Sempre que se fala em literatura, alguns lembram que ela, em princípio, é universal, já que um autor, embora baseado em um local específico costuma abordar temas que, após transformados em ficção, podem se aplicar a outros lugares e situações. Concordo com esta análise e explico, a partir de O Alienista, de Machado de Assis.
Tomemos a novela e vejamos o seu tema: a discussão do que é ou não normal, sadio ou louco. É, sem dúvida, um tema que pode ser universal, afinal, normalidade e loucura são discutidos todos os dias em todos os cantos do mundo. Também o são a saúde e a doença, sejam elas físicas ou psicológicas, como é o caso do Dr. Bacamarte.
Machado ao desenvolver sua novela baseia-se estritamente no que é brasileiro, em uma realidade que estava próxima dele, que queria criticar abordando em uma novela. E o faz, de forma efetiva, ao relatar não só os desvarios do Dr. Bacamarte como o bom e o mau comportamento dos variados personagens até concluir que todos nós, de certa forma, podemos ser normais e loucos ao mesmo tempo.
O curioso é que o livro reflete o que é nosso e isso nos permite discutir temas a partir dele, como a posição dos políticos, os cuidados com a segurança, o olhar sobre a saúde, os interesses privados se sobrendo ao público. Enfim, todo um universo que, se é brasileiro, também deve ter sua correspondência em outros países, sejam eles do primeiro ou do quarto mundo – se é que isso ainda existe.
O fato é que, do particular, Machado desenvolve em O Alienista uma discussão que pode ser vista como universal, já que não discute os acontecimentos, mas a essência deles, o que os provoca. E a partir deles e do comportamento normal ou exótico dos personagens constrói um universo que torna a novela interessante muitos anos após a sua publicação.
O colorido local, neste caso, dá sabor à novela, mas não é o seu cerne. Funcionaria, de certa forma, como o confeito de um bolo, que lhe dá um charme, um gostinho todo especial. A discussão de fundo, no entanto, não é local, já que fala do comportamento humano, de nossas fraquezas e defeitos. E todos, sem nenhum dúvida, são universais
Vamos esperar que Virginia Wolf nos traga, também, essa possibilidade de ver o mundo e seus problemas com olhos particulares, mas que miram no geral e extrapolam do que é pitoresco para a alma humana, oferecendo-nos relances dela e permitindo que, ao final, reflitamos sobre o que somos e como nos comportamos.



3 comments
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Agosto 18, 2008 às 11:17 am
Lys
Ler O Alienista me deixou com saudade do Brasil por esse colorido que voce fala, mas ele eh sem duvida um livro universal, apesar de baseado em nosso local e em nossa cultura.
Isso que voce propos eh um exercicio realmenet interessante. Vamos ver se conseguimos nos identificar com o dia de Clarissa assim como nos identificamos com as loucuras no ponto de vista do Dr. Bacamarte. Talvez seja possivel entender o quanto a barreira cultural eh importante para o entendimento de uma obra ne nao ?
beijos e tenha uma otima semana !
Lys
Agosto 23, 2008 às 4:08 pm
Marcelo
Olhos particulares, que miram o universal, com a pitada de mestria dos grandes, é exatamente o que faz a grande literatura..
Concordo plenamente contigo.
Dezembro 9, 2008 às 6:29 pm
Maria da paz de Freitas e sousa
O alienista é abstração da anormalidade.O tema levado em Bacamarte segue a linha do poetico na ficção e seu jogo de poder esta presente na religiao,senso comum e meio cientifico.