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Foi num vôo entre Vitória e São Paulo. Havia comprado o romance “Do outro lado do rio, entre as árvores”, uma linda história de amor tardio escrita pelo magistral Ernest Hemingway. De página em página, o personagem principal preparava-se para viver seu derradeiro amor, ou então já o vivia, deliciando-se com garrafas de vinho Valpolicella Bolla.

Em São Paulo, não agüentei. Peguei um táxi e fui até o Centro da cidade. Lá, no Depósito Normal (juro que o nome era ou ainda é esse mesmo), descobri a bebida em meio a centenas de outras. Um belo tinto da região de Veneza. Li o restante do livro bebericando o Bolla.

Na última parte de Mrs. Dalloway, os convivas da festa de Clarissa deliciam-se bebendo Tócai (no livro traduzido por Mário Quintana, o nome é escrito assim, com o acento, que não existe mais atualmente). Não consegui encontrar o vinho em Vitória. Mas foram-me prometidas algumas garrafas em uma loja que vende exclusivamente vinhos. Devo receber duas ou três dessas garrafas de “Tocai Friulano” (esse aí ao lado) em uma semana, no máximo. Aí relei novamente a última parte da história de Virginia Woolf, o relato da festa, tentando penetrar mais ainda no clima do rega-bofe, ao sabor do Tocai.

Só os bons livros, aqueles que nos tocam, são capazes disso. De nos fazer literalmente “entrar” na história, experimentando algo de que ela fala. Coincidentemente, tanto no caso de Hemingway quanto no de Woolf, estamos falando de vinhos (no caso de Virginia, apenas de passagem, claro. É que Hemingway bebia todos os dias). E de vinhos italianos. E ambos de Veneza, embora essa casta seja produzida também na Argentina.

A festa de Clarissa é a apoteose de Mrs. Dalloway. No texto magistral, na incrível capacidade que Virginia Woolf tinha de narrar, ela desnuda seus personagens. O mundano da festa, as conversas, os comentários, as intrigas, as invejas (muitas), as admirações (poucas) e a conclusão final de Peter Walsh sobre a origem e a intensidade de seu êxtase, de sua excitação, fecham com chave de ouro uma história que, se não tivesse sido criada por um dos gênios da literatura mundial, teria sido um simples relato sem graça de uma família, uma cidade, um grupo de pessoas, uma festinha qualquer.

Há momentos brilhantes no romance. Como a de Clarissa Dalloway escoltando o Primeiro Ministro pelos salões da residência, em direção à saída, volteando seu vestido, prendendo-o aos das outras senhoras, sorrindo, pontificando dentro das fronteiras largas de seu reinado de noite de festa. “Mas a idade a atingira; e, tal uma sereia, podia contemplar no seu espelho um claro por do sol por sobre as águas”. Brilhante!

Clarissa precisava encontrar tempo para todos. E também, porque era inevitável no mundo aristocrático da Londres de 1918/1920, para voltar seu pensamento até mesmo para a Srta. Kilman. “Kilman, a sua inimiga”. Como encontrar tempo para isso numa hora como aquela? É próprio da personalidade humana, das pessoas. E Virginia retratou isso na hora, no momento certo. No melhor ponto de seu relato, de sua história.

Conversei, sábado último, com dois professores de Literatura da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), e ambos, conhecedores de toda a obra de Woolf – o que não é meu caso –, concordaram em que Mrs. Dalloway não é o melhor romance da escritora inglesa. Mas concordaram também com outro ponto importante: no caso dela, é tão pequena a distância entre “melhor” e “pior” que não vale julgar. São conceitos pobres no caso.

Defino esse livro como o entendo: um retrato. Pronto e acabado. Em parte da própria autora, com suas crises existenciais e vida atribulada que inevitavelmente levou às páginas das obras escritas por ela. Em parte de seu país, de sua época, de sua gente, de sua cultura e do momento histórico pelo qual a Inglaterra passava, no hiato de 21 anos entre uma guerra mundial e outra, vivendo o apogeu de um tempo distanciado da realidade.

