
"O Pesadelo" - Henry Fuseli
Quando os chamados heróis de Hollywood matam o bandido, salvam a humanidade e beijam a donzela no final do filme, o expectador sai do cinema portando uma interessante duplicidade. Por um lado, está aliviado, por saber que a estrutura “libertária” na qual acredita “funciona”, ou “se sustenta”. Porém, na medida em que esse tipo de construção, a do herói norte-americano, se baseia em modelos referendados pela demanda do próprio expectador (o ‘protetor’ de sua ‘liberdade’ e o ícone a ser seguido), o que resulta daí acaba sendo um misto de confiança na liberdade irrestrita aliada a um ressentimento autofágico, que se perpetua por conta da impossibilidade óbvia de se atingir o modelo ideal que o filme representa. Na crista desta onda, fazem sucesso figuras como Bruce Willys, Silvester Stallone, Denzel Washington e cia ltda.
Os gregos tinham uma visão um pouco diferente. Para eles, a arte precisava

"O Massacre dos Inocentes" - Peter Paul Rubens
figurar, para os indivíduos, o que entendiam por lógica da ‘catarse’. O herói grego passava do poder e da ilusão para o destino, no intuito de descarregar um estado de purificação na alma do expectador. Segundo o filósofo Aristóteles, em seu trabalho intitulado “Poética”, a ‘catarse’ se daria através de um processo de purificação das almas, por meio da forte emoção provocada pelo drama.
Esta é a estrutura básica da ‘tragédia’, tema que pretendo utilizar como reflexão neste momento de escolher livros para o Clube. É com o surgimento da tragédia grega que aparece, também, a ideia de ‘humanidade’, ou seja, de que o ser humano pertence a um universo maior do que o da pólis.
A arte mercadológica do mundo atual atua de forma oposta a do drama clássico. Justamente porque a “purificação” do sujeito contemporâneo se dá às avessas, ou seja, num processo que cria e recria inimigos externos ao indivíduo, que são sempre derrotados pelos modelos que a ele-indivíduo são dirigidos. Não há, em suma, reforço de nada parecido como uma ideia

"Estudo sobre o Corpo Humano" - Francis Bacon (1949)
efetiva de “humanidade”.
Qualquer um dos livros escolhidos traz enredos trágicos, que permitem que pensemos na estrutura simbólica da tragédia e no tema dos valores que impregnam as ressonâncias das obras de arte no comportamento dos sujeitos afetados por elas, de um jeito ou de outro.
As obras, por uma interessante coincidência, seguem uma cronologia do trágico, na história da arte ocidental. “Édipo Rei”, de Sófocles, representa a época grega; “Hamlet”, de Shakespeare, a época do Renascimento, com seu cenário de dúvidas e revisões ideológicas oriundas dos excessos criminosos da Idade Média; e “O idiota”, do escritor Dostoievski, figura o imaginário moderno, a partir da ótica de um discurso historicamente marginal, produzido por um russo (o que dá mais uma nuance trágica ao texto).
Votem a vontade, porque aqui a urna é eletrônica, mas não há fraude.

Édipo Rei, de Sófocles

Hamlet, de William Shakespeare

O Idiota, de Fiodor Dostoievski
Marcelo Henrique Marques de Souza



10 comments
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Março 13, 2009 às 11:49 am
Álvaro José Silva
Meu voto vai para “O Idiota”.
Março 13, 2009 às 2:14 pm
scliar
Ih, o Alvaro votou assim, na lata! Bom, eu vou explicar… Meu voto vai para Edipo Rei, por conta de todo o impacto que teve no mundo contemporaneo, com o Complexo de Edipo. Além disso, tem um texto do Foucault, bem curtinho, em que ele analisa o Edipo Rei como um retrato da evolução do sistema jurídico. Tem tambem varios filmes. Muito interessante. Hamlet eu descarto, fiquei com medo, do texto… Bem, para dizer a verdade, até que vacilei com O Idiota, que não li, mas está aqui na biblioteca de casa. Mas como é russo, é acabamos de sair de um universo russo… Aguardemos o resultado! Ethel Scliar Cabral
Março 13, 2009 às 2:38 pm
Mercia
Marcelo, adorei!!! Eu estava curiosa pra ver o que vc iria propor
Vou ficar com Hamlet, eu devo ser maluca, mas acho que deve ser uma aventura ler Shakespeare em ingles… quero tentar!!!!
beijos!
Mercia
Março 13, 2009 às 4:07 pm
Lys
Oi Marcelo,
Sinceramente não sei em qual deles votar… os três são muito bons e leria com o maior prazer. Então vamos por eliminatória. Já li Edipo Rei e Hamlet. Inclusive até participei de uma peça baseada nesse livro. O único que ainda não li foi o livro do Dostoievski, portanto, meu voto vai para O Idiota.
Março 13, 2009 às 4:20 pm
Lino
Fico com O Idiota. E com isso vou retomar a leitura perdida de Dostoievsky.
Março 13, 2009 às 4:48 pm
Lys
Ainda falta a Michelle votar, mas já temos uma definição:
O Idiota: 3 votos – Álvaro, Lys e Lino
Hamlet: 1 voto – Mércia
Édipo Rei: 1 voto – Ethel
Portanto acho que já podemos ir para as livrarias [:)]
Março 13, 2009 às 5:15 pm
Mi Müller
Desculpa a demora turma… fique sem net justo hoje… bom a minha escola foi a vencedora, dos três foi o único que ainda não li
Marcelo… adorei teu texto e tuas sugestões… confesso que pela tua criticidade estava curiosa em saber tuas indicações….
estrelinhas coloridas para todos… e embora ler o Idiota!!
Março 13, 2009 às 10:43 pm
scliar
Mercia, mas tu és corajosa mesmo! Te invejo! Quando crescer quero ser quinenquitu!!! Hamlet em ingles… Um dia eu chego, talvez na próxima encarnação… Abraços, Ethel.
Março 14, 2009 às 4:26 am
Marcelo
Ok, ok, vocês venceram.. Confesso que minha torcida era pelo Édipo Rei, pelos mesmos motivos que os da Ethel. É um dos textos que mais produziram reflexões importantes ao longo do tempo. A do Foucault, que a Ethel lembra muito bem (que ele publicou junto com a conferência que deu no Brasil, que recebeu o nome de “A verdade e as formas jurídicas”) e a mais famosa e importante, que gerou o “Complexo de Édipo”, indicação freudiana sobre a formação da sexualidade humana (bem irônico esse Freud, usando os mitos num tempo que pensa-os como “fábulas”…).
Hamlet dispensa comentários. É uma das obras-primas do Shakespeare, tragédia das mais importantes para a formação intelectual de qualquer um.
E há o vencedor, Dostoievski. Novamente em concordância com a Ethel, também pensei no fato de que estamos saindo de uma discussão “russa”. Nesse sentido, pensei em colocar alguma coisa do Kafka. Mas, como já li quase tudo de importante dele, optei pelo russo.
É um grande autor e sem dúvida vai gerar debates ricos.
Aproveito ainda pra agradecer as palavras carinhosas da Mercia e da Michelle.
Até a próxima.
Julho 20, 2009 às 4:48 am
Paulo Silveira
curioso! gostei do posto.
o livro que geralmente é citado na trinca é Irmaos Karamazov.
Edipo Rei, Hamlet e Irmaos Karamazov. Livros que abordam a questao humana mais fundamental: o parricidio.