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Faltando 22 páginas terminar a leitura do conto eu vou lhes falar a verdade: nunca (ou quase nunca) leio nada desse pistolões, vencedores prêmios, colecionadores de títiulos, medalhas, louros e outros quetais. Geralmente escolho livros de autores nao muito conhecidos, sem muito auê em torno de suas obras. Como a gente está aqui no Clube tentando diversificar, resolvi também dar uma mudada nos meus conceitos e propus autores reconhecidos e comentados pra essa rodada de leitura. Por sorte e pra meu deleite, essa moca escolhida por vocês, autora de As Avós, está entre as grandes, mas mantém de certa forma a frescura (e ironia) comum aos pequenos independentes e contestadores.
Acho que acabo essa noite mesmo o livro. Vinte e duas páginas left , e a Lessing já ganhou uma nova fã.
Beijo pra vocês e bom fim e semana.
Esse é o último post sobre esse tema super interessante escolhido pela Cissa. Desde o comeco, antes mesmo do livro ser escolhido, esse tema já estava dando pano pra manga nos e-mails que trocamos entre os participantes do Clube do Livro. A discussão continuou aqui nos posts, sempre de forma super interessante e enriquecedora.
A verdade é que ninguém passa batido, sem ter nenhuma opinião ou uma reflexão a respeito, quando o tema é esse. No caso da Mukhtar, que foi estuprada, a violência é física e, por isso, visível. Quando a violência deixa provas concretas, o nosso engajamento intelectual e emocional acaba sendo quase que imediato. Primeiramente ficamos revoltados com o ato em si e sentimos extrema empatia com a vítima, para depois passar a tentar fazer com que alguma coisa nessa história terrível faca sentido. A mesma coisa ocorre quando, por exemplo, falamos de circuncisão feminina. “Que coisa horrível, que ato bárbaro. Pobre menina, doe em mim só de pensar. Mas é a tradicão deles, a cultura é assim.” A verdade é que quanto mais longe da nossa própria cultura, mais difícil fica de compreender os rituais dos outros, ainda mais quando esses envolvem violência física. Já a violência que não deixa tracos físicos não nos engaja da mesma maneira. Por exemplo:
- Milhares de fetos são abortados todos os dias e em muitos países unicamente pelo fato de que esses fetos são meninas.
- Milhões de mocas e rapazes sao obrigados a aceitar casamentos arranjados por suas famílias.
- Milhares de viúvas na India são condenadas a viverem isoladas, sem contato algum com a sociedade, pelos simples motivo de que seus maridos estão mortos.
- Milhöes de mulheres ainda hoje recebem salários bem menores que homens, mesmo desempenhando a mesma funcão e tendo cargas horárias equivalentes.
- Milhões de mulheres alteram seus corpos através de cirurgias estéticas, colocando muitas vezes suas vidas em perigo, a fim de que consigam corresponder aos padrões sociais de beleza.
Na minha opinião, a violência que se pratica de forma sutil, tao sutil que a própria vítima não se percebe como tal é a pior de todas. Mukhtar já era vítima dessa violência muito antes dela ter sido estuprada, mas por conta da quietude dessa violência, ela jamais recebeu ajuda, tão pouco identificou ela mesmo que necessitava de ajuda.
“Você é como uma criança que aprende a caminhar. É uma vida nova e você tem que recomeçar do começo. Eu não sou psiquiatra mas me conte sobre a sua vida antes disso tudo, sobre a sua infância, seu casamento e até mesmo sobre essa situação horrível a qual você foi submetida. Você tem que falar, Mukhtar, porque falando a gente põe pra fora tanto coisas boas quanto ruins. A gente se liberta. É como lavar uma peca de roupa suja: só quando ela finalmente fica limpa é que a gente pode usá-la sem receio.“
(…)
“- Você fala sempre o que você pensa?
- Sempre!”
(…)
“Eu consegui realmente falar com Naseem e contar tudo pra ela. (…) O meu sofrimento físico e psíquico, a vergonha, a vontade de morrer, a confusão mental, como quando eu voltei sozinha para casa e me atirei na cama, como um animal agonizante. Pra ela eu pude falar coisas que seriam impossíveis de ser faladas para minha mãe ou minhas irmãs, pois, desde muito pequena, somente uma coisa eu fui ensinada - a me calar.”
Esse insight da Mukhtar, pra mim, valeu o livro, e a partir daí eu comecei a achá-lo interessante. Foi a necessidade de fazer com que a sua história fizesse sentido, que a levou a tomar as atitudes que ela tomou. Foi assim que ela aprendeu a falar - até então, ela só repetia a história dos outros.
Beijo pra vocês e bom fim de semana.