Sim, porque enquanto a aristocracia inglesa tanto se divertia – e o mesmo acontecia com a norte-americana –, como mostra Woolf, naqueles anos 1920, o mundo se debatia em uma incrível recessão pós-guerra que gerou miséria pelo mundo afora, inclusive e principalmente na Europa, com foco especial na derrotada Alemanha. Quem já leu “Berlim Alexanderplatz” ou então viu “O ovo da serpente”, conhece o final dessa história.

Mas, voltando ao retrato, ele é também da frivolidade. Porque o frívolo das sociedades humanas vivia na Inglaterra do início do Século XX da mesma forma que vive nas sociedades desse início de Século XXI, quase cem anos depois. Mas se confronta, se podemos dizer assim, com o que de mais recôndito os sentimentos humanos carregam com os homens e as mulheres. Não fosse assim e Peter Walsh se levantaria com facilidade para ir embora.

Um dos recursos utilizados com frequência no Romance é o das metáforas e comparações. Recurso do qual faz uso constantemente Virgínia Woolf, em seu Mrs. Dalloway. Existem metáforas surpreendentes e metáforas banais. As primeiras são momentos de criação na linguagem, enquanto que as segundas servem, quase sempre, para fins pedagógicos, ou para manter algum tipo de discurso com o mesmo sentido. Nesse segundo caso, reside uma das mais profícuas áreas de discussão da teoria literária, da semiologia e da arte em geral, sendo, portanto, tema fundamental para refletir a sociedade e o Homem, esse ser que nasce no século XVII.

Se nos ativermos ao sentido pedagógico do termo, teremos que a metáfora é uma figuração que consiste em substituir o sentido natural de uma palavra, expressão ou cena por outra que crie, em conexão com a anterior, uma relação de semelhança. Esse é o sentido do dicionário. Entretanto, o dicionário é, como nos diz o Roland Barthes, o que nos lembra de nosso privilégio, mas também de nossa prisão. Por isso, é fundamental tomar cuidado com o totemismo enciclopédico que pode resultar da leitura do sentido comum.

Uma pista do que quero pensar por aqui está justamente em refletir essa expressão do dicionário, quando ele define algo como um sentido natural. A palavra “natural” talvez seja o principal simulacro do discurso linear, e é importante falar a respeito. E o próprio dicionário nos dá a resposta quando, em uma de suas definições, nos diz que “natural” é aquilo “em que não há trabalho ou intervenção do homem”. Para o mesmo dicionário, “sentido” nos leva à “acepção”, “significação”. O significado, de novo segundo Roland Barthes, não seria uma “coisa”, mas uma representação psíquica da “coisa”. Portanto, se há sempre uma representação em jogo, no que tange ao sentido, a expressão “sentido natural” se mostra um paradoxo inescapável. Não há sentido sem o homem. Além do que, mais um paradoxo, “natural” não é mais que outro sentido…

Desde expressões mais simples, como “fonte de lágrimas” (p. 17), como em outras mais elaboradas, quando comenta sobre “sentir aqueles cascos nas profundezas dessa floresta cheia de folhas, a alma” (p. 19), Virgínia Woolf usa e abusa das metáforas e comparações. Quando “o rosto se franze numa interrogação” (p. 21), a metáfora está presente; quando “o rumor se acumula nas veias e faz vibrar os nervos” (p. 25), idem.

O escritor argentino Jorge Luis Borges cita um poeta, seu conterrâneo, chamado Lugones, que teria dito, em 1909, uma frase que eu acho das mais belas e coerentes: “toda palavra é uma metáfora morta”. Assim, reflete Borges, “podemos ser levados a pensar: por que diabos os poetas pelo mundo afora, e pelos tempos afora, haveriam de usar as mesmas metáforas surradas quando há tantas combinações possíveis?”. Completaria eu: mais ainda, quando há tantas combinações impossíveis?

