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A ambicao humana de ser capaz de fabricar, criar ou manipular a sua propria especie eh algo realmente interessante. E isso vem de muito tempo atras. Talvez o motivo pelo qual tenhamos tanta necessidade de “Brincar de Deus” esteja no fato de que temos sim uma pulga atras da orelha sobre a origem da vida de maneira geral. Na minha opiniao eh essa necessidade de entender como a vida eh criada e o que deu origem a nossa propria vida a mola propulsora de todo o desenvolvimento cientifico na area de engenharia genetica e tais.
Huxley em seu livro nega a necessidade de um Deus para dar continuacao a proliferacao da vida na Terra mas uma coisa interessante eh que mesmo no Admiravel Mundo Novo a vida so eh capaz de ser gerada a partir de uma outra vida. Mesmo que os embrioes sejam gerados fora do corpo humano, sao necessarios as coletas de ovulos nas mulheres e a fertilizacao. Eh necessario a semente da vida para que o milagre da vida aconteca. Nesse caso duas sementinhas.

Em um mundo aonde podemos controlar a natalidade tal como no AMN fica facil controlar tambem varios fatores recorrentes da superpopulacao do nosso planeta, tais como poluicao e uma serie de outros problemas ambientais que deixam os ecologistas de cabelos em pe.

A engenharia genetica na vida real foi um pouco alem de Huxley e consegue reproduzir uma vida a partir de apenas uma sementinha, o tao famoso DNA ! Dessa sementinha diz-se ser possivel imitar a natureza perfeitamente, quase igualzinho o que a natureza faz no caso dos gemeos, mas na ciencia damos o nome de clone. Mas para criar essa vida tambem eh necessario a tal sementinha da vida. No AMN os clones se chamavam Bokanovsky e eram considerados tecnologia de ponta. Mas essa nao tinha nada a ver com a reproducao de um ser humano por uma celula apenas e sim a divisao do ovulo em varios, tal como acontece com alguns casos de gemeos na natureza.

A questao eh: O fato de criar uma vida atraves de uma sementinha de vida nos faz capazes de criar uma vida de fato ? Ou isso apenas nao seria uma copia pirateada de vida ? Mas essa eh uma outra historia nao eh mesmo ? Enquanto o rapa nao passar podemos continuar pirateando humanos sem problemas :)

No que diz respeito de criar uma vida do zero, o que significa criar a tal sementinha, estamos longe, bem longe de conseguir na vida real. No entanto ja somos capaz de brincar com as sementinhas e modifica-las. Entao vamos brincar bastante para ver o que conseguimos dessa tal sementinha de humanos e quem sabe brincando bastante na conseguimos entender como criar uma sementinha tambem.

Mas os progressos, apenas modificando a tal sementinha, ja sao muitos ! Se por um lado nao podemos criar, por outro podemos melhorar segundo nossos padroes de o que eh melhor ou pior. Vamos entao tentar fabricar criancas sem predisposicao genetica para doencas fatais. Sim, isso eh bom ! Mas porque nao fabricar entao uma crianca sem predisposicao de doencas nenhuma ? Isso seria a gloria dos pais nao eh mesmo ? E a falencia absoluta dos seguros de saude ! Barbaro ! Vamos fabricar criancas perfeitas entao… mas porque nao fabricar entao criancas de olhos azuis ? Eh tao lindo nao eh mesmo ? Cabelos loiros ou negros ? Podemos escolher ! Vamos purificar a nossa especie ! Vamos nos livrar desse povo doente e feio que infesta nosso mundo com suas debilidades ! Mas quem eh que define um padrao etnico perfeito ? O que eh um ser humano perfeito ?

Mengele

O pioneiro nessa tentativa de purificacao da especie, mais conhecido como eugenia, foi Hitler e nesse caso o engenheiro geneticista renomado foi o famoso Mengele com suas experiencias com humanos. Seus estudos recebeu verba do governo para ser levado adiante pois era considerado de grande importancia para a humanidade. Na tentativa de transformar as criancas judias e portanto imperfeitas em seres perfeitos, assim como os alemaes nazistas, valia ate mesmo injetar tinta azul em seus olhos :) Fantastico. Realmente devo convir que progredimos bastante em relacao a Mengele nao eh mesmo ? Ja nao precisamos mais sacrificar nenhum “ser humano” para fazer experiencias geneticas. Mas podemos criar uma copia para fazer os testes ! E como nao sabemos se clone tem ou nao alma mesmo… porque nao usa-los de cobaia assim como os judeus foram usados ? Bora injetar tinta nos olhos dos clones :) E tudo isso para o progresso da ciencia !

Nem tudo na engenharia genetica eh condenavel. O fato da engenharia genetica criar a possibilidade nao significa que temos que usar essas capacidades nao eh mesmo ? E eh ai que entra o conselho de etica. Para definir ate que ponto eh correto chegar e aonde devemos parar. Mas quem vai ditar as regras ? Infelizmente em nosso mundo o que manda eh o dinheiro e nao tem nada mais tentador do que usar seu dinheiro para purificar o mundo segundo seus proprios conceitos eticos e etnicos. Afinal, ate mesmo Hitler era etico segundo a concepcao nazista nao eh mesmo ?

Eu particularmente acho qualquer tentativa de purificacao da especie uma reproducao absoluta do nazismo. Mesmo que agora ela seja apresentada de maneira um pouco mais anticeptica, assim como acontece no Admiravel Mundo Novo, fabricar humanos perfeitos significa escolher um padrao perfeito. E quem eh que vai fazer essa escolha ? Digamos que historicamente ja sabemos que nao somos muito bons com isso :)

Um otimo domingo a todos !

Lys

Como médica não digo que não acho interessante a idéia de fabricarmos seres humanos!! Já pensou acabar com as doenças congênitas como síndrome de Down, diabetes, entre muitas outras?!!? Mas aí vem aquela história… como vamos escolher o que acabar e o que não acabar?!? Quem vai ter o poder de escolher isso?? E, ao mesmo tempo, até que ponto vamos produzir seres humanos e não máquinas?!!?

Uma coisa que me espantou no livro, logo no começo, foi quando explicam pros novos “alunos” na fábrica sobre a produção de gamas e deltas. Sobre como eles fornecem pouco oxigênio ao feto para que já nasça com déficit mental e, assim, seja apto a fazer o trabalho de um “ser inferior”. Além disso submetem os fetos a condições adversas que serão úteis ao seu futuro emprego, como calor extremo, frio, tremores, entre outros.

Não sei se a nossa sociedade está preparada para a produção de humanos!! Mas me atrai muito a idéia de produçao de órgãos humanos para transplante, para ajudar pacientes paralíticos, diabéticos, cardiopatas. Só acho que deve ser uma lei mundial regulamentando essa área da medicina.

E vocês, o que acham da produção de humanos?!?

Peguei os ultimos capitulos do livro as 10 da noite e já eram duas da manha quando acabei. Não consegui parar, não consegui desviar o pensamento… tanto que só lembri de tomar meu anti-concepcional hoje de manha. Se uma admirável vida nova aparecer em mim nas próximas semanas a culpa é do herege do Aldous.

Herege pra não dizer coisa pior. O cara não “montou” nenhum mundo novo. Ao chegar ao ponto onde Lenine e Bernard (o nome da mulher vem na frente propositalmente) vão para a reserva selvagem, as criticas a nossa atual sociedade ficaram evidentes. Esse um montou um mundo onde ele, homem, seria feliz comendo quem bem entendesse, livre de culpas e compromissos. Ora que lindo seu menino.

Se o mundo era perfeito, pq fui obrigada a me confrontar com um herói patético? O o John? Um selvagem… realmente um selvagem… um animal em todos os sentidos. Lenina uma mulher superficial desesperada em ser magra, horrorizada com a gordura e feiura da Lisa. Esse mundo não tinha nada de novo, mas é admirável. Pergunta: vc viveria em um mundo assim.

Algumas partes do livro que grifei:

“Aqueles que se sentem desprezados fazem bem em ostentar um ar de desprezo.”

“- Mas Fanny, você realmente quer dizer que durante os próximos três meses não vai…” - reticências? Moralismo na terra onde todos são de todos?

