Fiquei aterrorizada com a escolha do tema deste mês. Sabem, corajoso não é aquele que não tem medo – mas sim quem tem medo e os enfrenta! Então vesti minha máscara de corajosa e lá me foi a mergulhar no Servo dos Ossos. O medo, aos poucos, se desfez. Porque o terror de que trata o livro, é o terror da própria morte e esta, quanto mais se aproxima, mais nos afaga.

Medo ancestral

Verdade que o medo da morte é um dos mais antigos na história da humanidade. Se não fosse ele, não estaríamos aqui! É o medo da morte que nos faz correr do perigo, que nos impede de nos aproximarmos de bichos peçonhentos e venenosos (tem quem goste!), que evita que a gente se queime no fogo e impulsiona a procriação – forma indireta de continuar vivo nesta Terra que ninguém quer largar. Mas embora exista este medo da morte em cada célula de nosso corpo, ao mesmo tempo ela atrai. Queremos dominar o desconhecido, não conseguimos enfrentar uma situação que foge ao nosso controle. E quer situação que mais escapa das mãos do que a própria vida e morte?

Um jogo duplo

O Servo dos Ossos dribla a própria morte e fica vagando neste mundo intermediário dos mortos-vivos. Conde Fosca, o personagem do livro de Simone de Beauvoir, também escapa da morte que espreita a todos nós. Mas existem outros personagens que também fazem o jogo de esconde-esconde com a morte: os vampiros, o Highlanders – o filme, que é bom, a série ficou muito chata. Para mim, um único problema: em todos eles, o “prêmio” é a morte. Ou seja, pediram porque pediram para ficar vivos, depois se arrependem… O Servo dos Ossos não é exceção. Ah, vão catar coquinho! Eu quero mais é ficar viva.

Vantagens da longa vida

Uma vez, discutindo as vantagens de uma vida assim, de matusalém (que viveu 900 anos e uns quebradinhos, os quebradinhos a gente deixa pra lá), meu irmão comentou: -Ia ser o fim das guerras e da violência!
Como assim? Claro, se a pessoa soubesse que ia viver uma eternidade, que só morreria por acidentes de morte matada, quem se arriscaria a ir defender “pátria”, “honra” e outras coisas que no frigir dos ovos não valem absolutamente nada? Pois gostei da idéia, mas infelizmente, ainda vivemos bem menos – e não sabemos o que se esconde atrás de cada esquina.

O inexplicável

Vale lembrar que tem quem adore o gênero (maioria aqui no Clube do Livro) e eu fiquei me perguntando o por quê. Acho que tem a questão de transferir para o imaginário estes medos que nos assombram, é uma válvula de escape. E como eu disse lá em cima, o medo anda de mãos dadas com a sobrevivência da espécie e com a sexualidade. É fato. Nove meses depois de um grande desastre natural (terremoto, furacão e outros terrores naturais) o numero de nascimentos vai lá para as alturas. É que a adrenalina que mobiliza a fuga pelo medo estimula também a sexualidade. Não acreditam? Pois tem uma pesquisa que fizeram para ver quem ia mais para o motel de pois de ver um filme: se o grupo dos que assistiam um filme romântico ou o grupo dos que assistiam filme de terror. Nem preciso contar o resultado. Aliás, do meio para o final tem umas cenas bem “calientes” no livro. É. Pensando bem, acho que vou rever minhas preferências de estilo literário. Ethel SC