesbicas e criam os meninos como se fossem seus proprios filhos. Era necessario uma presenca masculina na casa para apoiar os meninos para que eles crescessem saudaveis.

c. Segundo o ponto de vista de Mary: Eles possuem entre eles algo mais do que cumplicidade natural. Eh inconfortante saber que existe alguem que conhece seu companheiro mais do que voce em todos os aspectos
possiveis. Entao ai surge a duvida, a inseguranca e a curiosidade que levou ao descobrimento dos fatos.

Agora temos os excluidos por um lado e “os quatro” excludentes de outro. Por outro lado, “os quatro” excludentes continuam sendo excluido se considerarmos os padroes de sociedade vigente. E por esse mesmo lado os que antes eram excluidos fazem parte da sociedade excludente tambem. E de excluidos eles passar a ser excludentes :)

Finalmente peguei no livro. E foi assim, como todos os outros autores, lido em uma sentada. O livro eh envolvente e como o Lino ja disse, possui uma linguagem simples porem refinada. Me assustei um pouco com a primeira pagina, pois logo de cara ja encontrei umas tres palavras que eu nao sabia o significado. Achei que teria problemas com o ingles pelo fato de a autora ser britanica e tambem merecedora de um nobel de literatura. Ou seja, fui pre’ conceituosa e quebrei a cara :). Que feio ne Lys ? No final, Doris me ensinou que nao eh necessario escrever um texto rebuscado para se fazer literatura com maestria.

Adorei o conto. Como todos ja disseram aqui, achei envolvente, gostoso, dinamico e muito bem escrito. No entanto, cheguei a conclusoes diferentes das dos meus colegas autores a respeito de alguns pontos da estoria. E eh isso que acho mais interessante nesse clube sabia ? Sete pessoas lendo o mesmo livro e cada um apontando para algo interessante e segundo um ponto de vista diferente. E como disse a Scliar em um comentario no post da Cica, depois que a obra saiu das maos da Doris que as criou, as avos seguem seu rumo e cabe a nos criar o resto da historia em nossas cabecas.

Vou contar para voces alguns topicos que para mim sao pontos interessantes nesse conto, mas terei que dividir em tres partes para nao ficar muito longo (pois eh pois eh, estou comecando a me preocupar com isso). Chamarei a serie de posts de: Trilogia dos Excludentes e Excluidos que contara com os posts: Amizade, Cumplicidade e Incesto. Hoje vou publicar a primeira parte !

Amizade:

O livro conta uma estoria de amizade sincera e para toda uma vida. No meu ponto de vista a amizade entre as avos (Roz e Lil) era apenas uma amizade legal e sincera. Nao havia cobrancas e nada de ruim entre elas. Nao havia nenhuma relacao de inveja e ciumes alem do normal entre duas amigas. Nao havia tentativa de possuir a existencia da outra ou produzir dependencia. Apenas uma amizade que evolui em ciclos, seguindo seu rumo e brilhando em palcos paralelos, porem sempre proximas. Nao por obrigacao, mas apenas por opcao.

Segundo o ponto de vista de Harold (marido de Roz), era inconcebivel dividi-la com outra pessoa. Nao entendia como sua esposa poderia ser mais intima de uma terceira pessoa do que com ele proprio. Eh bastante facil compreender o lado de Harold tambem, pois quando nos casamos queremos de certa forma possuir o companheiro e ser a pessoa mais importante da vida dos nossos conjugues. Vai dizer que nao ? Nao conheco nenhum casal que seja diferente.

No entanto ate mesmo Harold no final chegou a conclusao de que nao havia nada de mal entre as avos, e sim, que ele gostaria de ter uma relacao mais tradicional que finalmente conquistou no futuro e todos viveram felizes e em harmonia. Uma familia tradicional e bacaninha de acordo com os padroes de felicidades da maioria.

Apesar de Lil ter sido o pivo da separacao, nao ha nenhuma evidencia no livro que indique que o motivo principal da decisao de nao mudar de cidade com o marido tenha sido o fato de ficar longe da amiga. Roz tinha sua vida ligada a cidade, sua carreira e seus desejos futuros. Ficar foi uma opcao aonde pesaram varios fatores nao somente a amizade. Eu faria diferente, pois tambem gosto desse esquema bacaninha de acordo com os padroes de felicidades da maioria, mas entendo que Roz teve motivos de sobra para ficar.