“Os bem intencionados comportavam-se da mesma forma que os mal intencionados”

Estão vendo? Desprezo, vergonha, moral… tudo vive nesse mundo novo. São conceitos natos a meu ver. Não precisam ser ensinados. O individuo nasce com ele e os modela durante toda a vida de acordo com o meio onde vive.

Finalizando, para mim ficou bem claro, inclusive nas palavras do próprio diretor geral:

“A felicidade real sempre parece bastante sórdida em comparação com as supercompensaçoes do sofrimento. E, por certo, a estabilidade não é nem de longe tão espetacular com a instabilidade.”

Isso se torna claro quando multidão de civilizados se juntam ao pé do farol onde foi se esconder o Selvagem, para ver seu espetaculo de auto-flagelação. Civilizados?

Para finalizar meus posts em tema livre, escolhi um tema que me intrigou durante toda a leitura do livro. Pouco se comentou sobre isso aqui no Clube portanto vou propor o tema novamente ate chegarmos ao climax da questao :) . Vou dividir com voces minhas impressoes sobre a questao sexual proposta pelo livro Admiravel Mundo Novo.

No mundo civilizado as pessoas sao livres para fazer sexo sem o compromisso de amar. Amor, assim como conhecemos no mundo dos selvagens, eh algo profano e que so existe mesmo entre a selvageria. O conceito de familia nao existe e com isso a procriacao perde seu sentido em absoluto.

Em principio podemos questionar (e ate questionamos em algum post) a intensidade e qualidade do sexo no AMN. Eh facil pensar que em um mundo anticeptico o prazer seja uma coisa inconcebivel. Mas quem foi que disse que prazer esta relacionado com procriacao ou com amor ? Sera que realmente uma coisa tem a ver com a outra ? Acho que esse eh um conceito valido apenas para pessoas “romanticas”. Fora disso, apos a invencao do anticoncepcional, sexo eh sexo e ponto final e nao precisa ser civilizado para concordar com isso.

Sexo no Mundo Novo

O fato eh que no Admiravel Mundo Novo todos sao livres para experimentar sexualmente o que quiser com o simples pretexto de que “todo mundo eh de todo mundo”. Algo que na selvageria que conheco parace bastante com o que chamam de “relacionamento aberto” se eh que isso de fato existe. O problema eh que entre os selvagens tambem aprendemos que em um mundo onde “todo mundo eh de todo mundo”, ninguem de fato eh de ninguem. E como bons selvagens temos horror de nao “ser” de ninguem e muito mais horror ainda de ninguem “pertencer” a nos. Mas como eu me considero selvagem, condicionada por minha visao profana e romantica de familia, nao cabe a mim julgar o sexo dos civilizados.

O problema eh que nesse momento podemos chegar a pensar que no Admiravel Mundo Novo, sem o papel da procriacao e da familia, as diferencas entre sexos nao faria absolutamente sentido nao eh mesmo ? Afinal que diferenca ha entre os homens e as mulheres sem esses conceitos profanos e selvagens ? E como podemos colocar as palavras civilizacao e desigualdade em uma mesma frase ?

Tudo bem… ja sei que nesse mesmo instante apareceu um balaozinho na sua cabeca com a seguinte mensagem: “La vem aquela chata feminista arrumar confusao novamente”. Juro que esperei ate o ultimo momento pois nao queria ter que ser eu a notar esse detalhe. Mas tambem nao posso deixar passar meu povo. Devo contar a voces minhas impressoes e essa foi uma das que achei mais interessantes.

O fato eh que, ao ler o livro estamos tao condicionados e acostumados com o papel secundario da mulher que nem reparamos alguns detalhes importante e muitas vezes nos enganamos profundamente a respeito do termo igualdade de sexos. No Admiravel Mundo Novo a igualdade entre a mulher e o homem acaba na liberdade de fazer sexo com quem bem entender.

Na questao de igualdade dos sexos o Admiravel Mundo Novo eh bastante semelhante ao mundo dos selvagens. Afinal, voce chegou a ver alguma alfa mulher em qualquer ponto do livro ? Lenina era Beta assim como sua melhor amiga. A mae profana tambem era Beta. E mesmo que uma mulher alfa tenha escapado aos meus olhos, o que duvido muito pois meus olhos sao atentos a essas coisas, nao havia absolutamente nenhuma mulher envolvida em trabalhos de primeiro escalao e muito menos nos assuntos mais intelectuais.

Ao contrario da inteligencia, Huxley emprestou as mulheres civilizadas a futilidade e a falta de amor proprio, chegando a se tratar como verdadeiras “carne de acougue” nao so por elas como pelos homens civilizados. E isso era legal ! Boas mesmo eram as mulheres lindas e perfeitas. Essa parte era agressiva ate mesmo para um selvagem, mas a questao citada no paragrafo acima passou completamente despercebida ate mesmo pelo nosso esperto e sensivel Selvagem romantico.

Mas voces acham que Huxley fez de proposito ? De jeito nenhum. Provavelmente ele nem tenha percebido. Afinal, o que tem de mal nisso nao eh mesmo ? Que diferenca faz ter uma alfa mulher ou nao ? Essas feministas… ai ai ai. Acham problemas em tudo !

Sera que mais uma vez a minha visao profana de selvagem me impede de ver a igualdade dos sexos no mundo civilizado ? Ou sera que nao ha lugar para a igualdade feminina nem no meio da selvageria e nem na civilizacao ? Uma coisa eh fato, sou uma subversiva (como definido pelo Alvaro aqui) em ambos os mundos. Sera que terei que apelar para a forca ? :)

“Você não tem o desejo de ser livre Lenina? (…) Eu sou livre, livre para me divertir…”

Quando li essa parte do livro parei, marquei-a e fiquei pensando… a impressão que tive (e ainda tenho) é que Bernard quer saber se ela não tem vontade de se sentir só, de sentir medo, tristeza e vários outros sentimentos que, se não proibidos, são quase heréticos no Admirável Mundo Novo. Quase no final do livro, na conversa do Selvagem com Mustafá Mond, o administrador explica o S.P.V. (Sucedâneo de Paixão Violenta) como “o equivalente fisiológico do medo e da cólera. Todos os efeitos tônicos de assassinar Desdêmona e ser assassinada por Otelo, sem nenhum dos inconvenientes.” O Selvagem prontamente replica: “Mas eu gosto dos inconvenientes”

Daí parei pra pensar… nossa vida se resume à busca pela felicidade… queremos ter amigos, família, filhos, casa, um amor e, basicamente, ser felizes!! Ou não?!!? Falo por mim… adoro os grandes (e os pequenos) momentos de felicidade da minha vida!! Mas o que faria se fosse feliz o tempo todo?!!? Como aprenderia, cresceria e, principalmente, como saberia reconhecer a felicidade?? Não que goste de ser infeliz!! Com exceção de algumas poucas pessoas, acho que ninguém gosta de ser triste!! Mas acredito que momentos de tristeza são importantes pro nosso crescimento pessoal e espiritual!! Assim como os momentos de solidão, introspecção (coisa que não existe no AMN!!) e insatisfação!! Esses momentos nos fazem descobrir quem somos de verdade e o que queremos da vida!!

Então, eu concordo com o Selvagem… eu quero os inconvenientes!!! E você, o que acha?!!?

Talvez a cura para as mazelas da humanidade realmente esteja no SOMA, afinal, que bom seria se pudessemos ter, ao final de um dia exaustivo de trabalho, nossa porcao de SOMA para poder deitar a cabeca no travesseiro e dormir em paz.

Teve problemas no trabalho ou com o vizinho ? Brigou com o namorado ? Esta muito estressado ou cansado ? Seus problemas acabaram ! SOMA ira resolver todos seus problemas ! Que tal umas Ferias de SOMA ? Pode tambem ser uma SOMAterapia. Nao acredita que existe ? Pois clique no link ao lado para ver com seus proprios olhinhos ! Mas infelizmente essa SOMA que esta a venda eh apenas um simples relaxante muscular :) .

Aparentemente sem efeitos colaterais SOMA (a do livro) eh capaz de nos fazer deixar a realidade de lado e viver em um mundo paralelo aonde tudo eh perfeito e prazeiroso. Afinal, como ja dizia muito sabiamente Scarlet Ohara: “Amanha sera um novo dia !”. Mas calma meu povo, pois doses exageradas de SOMA pode levar a morte. Assim como aconteceu com a mae, figura profana, do Selvagem.

