Um dos aspectos intrigantes quando nos debruçamos sobre livros históricos, que utilizam ou não da estratégia ficcional, é conseguir separar o que é “fato” daquilo que é “imaginário”. Isto tem sido bastante discutido aqui. Mas o que tal debate revela? Que acreditamos existir uma verdade absoluta – uma verdade verdadeira (dá para falar assim?) e uma verdade falsa, como uma semi-jóia… Vale ou não vale? A discussão extrapola o campo histórico, chega na ciência, para não falar no área forense e nas informações que inundam a Internet e a imprensa. Tem até um livro muito bacana, chamado “E se…”, em que especialistas de diferentes áreas fazem um exercício de criatividade sobre o que aconteceria se o final de alguns acontecimentos fosse diferente. Por exemplo: se Hitler ganhasse a 2a. Guerra, ou se Napoleão não tivesse perdido a batalha de Waterloo. O interessante é que a reconstrução não é feita ao acaso, mas sim em base de probabilidades – ou seja, com derivações de fatos possíveis.

O distanciamento

Sempre que me deparo com notícias extravagantes, me pergunto: mas a quem isto interessa? Embora os jornalistas insistam em dizer que buscam ser isentos e outras pessoas clamem que a fotografia é uma prova de fato, bem sabemos que é uma história da carochinha. Não precisa nem pensar na manipulação feita pelo Photoshop, retocando imagens -processo, aliás, que já existia bem antes da era dos computadores: “apagavam-se” pessoas – literalmente e também sumindo com elas dos documentos…. O próprio enquadramento escolhido já traz uma intenção do fotógrafo. No mar de informações, selecionar esta ou aquela notícia é um ato ideológico, porque os critérios são sempre construídos, não são naturais.

Até tu, ciência!

Alguns querem se refugiar na Ciência, como se ela fosse sobre-humana. Basta lembrar que,  para comprovar suas teorias, muitos cientistas alteram números, experiências e “retocam” achados. Falsos vestígios arqueológicos foram remontados e, para ficar em notícias bem recentes, o escândalo das pesquisas do sul-coreano Woo-Suk Hwang com as células-troncos. No caso de condenações, a reabertura de muitos casos, com o uso de exames de DNA, comprovou que vários condenados eram inocentes – mesmo que as testemunhas jurassem que tinham VISTO tudo.  Tem também as “memórias reconstruídas” – a pessoa tanto ouve, tanto vê alguma foto, que acaba jurando de pés juntinhos que aquilo aconteceu com ela. Pois é. O tal ver para crer não vale nada. E lá vamos nós, acreditando piamente em tudo…

As muitas versões

José Roberto Torero apropria-se desta vertente, para explorar a história escondida. Antes dele, porém, o próprio personagem – o Chalaça – já se reinventava. Um personagem e tanto – de condenado a morte, a homem rico e de sucesso. Ele deveria ser padre, estudava em um seminário em Santarém (Portugal). Brigou com o Reitor, brigou com os professores (ai, ai, ai, estes jovens geniais e seus hormônios!) e, com 16 anos, resolveu engajar-se na comitiva de D. João, que vinha fugindo para o Brasil.  Mas… antes de chegar em Lisboa, foi preso pelos franceses e condenado como espião. Uma fuga espetacular, o embarque para o Brasil, a amizade com D. Pedro. O livro de Torero.

Esperteza e inteligência

De bobo, o Chalaça não tinha nada. Francisco Gomes da Silva, seu nome verdadeiro, era culto, falava várias línguas, graças ao estudo no seminário. Conseguia dar a volta por cima – pois chegou a ser expulso da Corte, por D. João, o pai de Pedrinho (afinal, vamos ser íntimos – a regência já acabou e, quem sabe, não temos todos um pouco de sangue azul?). O Chalaça adorava plantar falsas notícias, espalhar boatos e intrigas. Pagava os jornais para publicarem sobre seus desafetos. Já dá para perceber que pesquisar em jornais tem disto… Voltou, retomou a amizade com D. Pedro, maquinou, “enricou” e virou escritor, quando novamente seguiu para a Europa. Suas últimas palavras? “Amei demais as mulheres e o dinheiro…” E virou personagem principal do livro de Torero, que eu, ainda no Canadá, começo a ler na semana que vem, no meu retorno ao Brasil! Será? Verdade? Mentira? Eu juro que sim. O que você acha?