Agora aqui me pergunto, quem era o excluido e quem era o excludente da relacao ? Harold se sentia excluido da relacao entre Roz e Lil. Por outro lado ele disse que Roz nao se encaixava no grupo de pessoas normais capazes de compor uma familia tradicional segundo os padroes vigentes na sociedade. Ou seja, agora a excluida eh Roz e Lil ?

Uma coisa que achei linda no livro foi a amizade das avós. O jeito delas de saber o que a outra pensava ou sentia, a forma de se comunicar, mesmo em silêncio. Como disse no outro post me apaixonei por elas e só depois de baixar o livro e parar pra pensar sobre ele comecei a ver coisas que me incomodaram…

Uma delas foi a separação da Roz porque o marido se sentia excluído. Eu já presenciei uma amizade assim, que não precisa de mais ninguém e onde duas amigas se bastam… pode até ser algo lindo e gostoso de vivenciar mas é cruel com aqueles que amam as amigas e são mantidos sempre do lado de fora!! A amizade que não tem espaço pra liberdade é como aquele amor bandido que isola e separa os amantes de todas as outras pessoas amadas.

O ser humano precisa de amor mas o amor verdadeiro não isola, não poda nem impede mais amor. O amor verdadeiro atrai ainda mais amor e cria cada vez mais vínculos e mais laços!! Então fico pensando… será que a Roz e a Lil se amavam mesmo ou era só uma sensação de posse que impedia que elas amassem outras pessoas?!?! O que vocês acham??

Beijos, Dani

“Ler pelo prazer de ler”. A proposta que levou à escolha de As Avós como um dos livros deste clube está se cumprindo integralmente. E isso se dá porque e em primeiro lugar, o livro é uma delícia, envolvente, charmoso e que nos proporciona, de fato, o prazer da leitura.
Mas o que provoca este deleite? No meu entender, ele se prende à linguagem usada, que é refinada, e construída de forma a oferecer o envolvimento do leitor, mas a beleza das construções, com excelentes figuras de imagens que acabam nos transportando para o ambiente em que a história se situa, um local próximo da praia, casas próximas, ligação de amizade extremada, exclusão de quem não participa do círculo íntimo, etc.
Em relação à edição brasileira, que li, considero que a tradução foi excelente, já que conseguiu manter o clima do livro. Esta, infelizmente, não é a regra no caso do Brasil. Em muitas obras expressões idiomáticas, por exemplo, são traduziadas ao pé da letra, fazendo com que perca o seu sentido original. Não foi o que aconteceu com As Avós. E isso contribuiu para manter o clima do livro, torná-lo envolvendo e, realmente, transformar a leitura em um prazer.
No final, a história é a celebração da amizada, mas uma amizade tão profunda que, poderíamos dizer, se transforma em dependência mútua, é excludente, constrói um muro em volta e exclui o mundo. Não é, se olharmos bem, um ambiente saudável. O dr. Sigmund na certa acharia isso meio estranho e teria, não tenho dúvida, uma teoria para a classificar.
Acho que esta situação fica bem evidente quando Harold, diante do convite para lecionar em uma outra ciadade, anuncia sua intenção de mudar, estabelecendo-se um diálogo sobre o relacionamento dele e de Roz, para concluir: (…)mas não é comigo que você tem uma relação?”. Logo depois, Roz conta a Lil o que aconteceu e esta fica surpresa, afirmando que Harold foi quem se excluiu.
O que acontece, no final, todos nós sabemos: o envolvimento com os filhos - uma da outra - e a descoberta pelas mulheres dos filhos. Com isso, e com a promessa de que nunca mais verão as netas, quebra-se o muro, abre-se nele uma brecha. Mas permanece a ligação Lil Roz e delas com os filhos, ligados não só pela maternidade, mas, como já disse, por um tipo de relação quase incestuosa.

Ainda nao li o livro. Passei por um periodo de ferias dos blogs e me ausentei domingo passado aqui do Clube por pura exaustao. Mas, bola para a frente que atras vem gente… hoje ja coloquei tudo em dia, li todos os posts que perdi e devo confessar que isso so me fez ter mais vontade de ler e de hoje nao passa !

Como ainda nao li, hoje vou falar de algo que acho super interessante que eh o processo criativo. Afinal, o que define um livro bem escrito o qual temos tanto prazer de ler se nao a capacidade criativa e descritiva de algumas pessoas tal como a Doris ?