“A linguagem e a vida são uma coisa só”, nos lembra Guimarães Rosa. E a vida não é uma coisa simples, mesmo que haja essa balela contemporânea de tudo simplificar, para “melhor” entender. “É preciso eliminar o propósito de todas as pontes”, como diz Fernando Pessoa. Porque o propósito da ponte é criar a passagem segura de um sentido ao outro. Só entendemos melhor quando adentramos a correnteza da complexidade. E talvez seja essa uma reflexão possível sobre as causas do uso incessante das metáforas entre os grandes autores. Uma fuga da ilusão sutil da segurança. Tentar enxergar as “outras faces” que se escondem atrás das certezas. Reler os próprios equívocos. Porque há uma dignidade nas derrotas que é impossível nas vitórias, como lembra Borges.

A outra face das palavras é sempre uma nova máscara, se sacarmos a profundidade da frase de Lugones. E é por isso que me agradam as metáforas impossíveis. Aquelas que ainda não haviam sido ditas. Aquelas que meu repertório ainda não havia arquivado em algum canto de passividade.

Metáfora não é só criar semelhança entre palavras até então não-conectadas; é, também, o que mostra, quando expressivamente nova, a impossibilidade-de-conexão-ela-mesma. O que vemos em determinados trechos de Mrs. Dalloway. Quando Virgínia “se perde”, quando transita na derrota do sentido. E escrever é isso. Penso assim por que, como Barthes, “escrevo porque não quero as palavras que encontro”. Quero mais máscaras, mais faces outras, mais das combinações impossíveis…

Marcelo Henrique Marques de Souza

Mrs. Dalloway rodeou-me por todos os lados. À minha frente, o livro perdido na prateleira, que finalmente apareceu (como não o vi?). Ao seu lado, outra edição, de minha cunhada. E mais uma, de meu sobrinho. E outra mais – que surgiu repentinamente. De quem seria mesmo? Ah, sim! Já sei: de uma grande amiga. Fico com aquele que sempre esteve ao meu lado. É uma edição antiga, de 1946, aquela traduzida por Mário Quintana. Muitos parágrafos marcados a lápis – o livro pertenceu à minha tia, musicista, que se suicidou. Fico mais entretida em decifrar as passagens marcadas, uma memória quase apagada de alguém que, como Virginia Woolf, como Septimus, um dos personagens do livro, também se matou. A história segue em um fluxo de pensamentos, que tenho dificuldade em acompanhar. Levei tempo para vencer as 258 páginas do livro. Mas isto já é historia para o próximo post. Releio o primeiro parágrafo marcado por minha tia Esther:


“Sentia-se muito jovem; e ao mesmo tempo indizivelmente velha. Passava como uma navalha através de tudo; e ao mesmo tempo, ficava de fora,olhando. Tinha a perpétua sensação, enquanto olhava os carros, de estar fora, longe e sozinha no meio do mar; sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse. “


Não é estranho? O livro já abre com esta visão interna, pessimista e desalentadora –e para quem lê,quase umas profecia auto realizável. Minha tia marcou este trecho, embora só viesse a se suicidar 3 décadas depois. Dizem que, nos sonhos, todos os personagens refletem o próprio sonhador. Talvez, na literatura, também ocorra o mesmo e possamos ver os pensamentos de Virginia Woolf através de seus vários personagens, sendo Septimus o suicida no qual Virginia se transformaria.
O que leva uma pessoa a se suicidar? Não sei, não sei. Tem um estudo muito interessante de Durkhein sobre o suicídio, do ponto de vista social. Ele mostra que as taxas de suicídio permanecem estáveis durante largos períodos de tempo, quase como se fosse uma característica dos agrupamentos humanos. Só que do ponto de vista individual (como ele mesmo coloca) o que isto importa? Taxas, números, explicações? Nada, absolutamente nada. Esta sensação de desconforto, de isolamento, de in-comunicação total parece marcar cada suicídio. Minha mãe comentava que a velhice é uma das fases mais solitárias da vida, de maior angustia. Discordo. Creio que os jovens (e são tão altas as taxas de suicídio entre os jovens!) são os que se sentem mais desalojados do seu tempo, do seu espaço e do seu corpo. Um sentido de impermanência, que Mrs. Dalloway retrata neste período de pós-guerra e esperanças desfeitas. Ethel Scliar Cabral