Pode parecer estranho e corro o risco de ser acusada de herege e ser queimada na fogueira, ou entao agora voces vao descobrir que sou maluca de pedra e sem solucao, mas duas passagens do livro aonde o autor falava do consumo do SOMA me fizeram lembrar rituais religiosos. A primeira se da quando Bernard, ainda bem no comeco do livro, capitulo 5, participa de uma especie de consumo de soma em grupo. Os participantes entravam em uma especie de transe aonde podiam escutar e ver Ser Supermo (no caso Ford). E gritavam com a mesma forca que os evangelicos fazem em suas igrejas ao ver e sentir a presenca de Cristo. Bernard aparece no papel do cetico.

A segunda vez quase me mata de rir ao ver a distribuicao de SOMA sendo feita exatamente como se fosse a distribuicao da hostia sagrada em uma igreja catolica. Isso se passa no capitulo 15 e a cena eh interrompida pelo proprio Selvagem que entra de maneira gloriosa e dramatica prometendo a salvacao dos probres miseraveis. Apos o controle da situacao e a crucificacao do infiel, e apos o consumo da “hostia” pelos Deltas fieis,  todos se confraternizaram e se abracaram, so faltavaram falar “A paz de Cristo!”.

Nao sei se havia alguma intencao no livro em fazer essa correlacao, mas eu acredito que a religiao a maioria das vezes eh usada como valvula de escape, assim como o SOMA. Eh facil responsabilizar o outro, no caso um ser supremo, por nossas mazelas e nos conformar com a situacao que vivemos. Nesse aspecto a religiao eh a garantia de estabilidade que um mundo desequilibrado e injusto necessita. A unica maneira de uma pessoa permanecer morrendo de fome ao lado de outra que joga comida fora eh instituindo o medo de ser queimado no fogo dos infernos. Nesse mundo onde nada eh justo so mesmo a religiao para manter o conformismo e a estabilidade.

Karl Marx ja dizia que “A religiao era o opio do povo” nao eh mesmo ? Pois entao acho que Huxley concordava com isso. De fato, “a religiao eh o SOMA do povo”.

Uma coisa eh fato, dificil mesmo eh encarar a vida como o Selvagem e viver nesse mundo sem nossa SOMA !

Um rápido estudo de “O admirável mundo novo” nos remete a um conceito que, no Brasil, foi usado à exaustão entre 1964 e 1985, quando se encerrou o ciclo conhecido como Regime Militar: subversão.

Sim, porque “o Selvagem” foi um subversivo. Da mesma forma como tentaram ser, e não conseguiram, Helmholtz e Bernard que, em vão, procuraram entender aquela criatura retirada de um antro perdido no meio do (quase) nada e levado para a civilização junto com sua mãe (que coisa imoral!).

O que é ser subversivo? Vamos a um conceito: “o termo subversão (daí, subversivo) está relacionado a transtornos, revoltas, principalmente nos sentidos ético e moral. A palavra está presente em todos os idiomas de origem latina, e era originalmente aplicada a diversos eventos, como a derrota militar de uma cidade. Já no século XIV era usado na língua inglesa com referência a temas de direito e, no século XV, começou a ser usado relacionado a reinados. Esta é a origem de seu uso moderno, que se refere a tentativas de destruir estruturas de autoridade. Portanto, o conceito moderno de subversão se refere a algo clandestino, como erodir as bases da fé no status quo ou criar conflitos entre pessoas”.

Quando o regime militar foi instalado no Brasil, ele desprezou as leis. Foi justamente por isso que seus opositores agiram ao arrepio dessas mesmas leis. O que gerou uma luta interna onde, de um lado, o Governo, investido nas funções de detentor do controle do Estado, procurava manter intocado o poder e, de outro, os opositores, subvertendo ou tentando subverter a ordem estabelecida, lutavam para derrubar o Governo e dar outra conformação ao Estado.

Em “O admirável mundo novo”, a hipotética sociedade imaginada por Aldous Huxley cria um Estado multinacional onde as estruturas são rígidas como são hoje ou foram ontem as que detiveram o poder de Estado em grande parte dos países americanos, aí incluído o Brasil. E, como nos casos reais, no Mundo Novo a contestação não pode ser admitida, sob o risco de colocar em ruína a estrutura criada para que os cidadãos fossem todos “felizes”.

Por isso, tanto no mundo imaginário quanto no mundo real, é preciso censurar a produção intelectual. Por isso, tanto no mundo imaginário quanto no mundo real, é necessário que as pessoas se distanciem o máximo possível de situações que possam levá-las a questionar a estrutura do Estado. A ditadura fez isso no Brasil com o uso de muita propaganda, com o adesismo de grande parte dos meios de comunicação de massa (note que no livro de Huxley o Estado também detém o poder sobre a produção de informação) e com a ajuda da censura. No caso de Huxley, bastavam algumas frações de grama de soma para idêntico efeito.

>A Doutrina de Segurança Nacional classificava os subversivos de acordo com a ideologia. Era a época da classificação de “guerra subversiva”. Para os detentores do poder, essa contestação tinha as seguintes características: 1. Era conduzida nos pressupostos do marxismo-leninismo; 2. Pretendia, em última análise, a implantação do comunismo; 3. Utilizava uma amplitude de meios e processos, que vão da guerra convencional à guerra subversiva, ou simples aspectos de guerra fria, ou mesmo, o mero esquema de agitação/propaganda (…)”. 4. Praticava o desenvolvimento lento, baseando a sua estratégia na guerra prolongada e no esgotamento da ordem constituída (…)””.

Mustapha Mond não precisava se preocupar com o lado político-ideológico do “Selvagem”. Mas como ele sabia que “a estabilidade não é, nem de longe, tão espetacular como a instabilidade” e como, também, “toda mudança é uma ameaça à estabilidade”, o fato de seu mundo agredir ética e moralmente os valores que aquele “Selvagem” havia trazido de seu cantinho particular, era absolutamente irrelevante. Da mesma forma como interessava pouco aos regimes militares instalados no mundo real da América do Sul nas décadas de 1960 e 1970, saber o que pensavam e por que lutavam os esquerdistas. Cabia apenas combatê-los, como coube a Mond eliminar a contestação.

É simples, não? No mundo real, a oposição foi ganhando corpo, número e os estados autoritários caíram. No mundo imaginário, nem Helmholtz nem Bernard tinham estrutura, sobretudo emocional ou ideológica para iniciar um movimento contestatório. Daí porque, ao “Selvagem”, não restou alternativa que não fosse a da corda da forca. Um epílogo literário previsível.

Não estou acompanhando direito a discussão aqui para nao me deixar influenciar. Quero pensar com minha cabeça. Devo ter esse potencial guardado em algum lugar por aqui. Estou no capitulo nove, segundo o Lino quando começa a se expor a civilização, não civilizada… Tá bom, eu leio os post mas não discuto. Tento pensar sozinha sem influencias. Oh gente, dá um crédito, vai!!

Bom, não sei se vi civilização até onde li, talvez esteja precisando mesmo mudar meus conceitos, porém devo confessar que quando pego o Admirável Mundo Novo, um égua de bichinho desgramento fica martelando minha cabeça com a maravilhosa possibilidade de tudo aquilo ser verdade, com algumas modificações básicas, naturalmente. Eu sei… joga pedra na Ciça. É uma égua mesmo. Meu povo, entendam: no momento sou uma mae a beira da loucura com um filho de 15 anos precisando, porém sem maturidade, decidir o que fazer da vida sendo esmagado pelo sistema. O mundo para quem sabe o que quer é relativamente fácil, mas para os que precisam de um pouco mais de tempo para decidir… tadinhos. E nesse contexto, juro nem me importar muito com uma rápida manipulação do ser. Égua… o que o desespero não faz! Vai ver que Huxley estava com os mesmo problemas que eu quando escreveu esse livro. Quem sabe :)

Ah se eu pudesse e meu dinheiro desse… “programava” meu filho para ser um jornalista, advogado, médico, enfermeira, publicitário, astrônomo essas coisas que dão muito dinheiro e prestigio, sabe? Professor? Tá doido? Olha onde a mãe dele veio parar!