O processo criativo eh algo de fato interessante e ao mesmo tempo intrigante. Aposto que muitos de voces tambem ja tiveram a mesma impressao que eu ao escutar a entrevista com algum musico famoso e se decepcionar com a falta de expressividade ou ate mesmo com sua antipatia e sua falta de vontade em dar entrevistas e interagir com o publico. Muitas vezes nos perguntamos: Como eh que pode esse “mala sem alca” ter criado algo tao genial, tao doce, tao lindo ? O problema eh que a maioria das vezes vemos a obra pronta, mas nao o processo criativo. E durante o processo criativo essas pessoas geniais muitas vezes se transformam em pessoas desconhecidas ate mesmo para os proprios criadores. No entanto, eh facil para nos entender e respeitar as excentricidades do Joao Gilberto apos ve-lo executar a musica “chega de saudade” com uma perfeicao impar por conta de sua insistencia por uma afinacao perfeita. Por outro lado isso eh ainda mais complexo de entender no caso de um escritor que jamais veremos em acao de fato.

Alguns autores se trancam em seus quartos com suas maquinas de escrever ou computadores. A necessidade de ter seu proprio quarto ou cantinho para se isolar do mundo real e entrar no mundo criativo foi discutido muito seriamente por Virginia Woolf, escritora britanica que escreveu um trabalho entitulado A Room of One’s Own com a famosa frase: “a woman must have money and a room of her own if she is to write fiction”, nos colocando a importancia de se ter um lugar so seu para escrever e criar uma obra. Esse era o argumento que ela encontrava para justificar o fato de nao haver muitas mulheres escritoras na epoca dela.

Mas como sera essa cantinho de cada escritor ? Acho que nao precisa ser necessariamente um quarto ou um escritorio sombrio cheio de fumaca de cigarros. Pelo contrario, pode ser algo totalmente diferente. Simone de Beauvoir por exemplo escreveu a maior parte de suas obras em cafes, o mais famoso deles eh o Cafe de Flores que fica na Saint Gremain des Pres em Paris. O cafe ainda existe e mantem a mesma decoracao Art Deco da epoca, mas apesar de caro pra caramba vale super a pena entrar e tomar um chocolate quente so para reviver a atmosfera aonde tantos escritores brilhantes costumavam passar horas de seus dias e aonde tantos personagens interessantes foram criados.

Neil Gaiman, escritor de ficcao cientifica e quadrinhos, incomodado com a dificuldade das pessoas entenderem esse tal processo criativo de um escritor, decidiu ficar por algum tempo escrevendo dentro de uma sala de vidro em um ambiente publico. Uma especie de reality show para escritores. Eu ja vi isso em algum dos lugares que estive e achei engracado.

O problema eh que infelizmente nao ha nada de magico acontecendo dentro do quarto de um escritor durante o processo criativo pois ele todo se passa dentro de sua cabeca. Nos de fora veriamos apenas o silencio… absoluto silencio… e ignorariamos por completo todo o mundo magico que esta sendo criado naquele exato momento, dancarinas pulnado de uma pagina em branco, musicas tocando ao fundo, personagens dos mais variados disputando espaco em cada linha. Uma magica que nao nos pertence e que muitas vezes nao tem nada, absolutamente nada, da pessoa que a esta descrevendo.

As vezes um personagem aparece para um escrito logo na primeira pagina que ele escreve e toma uma grandeza absoluta durante o decorrer do livro. Lendo algumas obras da Simone e acompanhar depois ou simultaneamente as suas biografias aonde a mesma descreve como criou e de onde surgiram seus personagens me fez admirar ainda mais todo esse processo criativo que na minha concepcao eh uma coisa completamente bela. Uma realidade inteira tomando forma e vida no plano imaginario. Ao escritor so resta descrever a cena que esta visualizando e dependendo de sua capacidade descritiva a obra sera boa ou nao no final. Cabe ao autor saber descrever o que esta passando em sua cabeca da melhor maneira possivel, quase que como uma fotografia. Os personagem ? Esses muitas vezes tomam vida propria sendo dificil para o autor mudar sua fatalidade.

Mas de onde vem esses pensamentos ? De onde nascem essas cenas ? Muitas vezes da vida diaria, de uma cena que se passa em uma cafeteria, um sonho, um movimento ou a propria falta de movimento. Uma simples sementinha na cabeca de uma mente criativa eh mais que o suficiente para gerar uma obra interia.