Mércia, no seu artigo anterior ao meu, comenta Virginia Woolf, ainda tateando em seu inglês erudito, mas sem deixar de enaltecer-lhe o estilo peculiar. Marcado, em Mrs. Halloway, sobretudo pelos pormenores narrativos que dão um caráter de quase conhecimento, por parte dos leitores, em relação aos personagens. Que são sempre muito ricos e praticamente unidos, como em uma simbiose, à cidade de Londres do pós-I Guerra Mundial.
Haveria uma espécie de genética do escritor? Se há, vamos considerar Virginia Woolf como um produto pronto e acabado dela. Afinal, a nossa autora nasceu em Londres, em 1882, e em meio a ambiente letrado. Era a terceira filha do casal Leslie e Julia Stephen (ele, um crítico de literatura e ela, a a herdeira da editora Duckworth). Impossível negar a influência desse ambiente crítico na vida dela. Desde criança, começou a se expressar pela escrita, através de cartas aos pais ou redigindo a sua primeira crítica literária, aos nove anos. Caramba, que precocidade! E foi este o início do caminho de Virginia, que a levou à condição de romancista, crítica literária e ensaísta.
Segundo os estudiosos de sua obra, “Woolf foi a escritora que alterou os rumos da narrativa literária no século XX”. E isso não é pouco. A contribuição que a autora deu para esta forma de arte foi na capacidade que tinha de controlar a escrita, penetrar na psicologia e mente de personagens. Em seus livros, se encontram elementos de escrita séria e momentos em que ela se deixa levar pelo humor. Ao mesmo tempo, ultrapassou barreiras ao se impor o compromisso de fazer experimentos de forma e conteúdo nos seus livros e ao revelar a alma feminina dentro de um campo no qual predominavam pontos de vista masculinos. Isso a fez ser conhecida como uma das primeiras escritoras a abordar temáticas puramente feministas.
Ela integrou o grupo Bloomsbury, com origem em reunião informal entre recém-formados da Universidade de Cambridge (dentre os quais estava Thoby Stephen, seu irmão). Evoluiu até ser efetivamente criado, em 1904, por um grupo de pessoas que formavam uma vanguarda intelectual. Destacavam-se, dentre outros, a pintora Vanessa Bell (irmã de Virginia Woolf), o crítico de arte Clive Bell, o economista John Maynard Keynes, o historiador Lytton Strachey, a poeta Vita Sackville-West e o romancista E. M. Forster. Pessoas que estavam em busca da honestidade intelectual, verdade e um ambiente livre de idéias e costumes. Fugiam de qualquer convenção da sociedade.
Virginia Woolf foi uma escritora tão à frente de seu tempo que, até hoje, aspirantes a autores se reúnem, anualmente, na cidade de Charleston (local que foi a residência da irmã de Virginia, Vanessa Bell), para estudar seus métodos e suas obras. Como um elemento de curiosidade, uma dessas pessoas foi o escritor Michael Cunningham. Com “As Horas”, homenageou a vida e obra de Woolf e fez com que tantas outras pessoas se interessassem por ela.
Infelizmente, suas diversas crises depressivas, dizem a maioria nascidas de desilusões amorosas, a levaram ao suicídio. Isso numa idade na qual as pessoas começam a ingressar na maturidade intelectual. Mas como dizem que os grandes escritores nunca deixam nada a ser dito, a obra dela a completa ou complementa. Semana que vem falo especificamente sobre o livro que estamos lendo e do qual restam para mim poucas páginas a completar.

