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O livro de Anne Rice e os últimos textos do Clube    fizeram-me pensar sobre a questão dos Best-Sellers. Quem visita o Im-postura percebe que é um dos meus assuntos preferidos, tanto no pensamento cotidiano, quanto no trabalho, porque dou aula de literatura e cursos na área de produção de texto e arte literária. E o Servo dos Ossos se enquadra nesta classificação, bem como sua autora.

Há, então, dois pontos de análise que me acometem neste momento: primeiro, qual seria exatamente a diferença entre o livro-arte e a literatura de best-seller? E segundo, de que maneira(s) essa diferença pode ser pensada em relação ao leitor?

O pensador alemão Walter Benjamin chama a atenção, em um grande texto seu, chamado A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica, para o problema do fim da autenticidade como valor da obra. Ele propõe um conceito, que chama de aura, que seria um momento de singularidade da obra de arte, entretanto perdido no exato momento em que a mesma se transforma em mera reprodução técnica.

Para resumir o problema, Benjamin coloca que as massas tendem a buscar uma “posse” dos objetos. Isso, para o capitalismo, é lido como uma oportunidade: a de produzir textos que façam referência incessante ao sujeito-leitor em suas demandas, visando única e exclusivamente o lucro. Essa demanda vem tanto pela tendência que temos de dar prazer ao ego, quanto, principalmente, por uma necessidade que sentimos de sentir reconhecimento no grupo do qual participamos. Ou seja, se muita gente lê uma obra, falar dela significa ser reconhecido.

Isso traz dois problemas, na minha leitura: a obra perde seu caráter crítico, por conta de que não produz deslocamento de idéias no sujeito-leitor. Pelo contrário, o ego do mesmo é afagado incessantemente pelo best-seller (inclusive por isso Benjamin chama a atenção para a atual importância da estatística), o que não gera reflexão, mas repetição de idéias, pelo mecanismo sutil da repetibilidade.

E o segundo problema é político. A literatura comum é fruto da volta da política, pós-Idade Média, e é política por essência, porque é a fala de um sujeito no âmbito coletivo da produção literária. Ora, a participação política pressupõe a enunciação de diferenças, sob pena de totalitarismo semântico (a repetição das mesmas idéias) em caso contrário. Além disso, a literatura é um discurso-outro, porque construído na história, para-além-sujeitos. Se centramos a produção literária no sujeito-leitor, a crítica e a aura se perdem, e o que sobra é um texto transitório e repetitivo.

Há, contudo, um senão a ser feito. Apropriar-se criticamente de um enredo, mesmo que ele seja best-seller, é fruto sempre da maneira como o sujeito-leitor condiciona sua leitura. Se o ego se infiltra na retina, o texto não vai produzir reflexão. Cabe, então, fazer sempre o que temos de subterrâneo emergir no ato de ler. Cada leitura pode ser um soprar de poeira em nossos olhos inevitavelmente modernos, ou seja, olhos aliciados pela tentação das estatísticas.

Marcelo Henrique Marques de Souza

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