A Doris Lessing nos conta como funciona com ela esse processo criativo tao interessante nesse video abaixo.

Nesse outro link aqui voce pode escutar uma entervista com a Doris, ainda mais completa do que a do You Tube, aonde ela tambem fala sobre o processo criativo.

Entao eh isso… agora chegou a hora de eu ir fazer meu chazinho e ler meu livro para tentar reproduzir o que passou na cabeca da Doris em um desses momentos fantasticos do processo criativo ! Que certamente se deu em um quartinho comum no suburbio Londrino e que foi descrito fielmente por uma maquina de escrever antiga, como ela mesmo descreve :)

beijos para todos e ate semana que vem !

Lys

Vamos começar o post de As Avós como se esse artigo não fosse coisa séria. Mas é. Um belo dia, cansado de conviver diariamente com as diatribes do governo Lula, e também de tanto ler e ouvir sobre escândalos, Chico Buarque de Holanda propôs ao presidente, que já tem 38 ministérios, a criação de mais um: O Ministério do Vai Dar Merda. A ele seria dada a incumbência de evitar que a sucessão de escândalos e besteiras aumentasse além da conta. Além disso, acenderia a luz vermelha sempre que algo pudesse dar em merda.

As Avós é a típica história que teria de terminar dando errado. Em merda, no caso. E acaba sendo deliciosa de ler, e de ser lida em um único fôlego – no meu caso, com parada apenas para o almoço –, pois é impossível não curtir aquela trama que, desde sua metade, encaminha-se inevitavelmente para um final de comédia pastelão apesar da carga dramática dos momentos finais. Que, aliás, estão divididos entre as primeiras e as últimas páginas de forma magistral.

As Avós romperam com todas as convenções sociais vigentes. E o mais interessante na trama é que seu maior álibi se sustentava na visão equivocada de um senhor maduro apaixonado por Lil e que, num belo dia, chegou à terrível conclusão de que ela e Roz eram lésbicas. Amantes, por tão próximas, tão presentes uma na vida da outra. Isso as deixou tranqüilas. E como…

A novela (é uma novela) de Doris Lessing, escrita de forma magistral, mostra que algumas coisas a gente não deve registrar por escrito. Nem com a infantilidade com que se escreve de sopetão, nem com a maturidade preservacionista com que se guarda certos escritos por candura. Rupturas de convenções sociais são guardadas somente na memória. Até porque, nela, a gente pode manipular as recordações e dar asas à imaginação.

Quem nunca rompeu com uma convenção social? Que homem nunca teve atração, por exemplo, por uma priminha linda? Que mulher jamais se sentiu atraída por um exemplar do sexo oposto bem mais jovem? E aqui estou falando somente do que o livro trata: de relacionamento heterossexual maduro, furtivo, escondido, definitivamente a minha especialidade. E sem querer tecer críticas a quem prefere o inverso ou incursões em ambas as opções dessa atividade.

As Avós não é uma história aética. Nem amoral. Nem, muito menos, imoral. Não agride, embora transgrida. Ela conta em pouco menos de 100 páginas – repito, magistralmente escritas – um fato perfeitamente possível. Quem não conhece ao menos uma história do homem e da mulher que se apaixonaram, mesmo ambos sendo os melhores amigos dos parceiros do outro?

As Avós tiveram paixões que eram para elas, irresistíveis, iguais às dos exemplos citados acima. E foram correspondidas. O mais é considerar que, se elas tivessem o auxílio do conselho de Chico Buarque de Holanda, não teriam deixado o rastro que deixaram. Mas aí a novela não seria o primor que é.

doris1.jpgHá alguns dias, quando este Clube estava escolhendo o autor que seria lido por todos os seus integrantes, fiz uma opção por J. M. Coetze, um autor sul-africano que fala sobre o seu pais tendo como pano de fundo o apartheid. Os dois outros autores eram Doris Lessing e Orhan Parmuk que, tal como Coetze, não li, mas pelo qual não me interessei.

De Lessing já havia lido, há algum tempo, os livros da série Canopus. Segundo os especialistas, eles tem fundo sufista, apelando mais para o espiritual que para o material, fala de outros mundos, outras filosofias e de relacionamentos diferentes. Talvez por isso tenham uma prosa densa, mais encorpada, que chega, em alguns momentos, a ser de difícil leitura, não pela própria prosa, mas pela abordagem dos temas que os livros desenvolvem.