Terminei de ler o livro. Ele em sueco chama-se “A honra tem seu preco”, e no prefácio o editor descreve como o livro foi feito. Uma jornalista especializada em escrever “auto-biografias” de mulheres foi ao Paquistão, escutou os relatos da Mukhtar que foram devidamente traduzidos do idioma dela para o francês por dois intérpretes. A escritora então colocou tudo no papel em francês. Os interpretes traduziram novamente, só que dessa vez do francês para o idioma de Mukhtar, e gravaram uma espécie de audio book para que Mukhtar pudesse escutar e autorizar a publicacão. Ou seja, foi um trabalho grande de traducão. Mas isso é só uma curiosidade, que de repente até está na edicão em português.
A minha opinião depois de ter lido o livro é que não dá pra lê-lo sem se horrorizar com o sofrimento dessa moca. Muito menos dá pra ler um livro desses sem pensar sobre como violência contra mulher, religião e poder estão todos interligados nessa trama canalha. Infelizmente, há uma série de referências no livro sobre leis religiosas, tradicões locais e arranjos sociais que eu nunca havia lido sobre. Por isso mesmo eu nem me arrisco a colocar aqui minha opinião sobre quem é o ovo e quem é a galinha nessa história toda.
Uma coisa que fica evidente pra mim é como o corpo da mulher, independentemente da cultura, se torna sempre objeto na mão dos poderosos. No exemplo de Mukhtar, eles mantêm o poder, além de reforcarem e lavarem sua honra, através de atos de violência contra as mulheres. A religião parece ser um pano de fundo, que tanto dá esperanca e conforto à vítima, quanto é usada como arma contra ela pelos seus algozes. O corpo, o que ele significa, como pode ser usado e por quem é, a meu ver, o central em toda essa história. Não à toa as feministas no ocidente travaram e travam batalhas à favor do aborto e contra a pornografia.
Deixei um comentário há uns dias atrás aqui no clube, em que eu dizia que esse tipo de literatura “só” reforca a idéia que o Ocidente tem a respeito dos não-ocidentais como sendo não civilizados. Depois de ler o livro, eu definitivamente mudo de idéia. Acho que esse livro tem seu espaco e razão de ser.
Beijo pra vocês e desculpe o atraso em publicar o post.
Acho que eu devo ser a única aqui no clube que ainda não leu o livro. Comecei essa semana, li umas dez páginas e pretendo acabar a leitura nesse fim de semana.
Os posts dessa semana já deram uma idéia do nível de discussão que vamos ter aqui no clube durante 5 semanas. O Lino comentou de forma muito pertinente, entre outras coisas, sobre a hipocrisia que volta e meia rola quando a discussão é sobre violência contra mulher. Dani nos lembrou da relação existente entre educação e poder, muito evidente no caso da nossa heroína. Ethel enumerou casos em que tribunais paralelos ao sistema judiciário decidem o destino de supostos infratores. Já Ciça nos chamou atenção à razão pela qual Mukthar escreveu o livro, além de nos lembrar que, quando se trata de proteger mulheres vítimas de violência relacionada a honra e tradição, muitas vezes o que impera mesmo é a politicagem.
Então só me resta ler o livro pra poder tentar alcançar o mesmo nível do amigos aqui do clube.
Beijo pra vocês e bom fim de semana.
Hoje era o meu dia de escrever algo sobre o tema “Fabricacão de humanos”. Passei uma boa parte do meu tempo pensando sobre o que escrever, depois de todos essas semanas de discussão sobre o livro.
Matutei, matutei e não cheguei a conclusão nenhuma. Apesar desse tema e do livro terem sido muito apreciados por mim, eu realmente não tenho mais nada a acrescentar. Por enquanto, ainda somos criados a partir de uma ato muito humano, que se nem sempre é de muito amor, é invariavelmente de muita, digamos, tensão. Pra mim tá bom assim.
E o resto já foi dito.
Então, amigos, eu só tenho a desejá-los um ótimo fim de semana. Um fim de semana de muita alegria e descanso.
Quando eu li Brave New World pela primeira vez, eu o fiz pra cumprir com uma tarefa escolar. Todo mundo já passou por isso, certo? O professor escolhe um livro e todo mundo tem que ler e discutir o bendito. Nem preciso dizer que essa obrigacão de ler um livro não me agradou nem um pouco. Mas li, fazer o que?, e não gostei muito do livro. Achei meio datado, com a paranóia do perído entre-guerras e principalmente cientificamente atrasado. Me refiro à forma como as pessoas eram criadas, alterando as condicões ambientais às quais os “bichinhos” eram expostos. A descoberta do DNA só seria feita décadas depois do lancamento do livro. Reler Brave New World, entretanto, me deu a chance de reavaliar os meus conceitos a respeito dele e de seus personagens. Um personagem, por exemplo, que me chamou bastante atencão dessa vez foi Bernard Marx.