Engraçado como até mesmo a mais bizarra das utopias sao capazes de nos seduzir. Utopias??? Será??? Preço dos livros… banalização do sexo… inversão de valores… família….

Bom, deixa eu ir lá ver essa tal civilização.

Uma das coisas que mais me impressionou no livro (entre tantas que me impresisonaram!!) foi o fato dos personagens dizerem frases feitas como se fossem verdades absolutas ou coisas que eles próprios tivessem concluído. Enquanto Bernard ouvia e lembrava… “cem repetições, tantas noites por semana, por tantos anos.”

Quantas repetições fazem uma verdade?!!? Enquanto lia cada vez que me deparava com uma frase feita tentava me lembrar de quantas vezes já fiz isso… repetir uma frase que já ouvi muito, sem acreditar ou sem ter comprovado se é verdadeira. Quantos de nós não repetimos frases que ouvimos nossos pais, familiares, amigos ou, até mesmo, a televisão dizer!?!? Sem contar nas verdades absolutas que simplesmente adotamos porque assim nos é passado!! Quem aí nunca se sentiu mal por não ter o carro que todos dizem ser o melhor?!?! Ou por não ter o corpo, o cabelo ou o modo de vestir dito corretos?!!?

Isso foi uma das coisas que o livro me fez parar para refletir… prestar atenção no meu próprio condicionamento, rever alguns conceitos pra ver se são meus conceitos ou se me foram passados por outros. Não vou aqui discutir quem ou o quê nos condiciona. Mas acho que é uma boa oportunidade pra parar e pensar!!

E você, quantos dogmas que não são seus você repete por aí?!?! Ou simplesmente acata sem parar pra pensar?!!?

Beijos, Dani

Eh com muito prazer que anuncio a mudanca de status da Scliar de palpiteira para autora! Saibas que voce que sempre participou ativamente aqui do Clube do Livro eh mais do que bem vinda !

Agora, com sete autores, garantimos que cada dia da semana havera um post aqui no Clube do Livro ! Sete autores, ciclo fechado. E agora ninguem mais nos segura !

Entrada fechada para novos autores mas aberta para novos palpiteiros. Sintam-se muito bem vindos a palpitar bastante pois eh assim que a gente gosta !

Ontem encerramos a Maratona Lino Resende aqui no Clube do Livro. Lino nos presenteou com sua resenha em 7 capitulos. Muito interessante ver o Admiravel Mundo Novo pelo ponto de vista de nosso caro amigo. Quem estiver curioso e perdeu a serie, pegue uma xicara de cafe e delicie-se nos posts abaixo:

1. Dividindo para não complicar
2. Estabilidade, sociabilidade e moral
3. Condicionamento, desequilíbrio e paixão
4. Vingança, identidade e rebeldia
5. Deus, civilização e sociedade
6. Quem é o selvagem?
7. Uma questão além de Huxley

Mas quem pensa que acabou por aqui esta muito enganado. A coisa ainda vai esquentar nesse Clube. Cada autor ainda escrevera 3 posts sobre suas impressoes sobre o livro. Apos esses tres posts, ou seja, tres semanas, teremos a apresentacao de um novo tema pela Cissa.

Entao meu povo, peguem seus livros porque quero escutar mais palpites !

Lys

brave7.jpgQuando propus, para início do Clube do Livro, uma discussão a partir de três indicações – Admirável Mundo Novo, Blade Runner e Next – a proposta vinha embalada na discussão sobre biogenética e os avanços que o setor experimenta, com pesquisas e mais pesquisas sendo feitas nesta área, com o emprego de bilhões de dólares nos mais variados campos.

Os três livros nos mostram o avanço da ciência e da genética de forma diferente, mas têm uma base comum, que é a criação de novos humanos através de processos assexuados. Esta fabricação é mais evidente no livro de Huxley, já que Blade Runner fala de réplicas e Next não chegou, ainda, à criação de novos humanos, vendo-a como uma possibilidade futura. Nos três, a ética da ciência é o pano de fundo, com a discussão se seria ou não moral manipularmos os genes humanos e, como dizem os religiosos, ficássemos bancando Deus.

Acho que a questão da genética e da manipulação das células é um caminho sem volta. Preocupa-me, no entanto, a forma como tudo está sendo feito, não pelo que está sendo feito, mas pelo pouco cuidado tomado e pelo fato de a ciência estar se transformando em um grande negócio. A lógica dos negócios é diferente da lógica da ciência. Esta, pelo menos em princípio, não deveria ter fins comerciais.

O que Admirável Mundo Novo nos deixa, no caso da pesquisa genética, é uma grande interrogação, de até onde devemos ir, o que devemos fazer, o que devemos sancionar e aceitar e o que é inaceitável. Voltamos, aqui, a questão do controle e se ele deve ou não ser exercido e se nesse exercício deve prevalecer um fundo moral.

A pesquisa genética tem um grande potencial e, amanhã, pode de forma efetiva contribuir para nos tornar melhores humanos, prolongar a vida, curar doenças. Mas pode, também, se não houver cuidado – e até o fim do mercantilismo – desembarcar não no Admirável Mundo Novo, mas nos replicantes de Blade Runner que voltam para nos assombrar.

No final, tendo como pano de fundo a discussão da manipulação dos genes, fica sempre a questão de um caminho que deve ser trilhado com cuidado para que não cheguemos ao Admirável Mundo Novou ou tenhamos replicantes totalmente desumanizados ou o mercantilismo que hoje impera na pesquisa genética. É preciso equilíbrio. Só com ele poderemos tirar efetivo proveito desta pesquisa.

A maratona de Admirável Mundo Novo está no fim. Acho que, no final, o livro proporcionou uma boa leitura, contribuindo para o objetivo do Clube, que é diversificar autores e temas. E ao mesmo tempo nos levou a uma reflexão sobre a sociedade que temos, a imaginada e a que podemos ter. Para mim, foi ótimo.

Agora, é esperar o próximo tema. Que venham as sugestões.

brave6.jpgSe não posso mudar o mundo, vou dele me retirar. Este parece ser, no final, a opção do Selvagem, configurada no último capítulo de Admirável Mundo Novo. “Comi a civilização”, diz ele. E foi intoxicado por ela. Por isso, necessita de purificação, o que significa uma volta às origens. Tal como Bernard, o Selvagem não se enquadra na nova civilização, só que se um sofre por não se enquadrar, o outro o faz por experimentar algo que, no seu entender, só pode intoxicar as pessoas. De um lado, a inadaptação traz o desejo de integração, do outro, uma total rejeição àquilo a que foi exposto.

E o que acontece? A volta à barbárie, ao ambiente sujo, o fim da assepsia, inclusive dos sentimentos. Livre, finalmente, o Selvagem volta à solidão, ao sofrimento, à expiação. E por tudo isso, vira atração, fazendo com o que sinta seja também sentido pelos civilizados. Ao buscar a redenção, ele acaba redimindo quem foi pasteurizado, homogeneizado, não tem sentimento. Para ele, então, estranho em dois mundos, não há saída. Resta a morte, que ele procura através do suicídio.

Mas será que é assim, mesmo? Que vivemos em um mundo dualista e maniqueísta? Que não temos liberdade de pensar? Que nos escondem a verdade? Estas e outras perguntas ficam ao final do livro. A reflexão que eles nos provoca leva-nos ao atual, ao que está sendo feito no mundo e, de forma surpreendente, guarda similaridades com a atualidade. Veja-se, por exemplo, a dualidade, configurada na postura dos Estados Unidos entre o bem – a civilização – e o mau – o mundo islâmico, sobretudo o fundamentalismo – que é a barbárie.

E quanto a pensar de forma independente, será que fazemos isso? Em parte, sim. Mas se tomarmos a grande massa, talvez seja o caso de afirmar que não. E tal como no Admirável Mundo Novo, são os meios de massa que contribuem para formatar uma verdade que, no final, esconde a própria verdade. Veja-se, como exemplo, o caso do capitalismo, que trouxe prosperidade e liberdade. Olhe-se sob o tapete e o que vemos são bolsões de miséria, gente passando fome e países e mais países onde, em nome do capital, se sufoca a liberdade.

