E como se trata de gostos, cada um tem o seu. Então, a Dani pode amar a Anne Rice – o que é muito natural – e eu não gostar. E, neste caso, não gostar não se prende ao tipo de livro, em si, ou ao fato de ser um best-seller, livros que são “fabricados” para o sucesso.
Não tenho preconceito contra eles, não. E para comprovar, vou listar alguns autores que li e que gosto: Michael Crichton – que não é nenhuma maravilha no texto -, Robert Ludlum, o do Bourne, Frederick Forsyth, que tem um livro antológico, O Chacal, John Le Carré, o elegante inglês que cunhou o termo Guerra Fria, Noah Gordon e O Físico, Jack Higgins, com divertidas aventuras – inverossimeis, sim, como Azriel -, e por fim o polêmico Dan Brown com o seu Código Da Vinci. De qualquer forma, acho que eles escrevem melhor do que a Anne Rice.
Olhando-se a questão do lado da literatura, o livro de Anne Rice nãp e diferente de muitos outros, mas vende, e vende muito. E se isso ocorre é porque tem público, gente que gosta, e que se envolve com a história contada. Neste caso, entendo que os livros não são feitos para reflexão, mas para diversão. E se conseguem este intento, então sua leitura é válida.
Podemos criticar o livro, deixando claro que não gostamos, aliás, o que já fiz. Isso, no entanto, não desmerece sua indicação e sua esclha. Ao listar os livros, a Dani colocou a responsabilidade pela escolha nos integrantes do clube. E fomos nós que escolhemos O Servo dos Ossos. Havia, acho eu, uma expectativa diferente
Um dos aspectos, que já ressaltei, é o conflito entre ciência e religião. Mas há, também, um outro aspecto a se considerar, que é a própria religião. Nós, humanos, sempre buscamos uma explicação. E quando não a achamos colocamô-la nas mãos de uma entidade superior, dizendo que ela rege nossas vidas. Foi assim desde que descemos das árvores e não é diferente agora.
Ao longo dos tempos, os deuses foram se transformando em deuses pessoais, como Marduc, e nós os encarregamos de resolver nossos problemas, pelo menos aqueles que, por meios humanos, não conseguimos resolver. Neste diapasão, nada melhor do que um espírito poderoso ao nosso serviço. Comandando-o, seremos capazes de resolver as coisas que, de outra forma, não conseguriíamos, seja pela impossibilidade física, seja pelo constrangimeno ético e moral.
Acho que o que atrai no livro é exatamente esse envolvimento com o misterioso, com o sobrenatural, com a possibilidade de, ao invés de se curvar ao divino, colocá-lo ao seu serviço. Se não diretamente com Marduc, pelo menos com um espírito que, nascido com uma intenção malévola, não é nem moral, nem ético, já que realiza ações que, por estas óticas, são condenáveis, mas atende aos humanos, permitindo-lhes que tenham – pelo menos de forma aparente – um controle maior do sobrenatural.
A lição, no meu entender, é bastante clara: impotentes diante do mundo, recorremos ao alto, vendo nos deuses a solução dos nossos problemas. E por os termos tornado pessoais, queremos que eles resolvam questões específicas. E não importa, no final, se são verdadeiramente deuses ou espíritos, desde que estejam a nosso serviço.




7 comments
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Julho 7, 2008 às 11:44 am
Lys
Lino, muito legal seu post ! Essa historia de usar o santo para se beneficiar chega ate a ser engracada. No Brasil mesmo temos varias historias classicas sobre o beneficio de castigar o santo e um dos que mais sofrem eh o pobre do Santo Antonio
que vive amarrado, de cabeca para baixo, dentro da agua… ja ouvi de tudo. E ai do pobre falhar na realizacao dos desejos. Outro bem popular eh o Sao Longuinho. Esse ultimo trabalha viu ?
Eh ! As coisas nao mudaram muito desde a epoca em que Azriel comecou sua historia
beijos e tenha uma otima semana !
Lys
Julho 7, 2008 às 11:52 am
Mercia
Lino,
eu vou muito mais sobre assunto que tenho afinidades do que fama do autor ou do livro em si…
as vezes me surpreendo, as vezes me decepciono… mas é assim com qualquer coisa na vida, não é???
muito legal seu texto… também gostei de ler o livro… acho que cada coisa que você lê e discute, ajuda a abrir um pouco mais os seus horizontes… e isso não tem preço.
beijos
Julho 7, 2008 às 12:03 pm
Lys
Mercia, esse seu comentario me fez lembrar algo que a Ethel disse um dia aqui no Clube do Livro, acho que foi sobre o livro As Avos. Ela disse que quando um autor publica um
(disso a Ethel e o Marcelo me convenceram apenas essa semana aqui no clube) e colocando em termos da fisica, assim como a energia, nada se perde e tudo se transforma.
livro e o lanca ao mundo, o livro toma vida propria. A partir dai podemos transforma-lo completamente apenas dando asas a nossa imaginacao ! Achei muito sabia as palavras de nossa amiga e devo confessar que depois que as escutei, isso ajudou e muito a abrir minha mente para coisas novas. Nesse ponto de vista, nenhuma leitura se desqualifica, nem mesmo uma simples etiqueta de toalha
Julho 9, 2008 às 8:56 pm
Dani
Excelete post Lino!!! Realmente tentamos entregar a outros aquilo q nos sentimos impotentes para realizar e dai sugem mil santos, pessoais e coletivos!! Eu mesma usei o Sto Antonio, larguei o pobre de cabeça pra baixo dentro da gaveta ate arranjar um namorado!!! Deu tao certo q virou marido!!! rs
Quanto ao livro concordo com algumas das criticas feitas essa semana mas tb concordo q ler eh sempre bom, mesmo q seja algo q nao os agrade tanto!! Pelo mens foi assim qdo li Desonrada… um livro q nao gostei mas q rendeu excelentes discussoes por aqui!! Isso so me faz ver q
Julho 9, 2008 às 8:56 pm
Dani
… continuando…
so me faz ver o quanto nosso clube vale a pena!!!
Beijos, Dani
Julho 11, 2008 às 2:46 am
Os afrodisíacos: terror e riqueza « Clube do Livro
[...] riqueza – sim, riqueza no sentido literal – com ajuda do Além. Está muito bem colocado pelo Lino: já que não se consegue por bem resolver os problemas, então que seja por mal… Enfim: se a [...]
Julho 13, 2008 às 8:30 pm
Nem sempre uma mudança vem para melhor. « Clube do Livro
[...] também, como foi bem colocado pelo Lino, que a Anne poderia de fato ter feito uma pesquisa histórica um pouco mais profunda para não [...]