Gostei da idéia da trilogia, que a Lys vai fazer. Bem, a minha trilogia aborda três formas de preconceito que perpassam o conto: questão de idade (falei no meu ultimo post sobre isto); questão de gênero e questão de incesto. Hoje, vou falar sobre o incesto.
“I have everything, she decided. But then, a voice from her depths – I have nothing.”
Doris Lessing, As avós.
O incesto é um tabu fortemente estabelecido em nossa cultura. Aparentemente, acreditamos que é um tabu “natural”, ou seja, que todas as culturas através dos tempos, apresentam este mesmo tabu. A explicação “cientifica” para tanto é que a preservação da espécie fala mais alto – e relações entre parentes consangüíneos apresentam maior possibilidade de gerarem filhos com problemas genéticos.
Vários graus de incesto
No entanto, existem uma larga variedade de relações sob a denominação “incesto”. Pais com filhas. Irmãos com irmãs. Tios com sobrinhas. Primos com primas – e vice versa, ou do mesmo gênero. Os dois últimos casos (sobrinhos, primos), por apresentarem um distanciamento genético maior suscitam também maior discussão, dentro da regra acima falada (geração de filhos saudáveis). É interessante destacar que tal postura reafirma que as relações de amor e sexo devem ter um só objetivo: a procriação. Aliás, esta fato também é reforçado no conto, quando as duas amigas conversam sobre o futuro de seus filhos – precisam se casar, ter seus próprios filhos, enfim, devem se “enquadrar” no modelo familiar tradicional. A noção de família com o objetivo de procriação vem sendo profundamente questionada desde o advento da pílula anticoncepcional – e hoje o debate ganha força renovada com a questão do aborto e dos movimentos pró-vida. Denise discute este assunto em seu blog, ao comentar o filme Juno.
Estranhamento
O incesto ganhou status suficiente para ser analisado e discutido em nossa sociedade a partir de Freud, que disseminou o conceito do Complexo de Édipo. Édipo, cheio de culpa, que assassina o pai, que se casa com a própria mãe, que arranca seus olhos… Existe uma análise, de Foucault, sobre o mito do Édipo, em que ele mostra como, dentro da peça teatral de Sófocles, Édipo Rei, se percebe a construção das várias formas de culpa/castigo e justiça que o ser humano desenvolveu através dos tempos. Bom, mas isto já é outro tema. Voltemos ao incesto. No livro, este incesto transparece pela relação não consangüínea, mas sim, desenvolvida durante o crescimento dos dois meninos. Algo similar com a adoção que, hoje, também é tão debatida. O sentimento de maternidade / paternidade é instintivo ou construído? Os defensores da adoção e das novas estruturas familiares defendem que ele é construído. A cultura popular defende o contrario – daí a quantidade de “madrastas do mal” que povoam as histórias e contos infantis. Que tal examinar dois exemplos nos dias de hoje para conferir como as pessoas reagem quando as histórias saem da ficção para a realidade?
Incesto consangüíneo: o caso de John e Jenny.
É claro que os casos de incestos raramente vêm a público, mas psicólogos acreditam que são mais comuns do que usualmente se pensa. Um dos que geraram controvérsia foi o do casal australiano, John,61, e Jenny Deaves, 39. Eles se reencontraram após trinta anos e se envolveram sexual e afetivamente. Tiveram dois filhos. O primeiro, morreu com 4 dias. O Segundo bebe, que tem 9 meses, vai bem, obrigada. O pai alega que a morte do primeiro bebê não tem nada a ver com o fato de serem parentes. Afinal, diz ele, morrem centenas de bebes todos os anos com o mesmo problema, e ninguém alega que a culpa é dos pais.. Continua ele: -A sociedade se incomoda com este fato. Nós não! Estamos felizes, não fazemos mal a ninguém.
Mesmo assim, o justiça interveio no caso, e sentenciou o casal a três anos de prisão. Atualmente, eles são monitorados e proibidos de manterem relações sexuais (o que no Brasil se chama casamento com separação de corpos). Agora, uma perguntinha: proibido de terem relações sexuais? Por que? Para saber mais sobre o caso, ele está na mídia.
Incesto não parental: o caso Woody Allen
Em 1992, Mia Farrow, então esposa de Woody Allen, descobriu que ele a filha adotiva do casal, Soon-Yi, estavam tendo um caso. A repercussão foi enorme, incluindo a questão do incesto e da diferença de idade (Allen é 35 anos mais velho que Soon-Yi). O casal se separou e Woody Allen finalmente se casou com a filha adotiva em 1997. Adotaram duas crianças. Durante todo o processo, Mia alegou que Woody Allen havia molestado as crianças, proibiu a visitação aos outros filhos do casal e colocou lenha na fogueira. O cineasta foi praticamente execrado nos EUA e colocado – não vou dizer na geladeira! – foi no freezer mesmo. A relação já dura 16 anos e Allen conseguiu cativar novamente o público Americano.