Mrs Dalloway vai seguindo.. devagar e sempre… juntando a minha falta de tempo com o “ingles requintado” que ja citei aqui… mas tudo bem…

So fui uma vez a Londres… nao tenho a memoria completa de todos os lugares que ela passa, onde vive, apesar de ligar alguns pontos na minha cabeca.
Mas o que me pegou mesmo foi a quantidade de gente em volta… gente vendo coisas, comprando coisas, falando sobre coisas… de repente me deu uma saudade imensa de gente!

Voces acham que estou brincando? Eu aqui no meu interiorzinho no fim do mundo (ou no comeco, dependendo do referencial) nao vejo tanta gente assim… como eu via quando morava no Brasil.
Lembro que quando fui no Rio de Janeiro ano passado e fiquei hospedada em Botafogo na casa de uma amiga, sai pra passear ali na Voluntarios da Patria e o mundo inteiro estava passeando comigo.. barulho de gente, de carros, de vida.

Todo esse barulho eu escutei (e estou escutando) dentro de algumas paginas de Mrs Dalloway… eh gente falando, gente caminhando, carros, paisagens.. tudo tao bem narrado que todos os barulhos que sinto falta por aqui apareceram para mim como se estivesse vendo aquilo tudo… criando um caminho especialmente meu entre os pontos que consigo ligar de Londres.

Virginia Wolf esta me dando essa nostalgia gostosa… ainda nao sei onde ela vai me levar… mas vou me deixando levar e deixando os sentimentos aparecerem… afinal eh isso que buscamos com a boa leitura, nao eh?

P.S.: Desculpem o texto sem acentuacao.

Boa leitura pra voces

Desta vez estou indo devagar, bem devagar, apreciando a leitura feita e, de quebra, anotando algumas idéias postas por Virgínia Wolf no Mrs. Dalloway e em seus personagens, nas falas, nos diálogos ou em suas reflexões. Achei interessante as idéias expressadas e é por isso que as coloco aqui. Acho que servem para refletir o clima do romance, a época em que passa e a crença das pessoas.

Vejamos:

  • De Peter Walsh ao refletir sobre a recusa de Clarissa de desposá-lo: E onde não há nada, o sentimento escava-se oco, completamente oco.
  • De novo, Peter ao observar quem passava na rua: Não era mundana, como Clarissa; nem rica, como Clarissa.
  • De Clarissa, sobre Peter e esposa: Casara com a criada e a levara de visita a Bourton, terrível visita!
  • Sally sobre Hugh: Representava o que de mais detestável da classe média inglesa. Ele não lê nada, não pensa nada, não sente nada.
  • Clarissa: Os deuses nunca perdem ocasião de ferir, contrariar e arruinar as vidas humanas.
  • E sobre Clarissa, que foi “evoluindo para essa religião dos ateus, de fazer o bem pelo próprio bem”.
  • A srta. Kilman sobre Clarissa: Provinha da mais inútil de todas as classes, a dos ricos com um verniz de cultura.
  • Ainda a srta. Kilman sobre Clarissa: Em vez de ficar estirada num sofá, ela deveria estar numa fábrica; ou atrás de um balcão.

São trechos completamente aleatórios mas que, no meu entender, servem para mostrar o espírito crítico do romance, e não só do ponto de vista de Clarrisa, que estava cheia de indagações e interrogações, embora absolutamente apegada às regras da aristocracia e às aparências.

De outro lado, Peter acava funcionando, no meu modo de ver, um pouco como uma consciência crítica. Embora via no meio, não é dele, o que o torna marginal à sociedade e o leva a refletir sobre a futilidade de vários comportamentos.

Quanto à srta. Kilman, o seu ódio pelos aristocratas e a forma como vivem não será, no fundo, um desejo de ser como eles? A crítica devastadora acaba embutindo um desejo, o que a leva a tentar doutrinar a filha de Clarissa para ser diferente.