Aldous Huxley, embora use o avanço da ciência como algo bom, é pessimista, muito pessimista em seu livro. Nele, não vê outro caminho para a civilização que não seja um governo central, forte, não democrático, que submeta a população. Só assim, afirma, teremos estabilidade e só com estabilidade é que podemos nos livrar da barbárie, construindo uma terceira via. Ele admite o sacrifício da liberdade e da individualidade m favor do progresso, do crescimento da sociedade e aceita que, para conseguir isso, a ciência atue como fator primordial.

brave5.jpgEstranho em uma terra estranha, John acaba em um embate sobre os fundamentos da civilização com sua Fordeza, o governante da parte do Admirável Mundo Novo em que está. Nela, contrapõe as idéias tiradas não só da sociedade selvagem em que vivia, mas colhidas de Shakespeare e seus personagens, como o conceito de honra.

O que o Selvagem enfrenta é uma última tentativa de desconstrução do que é, do que foi. Primeiro, lhe é colocada a opção entre civilização e barbárie, sendo que, no caso, a barbárie é o não enquadramento, a não submissão, a existência do sentimento, o apego a uma moral, a crença em um ser superior, os procedimentos nada assépticos da flagelação.

Mas quais são os fundamentos da civilização do novo mundo? Primeiro, a estabilidade, que não é espetacular, mas que acontece, fluindo e permitindo que o mundo funcione e que todos sejam felizes. Por isso é que não há nada de espetacular, o que só acontece na instabilidade, já que a felicidade nunca é grandiosa. Depois, pela ordem, que se contrapõe ao caos do pensamento e dos desejos individuais. Neste cenário de estabilidade, ordem e felicidade a mudança é uma ameaça, como também a ciência, que pode propiciar esta mudança, e a verdade.

E é, de certa forma, em torno da verdade que se dá o verdadeiro embate, questionando os fundamentos da sociedade, como falta de liberdade, supressão da individualidade, supressão dos sentimentos, conformismo, submissão às drogas, mas, e sobretudo, ao controle de uns poucos sobre muitos. Tudo o que foi feito, como afirma Mustafá Mond, teve um objetivo: tornar a sociedade estável. E é para manter esta estabilidade que a individualidade e a originalidade têm de ser abolidas. No Admirável Mundo Novo esta é a verdade. Para John, o Selvagem, não, o que nos leva a uma verdade conceitual, que muda de acordo com os pontos de vista e interesses.

O controle existe para que tudo funcione. E tudo funciona. E é este controle que torna o mundo asséptico, inodoro, sem gosto e sem sentimento. O que prevalece é a totalidade, seja ela olhada do ângulo do indivíduo ou da própria sociedade. Não existe um, mas todos. Prevalece, sempre, o coletivo. E para que ele impere, mata-se o individual, a mudança, a inovação. É como se o mundo fosse estático. Neste mundo não há nobreza, não há heroísmo, só obediência.

Se o Admirável Mundo Novo nos coloca a opção de civilização ou barbárie, o que dizer do mundo atual. Não estaremos reproduzindo esta escolha, olhando, de um lado, o Ocidente como civilizado e o Oriente, principalmente os muçulmanos, como selvagens? Não estaremos reproduzindo o maniqueísmo que não nos deixa uma terceira opção?

Olhando o hoje, vemos que, na verdade, não há muita diferença entre o mundo de John e de quem é decantado para o mundo dos homens. Nos dois, as opções são muito pequenas. E quem não se enquadra é tratada como o selvagem foi tratado em Admirável Mundo Novo.

brave4.jpgA partir do capítulo X e até o capítulo XV, Huxley expõe o não civilizado à civilização e deixa antever o que temos lá no fundo, bem no fundo da alma, começando pela vingança de Bernard Marx contra o DIC, expondo-lhe ao ridículo de lhe apresentar uma Linda decrépita e com um filho adulto, que se ajoelha diante dele chamando-o de pai, o que o torna motivo de chacota de todos e faz com que não resista ao escândalo e suma.

Que mostra maior de individualidade do que a vingança? E é exatamente dela que Bernard se vale, usando, a seguir, o Selvagem para se transformar em uma estrela, inflando seu ego, tornando-o importante, desejado pelas mulheres. O que o livro mostra é uma corte onde a bajulação tem um papel importante, abre portas, cria relacionamentos, presta e cobra favores, mesmo que sejam de natureza sexual. Os civilizados, neste caso, agem de forma idêntica aos selvagens, mostrando que o homem não perdeu, ainda, toda sua humanidade.

Ao mesmo tempo em que Bernard cria uma individualidade, a partir de seus sentimentos de diferença, o Selvagem cria uma estranheza. Criado para admirar a civilização, ele não se enquadra nela, não aceita que um seja de todos e se ferra ao amor, à paixão, mas a quer domada por um comprometimento, que é o casamento, o que pressupõe sacrifício, heroísmo, não o oferecimento de sexo fácil, como faz Lenina, o que a enquadra como prostituta, que não é digna do seu amor. A individualidade, aqui, leva a dois sentimentos básicos, o amor e a paixão, fazendo com que fiquem muito próximo do ódio, que virá a seguir e se voltará contra a civilização.

Sendo um indivíduo e tendo sentimentos, o Selvagem se vira, primeiro, contra Bernard, recusando-se ao beija mão que ele promove com os poderosos de plantão. E depois, no jogo da morte – lembrem-se que o corpo é matéria – vista como um ciclo natural, o que é difícil para alguém não condicionado aceitar, contra a própria civilização, atirando o soma ao largo e acabando preso. A revolta, no caso, não é contra a morte, mas contra o seu ritual, a despersonalização, a naturalidade com que é encarada.

O que sobra? O estranhamento de ser diferente, de não se enquadrar, o medo da perda de identidade. Pertencemos a um meio, parece dizer o Selvagem, e o civilizado Admirável Mundo Novo, não é o seu. Como aceitá-lo, então?

brave3.jpgSob esta ótica podemos agrupar os capítulos que vão do quinto ao nono. Neles, se faz, primeiro, a apologia do condicionamento, o que redunda na felicidade de quem, sendo condicionado, sente-se perfeitamente integrado na sociedade e no seu meio social. É neste sentido que “é bom ser Alfa” e não é bom ser qualquer outra coisa. A felicidade, neste caso, está no cumprimento do seu papel, que pressupõe trabalho e consumo, com momentos de fuga da realidade através de sua dose diária de soma.

Em uma sociedade onde não existe religião – e este é um assunto discutido mais adiante – o próprio corpo é tratado como matéria, reduzido a cinzas reciclado. A única concessão ao coletivo são os transes, que funcionam como uma espécie de “descarrego”, fazendo com que, depois dele, as pessoas voltem ao “normal”. A sociabilidade é maximizada, com a individualidade sendo vista como problema, daí o tratamento do transe coletivo.

O mundo é asséptico, inclusive de sentimentos. Daí a assertiva de que os habitantes do Admirável Mundo Novo serem adultos no trabalho e criancinhas do sentimento e desejo. Aliás, os dois não existem e o relacionamento, se não chega a ser funcional, tem mais o sentido lúdico, maximizado pelos jogos, incluindo neles o jogo sexual. O que Huxley não deixa claro é que se há prazer no sexo. Como o mundo é asséptico, pode se pressupor que não.

A este mundo asséptico é contraposto o “mundo selvagem”. Ele é sujo, carnal, cheio de crenças e superstições, nele prevalece o amor, o ódio e a vingança, a dignidade é vista como sacrifício, os conflitos permanentes, inclusive pela “posse” de outros humanos, a expiação uma necessidade. Marcados pelo pecado original, submetidos aos deuses, os não “civilizados” vivem uma vida degradante, inclusive degradando o próprio corpo, o que é um insulto para os “civilizados”. O sentimento – em todos os sentidos – leva ao gueto e lá é mantido, longe, restrito, de forma que não ofereça nenhum risco de contaminar a civilização.