Bom, o fato é que Doris Lessing foi escolhida. Vencido de maneira democrática, comprei o livro e comecei a lê-lo para me surpreender. Primeiro, com a linguagem, bem diferente do que dela há havia lido. As Avós, ouso dizer, tem uma prosa quase poética que, em muitos momentos, apelam para as figuras de linguagem, que dão um colorido especial à narração e tornam o texto, no final, um verdadeiro prazer de leitura.

Construído quase que de forma circular, pois parte quase do final para ser desenvolvido em flashback, o livro – pequeno – vai construindo uma história que sempre vai nos surpreendendo. A trama, bem construída, vai nos envolvendo e, a cada linha lida, temos vontade de ler a seguinte, saber como a história se desenvolveu, como terminou.

De fato, li o livro em um fôlego só. E nem tanto pelo seu tamanho, mas pela atração e envolvimento proporcionado pela história. Resumindo: gostei muito. E vi uma Doris Lessing bem diferente do que havia lido, do que conhecia. Chego a pensar que, neste caso, existem duas escritoras.

Uma, a que se dedicou à ficção científica, um tema que, muitas vezes, não tem profundidade. Outra, que escreveu As Avós, uma história deliciosa mas que, no final, vai permitir uma boa reflexão sobre os relacionamentos humanos.

Como dizem que a primeira impressão é a que fica, gostei tanto de As Avós que vou procurar ler outros livros da autora, que não os da série Canopus.

doris.jpgO mundo caminha, não tenho dúvida, para o matriarcado. Hoje, em todos os lados que se olha a mulher está ganhando espaço, conquistando posição e se destacando. Mulheres estão ocupando, com muita competência, as mais importantes posições e chegam a sonhar em comandar a mais poderosa nação do mundo. Então, isso não é um sinal?

Deixando de lado a minha bola de cristal, que não é nada eficiente, voltemos a este clube e à prevalência que as mulheres têm nele. Eu e o Álvaro somos, neste caso, os “bendito fruto” entre elas, ardorosas defensoras - com justa razão - do espaço feminino. E para completar esta prevalência - que ainda não chegou ao matriarcado - mais uma mulher entra para o Clube, a escritora e ganhadora do Prêmio Nobel, Doris Lessing.

Confesso não ter votado nela, mas como a democracia diz que a maioria vence, me curvo ao resultado. Dos autores sugeridos, os outros dois não tinha lido e gostaria de ler J. M. Coetze e o seu mundo e visão da África do Sul, um país que acho fascinante e onde Lessing viveu por muitos anos, chegando a ser banida devido às suas críticas ao apartheid.

Li, de Doris Lessing, os livros da série Canopus, que podem ser classificados como ficção científica e que, na opinião de críticos, têm influencia sufista, já que trata, muitas vezes, de situações interiores. A prosa de Lessing é espessa, os livros são bons, mas são de leitura lenta, de apreciação mais longa e, diria até, de um entendimento mais difícil, já que é uma literatura refinada, se compararmos, por exemplo, com Desonrada e, mesmo, com Admirável Mundo Novo.

Acho que pode, sim, ser uma ótima experiência ler da mesma autora um outro tipo de literatura e, assim, poder julgá-la e ao que escreve com base em linhas diferentes de trabalho. O livro já está encomendado. E como neste final de semana temos, aqui no Espírito Santo, um feriadão, vou lê-lo e, na próxima segunda, prometo, volto aqui para falar de minhas primeiras impressões.

O proximo tema a ser discutido no Clube do Livro foi escolhido pela Luciane e sera Ler pelo prazer de ler um livro bem escrito.

Tres livros foram colocados em votacao nesse post aqui e o escolhido pela maioria foi As Avos da escritora britanica Doris Lessing que acabou de ser contemplada com o Nobel de Literatura em 2007.