E vocês, o que acharam do livro até agora? Acho que já disse que não tinha lido, antes, Virginia Wolf. E fiquei surpreso com o tipo de linguagem que adota e a forma encontrada para desenvolver seu rendo, com reflexões que se misturam, saindo do real para o imaginário e voltando a ele, ao mesmo tempo em que traça – pelo menos é o que acho – um perfil cruel da sociedade inglesa do seu tempo.

Creio que o Lino utilizou o termo correto para definir o texto de Virginia Woolf em Mrs. Dalloway: aristocrático. Realmente não se trata de uma história envolvendo a alta aristocracia britânica do início do Século XX, aquela formada pelos lordes, os que tinham acesso à realeza, mas foca a alta burguesia sem títulos honoríficos, a que indiretamente se beneficiava da estrutura de Estado e da economia geradas pela monarquia inglesa, essa que vive até hoje à sombra da Torre de Londres, herdeira de suas histórias, suas tradições.
Os personagens formam um quadro fechado desse universo. Peter Walsh ainda revive o passado no qual sonhou com sua Clarissa, mas a realidade de 1918, às vésperas da festa a ser dada na casa dos Dalloway, é que ele talvez seja obrigado a pedir trabalho justamente ao marido de sua amada. Problema nenhum, já que ele próprio julga “o outro” um pessoa cordata.
À medida em o texto de Woolf avança, seus personagens vão ganhando força. Vão tendo contornos. Parece até possível vê-los em sua roupagem de então, e lá se vão 90 anos, como se por ventura tivessem existido. Mas são personagens de ficção, saídos da criatividade da escritora e nascidos, em parte, de experiências que ela própria viveu em seus primeiros anos.
A literatura tem identidade própria. Carrega dentro de si uma parcela grande da cultura de onde nasceu. Quem não vê, por exemplo, em Sherlock Holmes o típico investigador inglês? Ele parece ter sido retirado por Arthur Conan Doyle do melhor que poderia ter sido gerado nos laboratórios da Scotland Yard. Ele e, claro, seu fiel amigo, Dr. Watson.
Virginia Woolf é um outro lado da literatura britânica. Seu texto não provoca o leitor a descobrir se dessa vez o assassino foi mesmo o mordomo, mas transporta consigo aquela carga de emoção que somente os ótimos romances podem transportar. Isso tudo, é claro, mais uma vez como lembrou Lino, aristocraticamente. E com o que de melhor há no termo.

Se sobre Machado de Assis disse que O Alienista embora fale de uma época tinha problemas que podiam extrapolar o tempo, sendo trazidos para os dias atuais e mantendo a discussão atual, vejo Mrs. Dalloway de uma outra forma. Acho, pelo que li até agora, que Vifgínia Wolf traça, e bem, o retrato de uma época na Inglaterra, o início do século XX, logo após o final da Primeira Guerra Mundial.

Não é exatamente uma visão da nobreza, já que se sentra em pesssoas que não têm títulos nobres, mas que gravitam em torno do poder. São os “comuns”, mas não o povo. São, todos eles, aristocratas, refinados nos costumes, fúteis em alguns casos, capazes de fazer tudo para manter as aparências e trabalhar em conjunto para a preservação de alguns princípios.

Neste universo, as mulheres, mesmo poderosas, ficam em casa. E os homens é que trabalham, mas em um ritmo longe de ser o atual, com tempo para caminhada a pé e almoços e jantares de convivência. Bem diferente dos dias de hoje, quando as mulheres estão totalmente inseridas no mercado de trabalho, inclusive na Inglaterra. Existe ainda, de fato, uma aristocracia, mas ela mais e mais se assemelha ao grosso dos mortais, somente se preservando a diferença da família real.

Mrs. Wolf, na verdade, traça um retrato meio que impiedoso dessa sociedade, que é fútil, que só pensa nela própria, que gira em torno do próprio umbigo e que se excita com a possibilidade da presença da realeza. O povo, o real povo, até agora só frequentou o livro através de alguns lapsos, com a crítica contudente da empregada de Mrs. Dalloway ou a loucura de Septimus.