Estabelece-se, aqui, a visão maniqueísta que contrapõe civilização à barbárie, não antevendo um meio termo, em que se poderia ter algo da civilização e um pouco da criatividade da barbárie. O resultado é que no processo civilizatório, cria-se um novo conflito, gera-se uma nova pessoa, dividida, que já não sabe a que mundo pertence e já não vê o novo mundo assim tão admirável.

brave2.jpgSe olharmos os quatro primeiros capítulos de Admirável Mundo Novo vamos ver que a discussão central neles se prende aos quesitos estabilidade, sociabilidade e moral. No primeiro caso, enquadram-se todas as ações tomadas pela Direção Mundial, de fabricar humanos com perfis específicos para a realização de determinadas tarefas e seu condicionamento, primeiro, para viver em conjunto, e depois para serem felizes com o que fazem.

Esta sociedade paradoxal, se olhada sob nosso ponto de vista, oferece, ao mesmo tempo, estabilidade de emprego, emocional, financeira e se baseia em um relacionamento superficial, onde o sexo é fator lúdico, não existe envolvimento emocional e o consumo, uma obrigação. A moral não guarda qualquer racionalidade e, tampouco, está alinhada a nenhum tipo de crença. Na verdade, como todos são condicionados, ela não existe, podendo se falar, então, em amoralidade.

Neste novo mundo, que só é admirável quando visto de fora, por quem não é “civilizado” – até porque os “civilizados” não pensam – estabilidade quer dizer ordem, quer dizer padrão, quer dizer não contestação, quer dizer conformismo, quer dizer fuga da realidade. Liberdade, em contrapartida, é o caos, já que o pensamento criativo põe em choque a igualdade forçada, a obrigação do conformismo e desfaz o relacionamento casual, reclamando a “posse” da pessoa amada, na base de um para um e não de um pertence a todos.

Por isso é que Bernard Marx se sente incomodado com sua iniciante individualidade, que o coloca à parte do todo e o faz se sentir como um paria. A diferença gera inquietação e leva à contestação. A construção da utopia do igualitarismo – baseada nos primórdios do comunismo na Rússia – faz com que seja preciso abrir mão da individualidade, como se abria mão da propriedade. Se sou eu, não posso aceitar o total, o todo. E se não aceito o todo, não posso exigir estabilidade, pois ele só é conseguido mediante padronização.

brave1.jpgO tema de Admirável Mundo Novo não é o avanço da ciência em si mesmo; é este avanço na medida em que afeta os seres humanos”.

Se, como afirma Aldous Huxley, acima o centro do livro não é a ciência, ele vai muito além dela, do que afeta o comportamento dos humanos e discute questões que vão da política à filosofia, passando pela religião e como ela molda o pensamento de todos nós. Um das mais importantes discussões de Admirável Mundo Novo é a construção da sociedade, como a queremos e como é que podemos, a partir do avanço científico e tecnológico, construir uma nova utopia.

O livro, na verdade, levanta mais dúvidas que certezas. Mesmo que o olhemos da perspectiva de quando foi escrito, nos proporciona vários questionamentos, a começar pelo tipo de sociedade que desejamos e como podemos construí-la, se com liberdade ou mediante a adoção de controles estritos. E é a partir desta ótima maniqueísta que o livro é construído, não restando, no final, senão a opção do suicídio do Selvagem, que foi intoxicado pela civilização, não conseguindo se livrar dela a não ser pela morte.

Para falar do romance, sem submeter os participantes e palpiteiros deste Clube a um texto muito longo, vou dividir meus comentários sobre o Admirável Mundo Novo em partes, discutindo, em cada uma delas, o que achei mais significativo. Em alguns casos, estas partes são capítulos. Em outros, a junção de um ou mais deles, de certa forma submetidos a uma temática que os percorre.

Antes de comecar meu post gostaria de anunciar que semana que vem teremos a maratona Lino Resende aqui no Clube do livro. Lino publicara sua resenha em sete capitulos. Nao percam ! Logo apos a maratona Lino, cada autor do Clube do livro publicara tres posts conclusivos com suas impressoes gerais sobre o livro e com isso finalizaremos esse tema e daremos inicio a outro que sera liderado pela Cissa.

Anuncio feito, voltamos ao que interessa: o Admiravel Mundo Novo!

Ate o ponto em que estou no livro, dois pontos me chamaram bastante a atencao. O primeiro eh o condicionamento que ja foi apresentado aqui no Clube do Livro pelo Lino e depois complementado por um comentario muito legal da Sciliar. Outro ponto que me chama atencao eh a questao da sexualidade, que eh banalizada juntamente com o conceito da familia. No entanto, nao quero discutir esses temas sem ter terminado de ler o livro completamente, portanto, assim que eu acabar de ler irei elaborar os meus tres posts incluindo esses temas e mais um que ainda definirei.

No entanto, nesse post de hoje, pegando o bonde que o Alvaro tocou sobre “antecipacao” e dando de certa forma continuidade ao discutido pelo Lino e redirecionando a questao do condicionamento a educacao, muito bem lembrado por Sciliar com a publicacao nos comentarios da figura abaixo. A figura se trata de uma charge que Sciliar encontrou e que foi publicada no final do seculo XIX como uma previsao de um futuro automatizado para a educacao. E nao eh que foi justamente no final do seculo XIX e inicio do seculo XX que o behaviorismo nasceu ? Pensando por esse aspecto, se a pscicologia nao tivesse tomado outro rumo, certamente estariamos em uma situacao bem parecida com a charge abaixo.

Ao ver essa figura imediatamente me lembrei das “maquinas de ensinar”de Skinner. Nao consegui colocar esse video do you tube aqui, mas para quem ainda nao viu vale a pena conferir- clique aqui e veja la). Skinner foi um dos papas em psicologia experimental e praticamente o criador do behaviorismo radical. O livro chamado
“Psicologia da maneira como eh vista pelos Behavioristas” foi publicado por volta de 1910 e com isso o Behaviorismo se tornou uma especie de febre na psicologia ate a decada de 70. Se pensarmos por esse ponto de vista fica facil entender de onde veio toda a ideia de condicionamento descrita em Admiravel Mundo Novo, que foi escrito em 1932 quando o condicionamento era a moda da epoca.

Outra coisa que me chamou atencao no livro foi a citacao a hipnopedia - que eh a educacao atraves do sono. Ate onde sei, nao existe nenhuma comprovacao cientifica de que isso funciona. No livro eles argumentam que a hipnopedia falha quando utilizada para a educacao intelectual, mas que misturada com o condicionamento era capaz de fazer implementacoes morais em um individuo, ja que educacao moral nao eh racional. Com isso eles eram capazes de psicologicamente implementar a divisao das castas.

Agora me diz, quem ai ja nao pensou como seria bom poder dormir e acordar falando uma outra lingua ? Ou com todo o conteudo da prova na ponta da lingua ? Ja conheci gente que ate dormia com o livro debaixo do travesseiro porque dizia a lenda que no dia seguinte iria lembrar de tudo.

A questao eh, como ja previa o livro, a educacao intelectual nao eh facil de adquirir e eh necessario muito esforco. No entanto, para a moral, nao eh necessario nem estar dormindo. Como ja foi citado aqui inumeras vezes nos comentarios, a sociedade ja nos faz isso o tempo todo, nos bombardeando com coisas que sao certas e coisas que sao erradas de fazer dentro de um contexto de comportamento classificado por sei la quem, talvez a igreja, como sendo normal. Essa eh a educacao condicionada que temos ! Nossa educacao moral eh tao bem condicionada quanto em Admiravel Mundo Novo o era. A unica diferenca eh que a deles se da dormindo e a nossa se da em plena consciencia.

Beijos astronomicos para a todos e tem um otimo domingo !

Lys

Deixemos um pouco de lado a história em si, para falar dela mais adiante, suas mensagens e múltiplas conclusões, para focar outros pontos.

O admirável em “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, é que ele quase conseguiu antecipar uma série de conquistas tecnológicas que, de resto, só se concretizariam muitos anos depois. O helicóptero, por exemplo, era um mero projeto em 1931, quando o livro foi escrito. A televisão, idem. E ele conseguiu remeter-nos mais ou menos à importância que os dois inventos teriam anos depois, como têm hoje. Só que ainda não podemos andar normalmente de “helicoptaxi”. Infelizmente.

Em 1931 nem se tinha idéia de como seria o computador, essa maravilha que uso agora para escrever. Por isso o mundo novo de Huxley ainda é feito de mensagens de papel, trocadas entre os personagens. O telefone é o único meio não concreto de envio de palavras entre os personagens. O autor, sabiamente, imaginou que o teletipo era então algo que muito breve se tornaria ultrapassado.