Ele nasce em uma sociedade de castas, em que as pessoas são criadas com cópias, não devem ficar sozinhas mas sim devotar seu tempo a atividades coletivas, devem consumir o máximo possível, não ter parceiros fixos, etc. Tudo isso em nome da estabilidade. Mas principalmente, elas não devem sentir-se infelizes. A profilaxia da felicidade se faz através de doses regulares da pílula chamada soma, a qual já foi discutida aqui no blog. O que acontece com Bernard Marx, um cara chato e com complexo de inferioridade, é que ele não se sente feliz e não quer tomar o soma. Além disso, ele quer ter o direito de ficar sozinho. Ou seja, ele é a antítese do cidadão socialmente normal.
Voltando ao livro, e pra encurtar a história, Bernard Marx acaba recebendo autorizacão para visitar a reserva habitada pelos selvagens - os não-civilizados. Nessa lugar ele acaba ficando com uma mulher nascida civilizada mas acabou sendo levada a morar entre os selvagens. Essa mulher, por sua vez, tem um filho, nascido na reserva e que sonha em viver entre os civilizados. Quando ele finalmente concretiza seu sonho, os valores do mundo onde ele vivia e do mundo novo colidem, resultando em um catastrofal choque cultural. Bernard Max é a ponte entre esses dois mundos e, no final das contas, acaba sendo banido por seu comportamento não conformista.
Só por essa trama, o livro já vale a pena ser lido. Se da primeira vez que li o livro, me liguei à parafernália tecnológica e àquele mundo anti-utópico, e achei o livro um tanto chato, dessa vez me chamou mais atencão o conteúdo socio-psicológico super atual. Quantos Bernards conhecemos realmente? Que preco se paga, quando se escolhe o não-condicionamento? Qual a interferência da tecnologia nas relacões entre as pessoas e os conceitos de felicidade?
Dessa vez então eu recomendo a leitura e fico grata de ter surgido a oportunidade de reler esse clássico.
Abraco pra vocês!
Passei quase que a tarde inteira escrevendo um post sobre como foi reler esse livro agora, quase 15 anos depois de ter lido pela primeira vez. No final das contas resolvi dar uma olhadinha no you tube sobre o que havia sobre o Brave New World. Achei esse depoimento do próprio Aldous Huxley, com legendas em português, e que vale muito a pena dar uma olhadinha. Reparem que o cachorro que aparece no vídeo é uma alusão aos “cachorros de Pavlov”, experimento que foi a base para a teoria sobre o condicionamento clássico e que veio a influenciar uma escola psicológica muito na moda na época em que Huxley escreveu o livro e muito viva até hoje. A Lys já escreveu sobre isso aqui.
Curto e conciso. O meu derradeiro post sobre esse livro, guardo pra próxima semana.
Beijo bom fim de semana pra vocês.
Recebi meu livro ontem. Fui buscá-lo assim que saí do trabalho e comecei a ler depois que coloquei a gurizadinha aqui em casa pra dormir.
Estou achando muito interessante a história e o tom meio que satírico com que o autor conduz a trama. “Depois de Ford”, por exemplo, e a alusão descarada ao calvinismo com “os predestinados” não é demais?
Capítulo um já se foi, fim de semana chegando, e pra quem não leu ainda, eu rrrrrrecomendo!
Boa leitura a todos.
Oi, pra todos!
Legal poder participar do Clube do Livro e ver que mais pessoas estão aderindo a essa idéia. Acho que ele pode se tornar um canal muito bacana pra trocar idéias, interagir e aprender, além de, como disse a Lys, “abrir nossos horizontes”. Talvez isso já esteja até acontecendo, não é? Quantos de vocês costumam ler sobre esse tema que o Lino propôs? Pois é, eu não. Até não por falta de interesse, mas por falta de oportunidade mesmo. Dessa lista de três livros, por exemplo, eu li apenas um e lá se vão uns bons muitos anos atrás. Livro legal, clássico, todo mundo já ouviu falar e sabe mais ou menos do que se trata. Releria com todo prazer, aliás. Um outro, eu tinha tentado ler, mas acabei desistindo; um pouco por adorar o filme baseado nesse livro e ver que a história não era bem a mesma, um pouco por achar a história meio arrastada, cheia de referências que eu nem sempre conseguia acompanhar. Me vinha aquela imagem loira do Rutger Hauer na cabeca toda hora. ;o) Talvez fosse diferente hoje. Já o último livro, não li e que vergonha dizer que nem sabia que existia. Justamente por isso, pra diminuir essa minha falta de conhecimento, e por estar aberta ao novo e ao inesperado - uau! - que meu voto vai pra ele: Next!
Agora vou comer o sacolé de morango que minha mãe fez pra mim, enquanto espero pelo próximo voto.
Beijo pra vocês.

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