Desta vez estou indo devagar, bem devagar, apreciando a leitura feita e, de quebra, anotando algumas idéias postas por Virgínia Wolf no Mrs. Dalloway e em seus personagens, nas falas, nos diálogos ou em suas reflexões. Achei interessante as idéias expressadas e é por isso que as coloco aqui. Acho que servem para refletir o clima do romance, a época em que passa e a crença das pessoas.

Vejamos:

  • De Peter Walsh ao refletir sobre a recusa de Clarissa de desposá-lo: E onde não há nada, o sentimento escava-se oco, completamente oco.
  • De novo, Peter ao observar quem passava na rua: Não era mundana, como Clarissa; nem rica, como Clarissa.
  • De Clarissa, sobre Peter e esposa: Casara com a criada e a levara de visita a Bourton, terrível visita!
  • Sally sobre Hugh: Representava o que de mais detestável da classe média inglesa. Ele não lê nada, não pensa nada, não sente nada.
  • Clarissa: Os deuses nunca perdem ocasião de ferir, contrariar e arruinar as vidas humanas.
  • E sobre Clarissa, que foi “evoluindo para essa religião dos ateus, de fazer o bem pelo próprio bem”.
  • A srta. Kilman sobre Clarissa: Provinha da mais inútil de todas as classes, a dos ricos com um verniz de cultura.
  • Ainda a srta. Kilman sobre Clarissa: Em vez de ficar estirada num sofá, ela deveria estar numa fábrica; ou atrás de um balcão.

São trechos completamente aleatórios mas que, no meu entender, servem para mostrar o espírito crítico do romance, e não só do ponto de vista de Clarrisa, que estava cheia de indagações e interrogações, embora absolutamente apegada às regras da aristocracia e às aparências.

De outro lado, Peter acava funcionando, no meu modo de ver, um pouco como uma consciência crítica. Embora via no meio, não é dele, o que o torna marginal à sociedade e o leva a refletir sobre a futilidade de vários comportamentos.

Quanto à srta. Kilman, o seu ódio pelos aristocratas e a forma como vivem não será, no fundo, um desejo de ser como eles? A crítica devastadora acaba embutindo um desejo, o que a leva a tentar doutrinar a filha de Clarissa para ser diferente.

E vocês, o que acharam do livro até agora? Acho que já disse que não tinha lido, antes, Virginia Wolf. E fiquei surpreso com o tipo de linguagem que adota e a forma encontrada para desenvolver seu rendo, com reflexões que se misturam, saindo do real para o imaginário e voltando a ele, ao mesmo tempo em que traça – pelo menos é o que acho – um perfil cruel da sociedade inglesa do seu tempo.