Começo meu post sobre Mrs. Dalloway confessando o mesmo pecado dos companheiros que abriram as considerações dessa semana: ainda estou lendo o livro. Precisei comprá-lo em sebo, o exemplar chegou somente agora e irei em frente, com certeza. Tenho a mesma edição do Lino, com tradução de Mário Quintana, o que confere a ela fidelidade de pensamento.
Se vocês tiveram o cuidado de olhar bem a tela ao lado verão, numa imagem de Henri de Toulouse-Lautrec, o que era um inglês nas épocas vitoriana e eduardiana. Essa pintura chama-se “Inglês no Moulin Rouge” e o destaque é a finesse da figura daquele homem no mais mundano templo da diversão francesa de quando viveu Virginia Woolf pouco distante dali. Um inglês tem o porte do lorde, a vocação do lorde, a vontade de ser lorde.
Mrs Dalloway é um romance descritivo. E que desce a minúcias. Somente para não irmos longe demais, pois páginas e mais páginas ainda me esperam, o relato dela sobre a passagem do carro da família real pela Londres de logo depois do término da Guerra – ela se refere à Iª Guerra Mundial, de 1914 a 1918 – retrata com fidelidade como eram o pensamento, o ideário do inglês e a forma de ver a realeza britânica que, sabe-se, talvez tenha mudado muito nos últimos tempos, com a evolução do mundo e a confusão produzida pelo avanço da ciência entre os espaços público e privado.
O texto é elegante e, claro, concatenado. Mércia Silva encontrou dificuldades para entendê-lo na língua original, o que é mais uma prova de que a autora era uma erudita. E esse termo, erudição, não tem aqui nenhum tipo de caráter depreciativo. Muito pelo contrário. Exalta o que de mais precioso têm os grandes escritores. Porque, no caso de Woolf, essa erudição conseguia ser aliada, com técnica perfeita, à clareza e à concatenação das idéias.
Notem que é justamente nesse ponto que a maioria dos autores se perdem: muitos não consegue encadear – concatenar – suas frases, orações, períodos, parágrafos, numa seqüência que se aproxime dos elos de uma só cadeia. Outros dispensam ou são dispensados pela clareza. Outros são pequenos, fúteis, destituídos de arcabouço intelectual capaz de dar substância às obras. Woolf era o inverso disso tudo. Por isso foi uma pena ter morrido tão jovem.
Ainda não havia lido Mrs. Dalloway. Para confessar, dela até hoje só li “Rumo ao Farol”. Mas vou corrigir a falha, sem dúvida, tenham certeza. E sem a menor intenção de terminar esse breve post com humor negro, como diria Jack, o Estripador, “vamos por partes”. Semana que vem tem mais.



7 comments
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Agosto 27, 2008 às 10:13 pm
Lys
Álvaro, a educação inglesa é realmente algo notável. Mas por trás dessa educação toda tem um toque sutil de sarcasmo que geralmente foge aos olhos de quem apenas os vê de longe.
Eu adoro Toulouse-Lautrec. Visitei Albi basicamente porque ele morou nessa cidadezinha ao sul da França antes de se mudar para as badaladas noites parisienses no Moulin Rouge. Mas sabe que tem uma sutileza nesse quadro ? E isso aprendi naqueles audioguiders que a gente aluga nos museus. De fato a primeira coisa que se nota no quadro é a cor cinza do inglês. Por um lado elegante, mas por outro, triste, monótono e chato… perdido no meio do colorido e da alegria parisiense… e acho que foi exatamente isso que Toulouse quis dizer com esse quadro. Ele reflete a real a impressão que os franceses tem dos ingleses. Na verdade, mais do que elegante ele quer dizer que inglês é monótono.
E vamos que vamos que chegamos lá ! Semana que vem tô aqui novamente
Agosto 28, 2008 às 1:50 am
nandodijesus
Pessoal, acho indispensável recomendar o filme adaptado dessa grande obra de Woolf. “Mrs. Dalloway” de Marleen Gorris (que entre outros, fez “A Excêntrica Família de Antônia”), lançado em 1997, foi uma produção dividida entre o Reino Unido, os EUA e a Holanda; encarna a personagem principal a inigualável Vanessa Redgrave! E infelizmente não teve boa circulação por aqui no Brasil. Faz tempo que eu assisti, mas lembro que não decepciona. Comentaram muito na época do lançamento o fato de ter se demorado tanto para surgir uma adaptação desse livro, algo compreensível, pois era um daqueles considerados ‘infilmáveis’. Depois vou revisitá-lo, assim como ao livro, pois também faz alguns anos que eu li. Garanto, o fato de eu já ter lido não me coloca em vantagem… Quem quiser, o filme está disponível pra baixar por aqui: http://www.makingoff.org/forum/index.php?showtopic=7515&hl=dalloway
Até.
Agosto 29, 2008 às 9:09 am
Lys
Ótima dica Nando.
O link não está funcionando. Você pode dar uma conferida por favor ?
Vou ver se acho aqui para alugar, mas primeiro quero ler o livro.
Agosto 29, 2008 às 9:10 am
Lys
Só para constar, o filme “As Horas” também foi baseado nesse livro da Virgínia:
http://www.imdb.com/title/tt0274558/
Agosto 29, 2008 às 5:26 pm
nandodijesus
É, não entendo, realmente o link não está direcionando. Mas é só ir no site http://www.makingoff.org/ e procurar em Cinema Europeu pelo nome do filme ou diretora.
Sobre “As Horas”, um dos filmes mais extraordinários da década, foi defendida ontem aqui na UFPE, uma Tese de Doutorado a respeito dele. Ana Adelaide Peixoto Tavares pesquisou a subjetividade feminina no filme “As Horas”, no livro homônimo (de Michael Cunnigham) e no próprio livro de Virgínia. Dentro de uns 2 meses deve estar disponível no site do departamento http://www.ufpe.br/pgletras/
Aliás, vocês sabiam que “As Horas” era o título que Virgínia tinha em mente para o livro?? Preferindo não confundir os leitores com possíveis objetivos a respeito de tempo e espaço, optou por nomeá-lo com o nome da personagem principal, pois a subjetividade espaço-temporal terminaria por se revelar completamente no interior de Clarissa.
Grande sacada a do Cunningham…
Agosto 29, 2008 às 6:59 pm
Lys
Que interessante Nando ! Eu não sabia que As Horas era o nome que a Virgínia iria dar ao livro. Muito legal saber isso…
Vou tentar achar o filme aqui para alugar.
Quanto a tese, se puder e tiver um tempinho, que tal fazer um resumo para a gente para eu publicar aqui no Clube ? Topas ? Ai podemos colocar um link para a tese dela. Vai ser muito legal !
Lys
Setembro 8, 2008 às 9:00 am
Jorge André
Parabéns pelo vosso surpreendente Clube. Fico tranquilo por se encontrarem ainda Cantinhos tão agradáveis na Internet como o vosso Clube. Em relação à queridíssima Mrs Dalloway, personagem com que me identifico de uma forma significativa, aconselho a que leiam o livro que a retrata. Ou, nosso caso, aconselho a que o releiam e voltem a ler. Eu já li “Mrs Dalloway” e “As Horas” vezes sem conta. E, na realidade, haverá sempre um pequeno pormenor que nos escapou na leitura anterior e que nos elucida mais um pouco acerca da quase não-existência da fantástica Virginia Woolf. Não-existência porque vive no seu mundo. André.