Também em 1931 a ciência começava a especular em torno dos foguetes e da importância, bélica e civil, que eles teriam. E são os aviões-foguete que transportam os personagens do romance. Mas em modestos 1.200 quilômetros por hora, embora com todo o conforto possível e imaginável.

Até a Islândia surge no horizonte totalitário do romance como o Arquipélago Gulag criado para ser porto dos dissidentes daquela sociedade pós-fordiana. E era obrigatório que houvesse pelo ao um, pois não há totalitarismo sem desterro.

O fantástico de quem faz ficção científica é que ele tem dois caminhos: o primeiro, de se descolar totalmente da realidade e dar, como se diz, asas à imaginação. O outro, de se atrelar ao que a ciência tem, pretende ter, projeta construir para, a partir daí, antecipar o futuro. É um caminho bem mais difícil, bem mais tortuoso, mas inagavelmente mais criativo. Mais sólido, seja a história o que for. Esse foi o caminho de Huxley.

Um brinde de soma para cada um!

álvaro josé silva

Meu livro chegou a alguns dias e ainda nao passei do primeiro capitulo. Palavras como “algidez hibernal” ficaram batendo em minha mente juntamente com a descrição do ambiente laboratorial. Isso em um dia em que vc está mais para cadáver do que para gente!

Tentando nao levar em conta o que foi dito sobre o livro aqui, principalmente nos comentários, que por mim viravam sub-post, trago a baia uma alucinação antiga do tempo em que a maldade humana nua e crua bateu a minha porta e eu ingenuamente deixei entrar. Escolhas… livre-arbítrio… pra que??? Somo capazes de usar esse dom de forma correta? Porque não já nascermos, ou sermos criados, com nosso destino todo traçadinho e geneticamente manipulados para ser feliz assim?? Com duas garrafas de vinho, três frascos de tranquilizantes e meia dúzia de alucinógenos na cabeça não vejo problema nenhum nisso!

- Mas a vida não pode ser tão fácil assim Ciça!

Bom, se você acha fácil manter a lucidez sem chocolates e com TPM, vamos lá….

Não importa QUEM criou essa ordem. Ela existe e eu continuo achando ter sido uma variaçao natural do desenvolvimento humano. Um tanto retorcida, ok, bem retorcida para agradar um ou outro, mas para isso existe a tolerância, outro dom básico para a convivência social. Se ninguém tem o direito de impor, ninguém tem o dever de obedecer… mas todos temos de arcar com as conseqüências!

Chega a ser filosófico dizer isso, mas não é. A verdade é que, ao comprar o livro na net, esqueci de trocar o endereço antigo (da casa da minha mãe) pelo novo (minha casinha). Resultado: passei o final de semana ansiosa, xingando o sebo de SP onde comprei meu livro, dizendo que nunca mais comprava em sebo e já procurando pelo livro em sites e livrarias convencionais. Ontem à noite, depois que eu já tinha xingado todas as gerações da família do cara do sebo, minha mãe me liga dizendo que tem uma encomenda pra mim na casa dela há uns 2 dias, talvez mais!!! (é que ela estava em Guarapari, curtindo as férias, não sabe que dia chegou!!) Eu mereço né?!?! Me desculpa aí senhor livreiro…

Enquanto ainda não via nem a capa do meu livro fiquei pensando o que vou fazer quando for a minha vez de escolher o tema… ai meu Deus!! Os últimos livros que tenho lido são romances ou livros de vampiros… alguém aí se interessa?!!? Aí fui me lembrar da minha época de aula de literatura, ainda na escola… quando li Machado de Assis, José de Alencar, entre outros feras da nossa literatura e (UFA!!) acho que tô salva!!! Qualquer coisa ainda temos alguns atuais… O Caçador de Pipas, A cidade do Sol e outros.

Até lá veremos!!!

Ah, e hoje vou buscar meu livro!!!

Beijos a todos!!

Ah, pra quem não entendeu essa história de comprar livro de sebo pela net, eu explico: é um achado… a Estante Virtual, um site só de sebos do Brasil todo!!! Quer ver?!!? Clique AQUI!!

aldus1.jpg“Não são os filósofos, mas sim os colecionadores de selos e os marceneiros amadores que constituem a espinha dorsal da sociedade”.

A afirmação está logo no início do primeiro capítulo de Admirável Mundo Novo e acho que, a partir dela, podemos entender um pouco do que Aldous Huxley defendia quando escreveu o romance. E que permaneceu defendendo 15 anos após sua primeira publicação.

Para ele, a estabilidade social não vem com o pensamento criativo, com alguém que se coloca contra o sistema, que o critica, que procura falhas. Mas, sim, de quem aceita o seu papel, nele se enquadra, chegando quase à padronização - o que, aliás, o romance prega.

Homens e mulheres não têm, também, necessidade de filhos, de se apegarem uns aos outros, daí a sociedade de Admirável Mundo Novo ser constituído de homens, mulheres e neutros, lembrando que a proposta é que cheguemos ao “mundo muito mais interessante da invenção humana”.

“O segredo da felicidade e da virtude: amar o que se é obrigado a fazer”, como afirma o diretor de Incubação e Condicionamento, para observar que é para isso que serve o condicionamento.

Se no romance - e depois dele, em um prefácio feito 15 anos depois - Huxley defende esta posição, cabe perguntar: Será que é assim hoje? Somos condicionados para gostar do que faazemos e, quando gostamos, isso nos traz, efetivamente, a felicidade? Vivemos em um mundo onde o pensar de forma independente não é importante?

O condicionamento, no meu entender, não chega ao de Admirável Mundo Novo, mas existe. E a adaptação ao trabalho, à função, sem dúvida é um fator de felicidade e, seja mediante treinamento ou incentivos emotivos, somos levados a assumir esta postura. Quando não o fazemos, acabamos à margem do processo, vistos como párias.

Em uma época em que o moderno era pensar o futuro a partir dos avanços tecnológicos e científicos que iam surgindo, Huxley traçou um perfil social que desembocava no totalitarismo, significando o total controle de tudo que os habitantes do mundo novo e admirável faziam. E colocava em contrapartida a este controle a barbárie.

Somente nela é que podemos ser livres, mas não podemos ser felizes. Temos liberdade de crer, de sofrer, de amar, de pensar por nós mesmos, mas não temos conforto, diversão e vivemos em um gueto. O mundo de Admirável Mundo Novo é maniqueista. Mas não será o nosso, atual, também?

Temos, realmente, opções de escolher, de encarar o sistema e não ser transformado em um pária, colocado de lado, mandado para uma ilha? Esta é uma questão interessante e que, a partir de Huxley podemos discutir. Haverá, então, uma saída intermediária entre a civilização - e com ela os controle - e a barbárie?

Quando comeco a ler um livro sou do tipo que le primeiro todo o prefacio, a introducao, a dedicatoria, enfim, tudo que vem antes de uma forma bastante metodica tipica de alguem que dedica a vida a ciencias exatas, de pagina em pagina, uma a uma. Dessa forma, comecando do comeco, no livro que comprei me deparei com a introducao feita por uma jornalista chamada Margaret Atwood. A introducao eh muito boa e contextualiza o livro, e eh com essa inspiracao que escrevo meu primeiro post.

Muito antes da primeira guerra mundial (1914 a 191 8) haviam inumeros livros que descreviam um mundo ideal e utopico. Um mundo perfeito e romantizado aonde as pessoas eram felizes, bonitas e saudaveis. Entre eles podemos citar o famoso livro Utopia, de Thomas Morus escrito em 1516. Inumeros outros livros, incluindo os contos de fadas, poderiam ser citados. Com a chegada da primeira guerra o contexto de mundo ideal tomou uma forma diferente da utopia romantica e idealista ate entao conhecida. Nesse momento o ideal toma um corpo bastante mais realista, abandonando quase que completamente o romantismo. Podemos dizer entao que a primeira guerra levou com ela todo o romantismo do mundo ideal.