O livro é surpreendente pela sua linguagem e construção, com as cenas seguindo-se, sem separação, e com uma estrutura de narração diferente, que mistura reflexão e diálogos, mas sem adotar a estrutura dois dois. Não é uma leitura muito fácil, mas à medida que nos acostumamos com ele, vai se tornando prazeiroso, exatamente por nos dar uma boa mostra de como era, se não toda, pelo menos parte da sociedade inglesa.

Virginia Wolff escreveu um romance que vai demonstrando, aos poucos, o quanto o tempo é maleável. A maneira como ela trabalha os detalhes, maneira própria do romance, chama a atenção para dois pontos antagônicos, porém não excludentes, dos pormenores: um deles é o quanto a minúcia nos leva a defrontar com o silêncio do que é descrito; e o segundo ponto é a evidente histeria da mesma microscopia.

Trecho gostoso: “Começaram imediatamente a circular rumores (…) passando invisíveis, inaudíveis, como uma nuvem rápida a velar colinas, tombando efetivamente, com algo da súbita gravidade e do silêncio de uma nuvem, sobre faces que um segundo antes estavam completamente desprevenidas. Mas agora o mistério os havia roçado com a sua asa (…)” (pp. 20-21).

O detalhe parece ser uma das tônicas do grande romance. E, mais ainda, o detalhamento efetivo, aquele que se dá pela via das metáforas mais impressionantes, que encostam a aura no silêncio das coisas. A coisa está sempre ali, página em branco. Pedindo, suplicando, sedutora, um nome. Que a feche, como um rio que congela. Que não permita o deslizamento. E só os grandes escritores escapam do feitiço da definição. Porque percebem que cada nome que vinga é um novo epitáfio. O que os leva sempre de volta ao silêncio…

Por outro lado, o microscópio do romance aponta para outro ponto. Aquele afã bem moderno, de dividir os todos no maior número de partes possível, até esgotá-los na pretensão. É o princípio do discurso, de que fala Foucault: fazer falar, para melhor disciplinar o aleatório. Cada átomo que ganha fronteiras é uma explosão a menos no teatro da linguagem. E é disso que a literatura precisa sempre escapar, sob pena de suicídio: se o aleatório não preenche o silêncio, é o mito linear que dá sua gargalhada…

Se há uma escuta para a boa literatura, essa é a escuta desprevenida. Aquela que vaga na espera da coisa, cheia – ela-escuta – do silêncio dos detalhes que não definem.

O tempo dos detalhes do romance é sempre diferente. As coisas e acontecimentos se apresentam a nossos olhos com o compasso do transitório. Cada pormenor é um rumor que flerta com o silêncio.

E essa ambigüidade, constituinte da história do romance moderno, é um bom quadro da própria angústia humana diante do mistério e de suas asas. As palavras, as coisas e o tempo, quasares da mente, que enviam nada mais que choques. E ficamos, como Mrs. Dalloway, “com a perpétua sensação (…) de estar fora, sozinho e longe no meio do mar” (p. 16).

O relógio freia em cada minúcia que a pena da escritora exercita. E isso assemelha a narrativa ao tempo-como-ele-é, ou seja: curvo. Mais uma vez me lembro de uma brilhante do Quintana: “Essas duas tresloucadas, a Saudade e a Esperança, vivem ambas na casa do presente, quando deviam estar, é lógico, uma na casa do Passado e a outra, na do Futuro. Quanto ao presente – ah! – esse nunca está em casa”.

O detalhe, quando escapa da histeria, é esse sem-teto que nos permite o gozo do imprevisível. Como a memória, que nos prega peças o tempo todo, lá de trás. Por qual passado seremos ultra-passados no próximo flerte?

E o tique-taque do romance continua roçando suas asas em nossas prevenções… Como “um desses espectros com quem lutamos nos pesadelos”…

Marcelo Henrique Marques de Souza

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