O livro conta a historia de duas amigas em 104 paginas. Leia abaixo a sinopse completa do site submarino:

“Roz e Lil são amigas inseparáveis desde a infância. Cresceram, casaram, tiveram filhos, e vivem na paradisíaca bacia de Baxter, um lugar cercado de rochas por todos os lados. O ambiente protegido, “bocejante”, além do qual o “verdadeiro oceano rugia e roncava”, é o cenário ideal para uma relação cada vez mais simbiótica. Morando em casas vizinhas, elas criam os filhos por conta própria - e eles se tornam adolescentes encantadores.Tão encantadores e próximos, que Roz e Lil não tardam a se envolver uma com o filho da outra. Num efeito ambíguo e desconcertante, típico da grande literatura, o que poderia parecer repulsivo é tratado com naturalidade e bom-humor, fazendo a quebra de tabus soar como regra, e não como dramática exceção. Temas como a amizade, maternidade e sexualidade ganham novos contornos enquanto Doris Lessing esmiúça as complexidades e armadilhas da forte ligação entre essas duas mulheres, e retrata a força com que elas confrontam as convenções familiares e sociais de sua época.”

Iniciaremos a discussao desse novo tema no dia 31 de Marco. Enquanto compramos nossos exemplares e iniciamos nossa leitura voces ficarao com nossos ultimos posts sobre o livro Desonrada.

E nao esquecam que semana que vem todos os autores colocarao seu ponto de vista sobre o tema proposta pela Cica: Violencia por Tradicao.

Apesar de ainda termos duas semanas de discussao pela frente com o tema Violencia por Tradicao proposto pela nossa querida Cica, chegou a hora de decidir qual sera o proximo tema !

Dessa vez o tema vem da Luciane que escolhe “ler pelo prazer de ler um livro bem escrito”. Para isso a Lu resolveu apostar nos tres ultimos autores que ganharam o Nobel de Literatura. Segue abaixo a mensagem de nossa amiga e autora do clube do livro Luciane Cesar, e com voces as novas opcoes !

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Resolvi apostar em carta certa, no que diz respeito a distribuicão no Brasil e na Europa, e escolhi os três últimos autores laureados com o Nobel de Literatura, Doris Lessing (2007), Orhan Pamuk (2006) e J.M.Coetzee (2003). Eu pulei os vencedores de 2005 e 2006, porque um só escreveu pecas de teatro e a outra, pelo que ouvi falar, escreve de uma forma difícil de traduzir. Como eu nao sei bulhufas de alemao (a autora de 2005 é austríaca) e acho que traducão é um ponto crucial, resolvi pular essa.

Então vamo´ lá!

1) As Avós, Doris Lessing. 104 p.
“Roz e Lil são amigas inseparáveis desde a infância. Cresceram, casaram, tiveram filhos, e vivem na paradisíaca bacia de Baxter, um lugar cercado de rochas por todos os lados. O ambiente protegido, “bocejante”, além do qual o “verdadeiro oceano rugia e roncava”, é o cenário ideal para uma relação cada vez mais simbiótica. Morando em casas vizinhas, elas criam os filhos por conta própria - e eles se tornam adolescentes encantadores.Tão encantadores e próximos, que Roz e Lil não tardam a se envolver uma com o filho da outra. Num efeito ambíguo e desconcertante, típico da grande literatura, o que poderia parecer repulsivo é tratado com naturalidade e bom-humor, fazendo a quebra de tabus soar como regra, e não como dramática exceção. Temas como a amizade, maternidade e sexualidade ganham novos contornos enquanto Doris Lessing esmiúça as complexidades e armadilhas da forte ligação entre essas duas mulheres, e retrata a força com que elas confrontam as convenções familiares e sociais de sua época.” (Submarino).

2) Neve, Orhan Pamuk. 436 p.
“Conta a história de Ka, um jornalista e poeta turco, que depois do exilio na Alemanha, retorna a sua cidade natal para escrever uma reportagem sobre uma onda de suicídios na região. A trama gira em torno de um romance, tanto quanto trata do conflito ociente X oriente, religião x ateísmo.” (Não lembro de onde copiei.)

3) Desonra, J.M.Coetzee. 246 p.

“Romance pós-colonial situado na Africa do Sul depois do Apartheid. O romance conta a história de um professor universitário branco de meia idade que se relaciona com uma de suas alunas. Quando a relacão dos dois é descoberta, ele nega-se a mostrar qualquer forma de arrependimento. Muda-se para uma propriedade rural de sua filha, em uma província no interior do país, onde a relacão de poder entre brancos e negros está prestes a mudar.” (Wikipedia)
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E eh isso ai ! Hora de decisao :) Facam suas apostas !

Beijos a todos e bora ler pelo prazer de ler um livro bem escrito !

Lys