1984overture.gif

No final da primeira metade do seculo passado surgiram duas grandes obras “visionarias”. Por um lado o mundo sofria dominio pela forca, na obra chamada 1984 de George Orwell, que nos apresenta uma visao de estado totalitario e controlador, aonde a massa da populacao vivia sob a vigilancia do Big Brother e submetida a perversidade do Ministerio do Amor. Por outro lado o mundo sofria um controle mais sutil via a persuasao hipnotica com uma proposta de totalitarismo mais leve ao invez da brutalidade. Tudo isso misturado a uma visao mais futurista em termos de engenharia genetica e controle da vida e formacao dos humanos.

brave-new-world-2.jpg

Apesar de sabermos muito bem que a ideia dos livros citados acima estava bem longe de tentar ser qualquer tipo de profecia, eh possivel, olhando para o passado desde o ponto aonde estamos agora, comparar e contextualizar ambos os livros com a nossa propria historia. Definitivamente nao acredito que a ideia dos autores era fazer qualquer tipo de previsao do futuro, mas temos que dar o braco a torcer e convir que eles deram muitas “bolas dentro”. Mas em que ponto exatamente ?

Durante a guerra fria por exemplo o estado totalitario e bruto de George Orwell toma a dianteira e em muitos momentos nos faz crer que vivemos 1984. Com a queda do muro de Berlim o ministerio do amor cai em terra dando abertura ao poder de compra e ao consumo de prazer. Junto com a chegada de doencas como a AIDS como uma especie de “punicao a promiscuidade” e com o avanco da engenharia genetica, o Admiravel Mundo Novo pega um bela vantagem que nos fazia crer que o mundo inteiro viraria algo tao anticeptico quanto o mundo descrito por Huxley.

Mas quando pensavamos que estavamos rumando em direcao ao Admiravel Mundo Novo, o ataque as torres gemeas trouxe de volta o ministerio do amor com toda sua furia. No entanto, Admiravel Mundo Novo nao foi completamente vencido na batalha. Hoje em dia eh possivel pensar em ter um filho perfeito com intervencao genetica ou mesmo prolongar a vida e a beleza. Ao mesmo tempo o Big Brother esta cada vez mais poderoso e controlador. Na Inglaterra ja o vemos em cada esquina. E tambem nao podemos deixar de lembrar de varias igrejas que fazem uma verdadeira lavagem cerebral implementando uma especie de ideologia hipnotica na cabeca de grande parte da populacao.

Uma coisa certa eh que muita gente ficaria extremamente feliz por ter uma caixinha de soma em casa. Eh claro que a proposta de uma droga que prometa “a felicidade para todos e agora” sem nenhum tipo de efeito colateral seria uma descoberta fantastica e garantiria o premio nobel para quem a descobrisse. Mas que preco teriamos que pagar por essa felicidade involuntaria ? Que preco pagariamos por viver em um mundo ideal aonde todas as pessoas sao bonitas, limpas, saudaveis, perfeitas e felizes ?

Parece que rumamos (pelo menos nas classes e/ou paises mais abastados) para um futuro anticeptico como o descrito por Huxley. Esse futuro porem convive muito bem com a brutalidade do ministerio do Amor e o controle do Big Brother. Mas sera isso possivel ? Sera que estamos fadados a ter o pior de ambos os mundos em um apenas ? E como seria esse mundo no futuro ? Uma coisa eh certa, essa possivel dualidade nenhum dos dois autores conseguiu prever.

Não deve ser surpresa para ninguém que me conhece, ou pelo menos freqüenta meu blog, saber que ficção científica é um gênero literário totalmente novo para mim. Entre Marien Keyes e Aldous Huxley o primeiro sempre teve vaga garantida no meu carrinho de compras. Isso não quer dizer que nao esteja ansiosa. Talvez essa seja a chance de minha vida para provar ser um égua letrada. As ultimas tentativas foram frustradas e caras. Mas a gente fala disso depois!

Para não correr risco de me perder pelo meio do caminho achei melhor pegar o Admiravel Mundo Novo em português. Deve chegar ainda na próxima semana, porém, por morar no buraco do tatu entre o nada e o lugar nenhum, provavelmente não antes da terça-feira. Portanto, vocês vão ter de esperar mais um pouco para saber se a égua dá pra coisa ou não - sem trocadilhos, por favor!

aldous.jpgA opção é entre a civilização e a barbárie. Pelo menos é o que nos põe Admirável Mundo Novo, a obra que consagrou Aldous Huxley e que nos mostra uma sociedade totalmente controlada e domada, onde o pensamento original é punido com o exílio e há, de outro lado, um estrito controle de classes.

A idéia, aqui, no entanto, não é fazer um resumo do que Huxley diz. E sim de situar o seu romance e mostrar o que o próprio autor disse dele, alguns anos depois de sua publicação. Primeiro, o autor.

Huxley era inglês, pertencia à elite do país e seu pai, para se ter uma idéia, ajudou no desenvolvimento da Teoria da Evolução. Em um anbiente rígido, onde os dirigentes pensavam que podiam dispor dos que não tinham privilégio é que Aldous Huxley nasceu em 1894.

Sua primeira obra literária, um livro de poemas - sim, ele era poeta - foi publicado em 1916. Três anos depois, casava-se e deste casamento nasceu seu único filho, em 1920. Admirável Mundo Novo foi escrito em 1931 e publicado no início de 1932. Não é o primeiro livro de Huxley, mas acabou por torná-lo conhecido e transformou-se, segundo todos os críticos, na sua obra mais importante.

Embora trate do totalitarismo, o livro foi escrito antes da Segunda Guerra Mundial e antes de Hitler chegar ao poder. Para traçar um paralelo, outro livro, 1984, de George Orwell, que também trata do totalitarismo, foi escrito após a segunda guerra mundial.

Quinze anos depois de escrever o livro, em uma reedição, Aldous Huxley fez para ele um prefácio. Nele, considera a possibilidade de corrigir o que chama erros do romance e opta por não o fazer. Uma das correções que acha possível é dar mais opções que não entre civilização e barbárie. Mas o romance permaneceu, por decisão do próprio Huxley, como foi publicado na primeira versão.

Neste prefácio, ele se dá ao direito de antecipar o que, no seu ver, pode ser o mundo do futuro. E não vê, nele, muita esperança. Acha que estava caminhando para o totalitarismo, centralização e a eugenia. Tal como no seu próprio romance. Huxley não vê futuro para a democracia, não crê em movimentação social e acha que somente com o controle é que o mundo poderia ir à frente. Talvez tudo isso seja o reflexo do seu próprio nascimento em um meio de elite.

O fato é que, se de um lado, do político, Huxley erro, e feio. Do outro, do avanço da ciência, acertou, pelo menos no que se refere à biogenética, à manipulação dos genes, à programação dos nascimentos. Não chegamos, ainda, ao Admirável Mundo Novo - a propósito, retirado de um verso de Shakespeare - mas já somos capazes de clonar coisas - ainda, não chegamos aos humanos - e temos meios para mudar as pessoas.

Será que vamos chegar ao Admirável Mundo Novo? Não no sentido de Huxley, de controle político, mas no seu sentido eugênico, de tornar os homens e mulheres saudáveis, imunes à doença e com vida mais prolongada.

O que vocês acham?

Brave New WorldVotacao encerrada !

O primeiro livro a ser discutido aqui no clube do livro sera Admiravel Mundo Novo (Brave New World) que foi escrito por Aldous Huxley e publicado em 1932.

So para ja irmos entrando no clima e ganharmos tempo para passar na livraria mais proxima de casa, segue abaixo a sinopse e um textinho sobre o autor que copiei e colei absolutamente e sem vergonha na cara do site da livraria cultura.

Sinopse:

Um romance de idéias que descreve as formas mais sutis e engenhosas que pode assumir o pesadelo do totalitarismo, e que resiste às interpretações político-ideológicas de esquerda ou direita suscitadas desde seu lançamento

Sobre o autor:

Aldous Huxley (1894-1963) nasceu na Inglaterra. Aos dezessete anos, uma doença reduziu sua visão a um décimo do normal. Huxley passou grande parte da vida longe da terra natal: morou na Itália, na França e, em 1937, no auge da fama, mudou-se para os Estados Unidos, onde veio a morrer. É autor, entre outros, dos livros ‘A Ilha’, ‘Admirável Mundo Novo’ e ‘Contraponto’.