São muitas as perguntas em torno destes assuntos. Uma, que me intriga, é a interferência do estado nos assuntos familiares. As vezes, parece nítido e claro que esta interferência deve existir – a obrigatoriedade da vacinação está aí para comprovar isto. Outras, nem tanto. Como delimitar o campo de atuação? Quais os critérios que devem ser utilizados? O que deve ser considerado aceitável – e por que? Afinal, os escravocratas tinham fortes argumentos para considerar “normal” a exploração dos negros! Hoje, sabemos que era uma questão econômica. E no caso do incesto, consangüíneo ou não? Como delimitar a aceitação? No livro, parece fácil aceitar. Na vida dos outros, também – afinal, quem deve se meter onde não é chamado? Mas… Mães e pais de plantão: como vocês reagiriam com seus próprios filhos casando com seus parceiros? Ou seus filhos casando entre si? Ethel Scliar



5 comments
Comments feed for this article
Abril 23, 2008 às 4:55 pm
Lys
Scliar, excelente seu texto. Eh complicada essa situacao. Eu mesmo fico meio que dividida sem saber o que dizer pois nao tenho uma opiniao 100% formada como voce vai ler em meu post, que tambem ira falar sobre o incesto.
A sociedade eh cheia de regras e imposicoes que valem para um media (a maioria) e por conta disso, esmaga cruelmente qualquer relacao que nao se enquadra a essas regras.
Acho que com o tempo vamos evoluindo e esses padroes vao mudando, por isso hoje em dia eh possivel discutir sobre aborto como foi tratado no filme Juno (que eh muito bom, mas o link nao esta funcionando entao nao consegui ler o blog). Talvez, assim como mudamos esse comportamento medio definido pela maioria na sociedade em alguns casos, como voce citou bem a exploracao dos negros, algum dia novos conceitos vistos como normais hoje em dia, sera de fato ultrapassado em alguns anos.
Enfim, eu sou uma otimista e acredito na evolucao humana. Sei que vamos a passos de tartaruga mas sinto o movimento para a frente e avante. No entanto, na questao do incesto fica dificil tomar partido pois ainda eh muito tabu e pouco se fala, pouco se expoe, portanto, pouco de entende. Estamos longe de entender esse caso.
Mas assim caminha a humanidade. Nao eh mesmo ?
bjs
Lys
Abril 23, 2008 às 10:04 pm
scliar
Nao sei porque o link estava dando erro. Mas já arrumei! Vale a pena ler – a opinião dela é diferente da Lys! Estou super curiosa para ler o post da Lys, pois se incesto é tabu, falar nele parece mais ainda. Bzus para todos! Ethel
Abril 24, 2008 às 12:49 am
Dani
Scliar, adorei o post!! Como sempre mto bem escrito e cheio de coisas interessantes!!
Ha um tempo eu li uma noticia de dois irmaos q tinham se casado (acho q na Alemanha) e ja tinham uns 4 filhos… o governo queria prende-los, tirar as crianças deles e mais um monte!!! Mas como a Lys eu tb nao tenho mto uma opiniao formada sobre o assunto!!
Como vc disse eh mais facil qdo eh com pessoas q nao conhecemos… mas imagino se fosse entre meus irmaos, ou da minha irma com meu padrasto… eu com certeza nao aceitaria mto bem!!!
Mas tb nao sei se eh papel do governo se meter e decidir quem pode ficar com quem!!! Exceto qdo se trata de menores ou pessoas incapacitadas!!!
Enfim, acho q minha opiniao mudaria dependendo de cada caso!!!
Beijos, Dani
Abril 24, 2008 às 10:44 am
Lys
Oi Scliar, li o post da Denise e eh muito legal sim. Ela descreve o filme de forma bastante critica e interessante. Concordo com ela na maioria das coisas, mas de qualquer forma achei o filme legal e divertido.
Discordo sim de toda a babaquice pro-vida e achei cruel o negocio das “unhas” que tem no filme. Em outras palavras, tem varias coisas ruins mas isso nao desqualifica-o. Foi cruel ele ter sido colocado justo em uma epoca aonde a questao do aborto estava em pauta e em votacao. Fez o tipo bonitinho mas ordinario. Por outro lado, acho ineteressante ver todos os lados da moeda e prefiro compreender todos os pontos de vista ao invez de me colocar 100% a favor de um lado e negar o outro. Sabemos que no fundo, todo mundo tem uma razao pessoal e intransferivel para suas atitudes que devem ser respeitadas. Acho que eh hora entao de fazer um filme pro-aborto ! O que voce acha ? Seria fantastico !
Note que isso nao eh estar em cima do muro. Os dois lados tem coisas boas e ruins. Acho que de fato cada um tem o direito de escolher o que eh melhor para cada um. Eu, no caso da Juno escolheria aborto sem pensar duas vezes, mas ela escolheu a adocao. OK tambem. Cada um sabe aonde seu calo aperta.
Sem duvida a Denise esta certa nas criticas que fez e eu concordo com ela. Apenas acho que o filme nao tem APENAS coisas ruins. A adocao tambem eh algo legal. Ser pro-vida tambem nao eh 100% condenavel. Assim como o aborto tambem nao eh a opcao perfeita sempre. Como voce mesmo disse, uma coisa intrigante eh a interferencia do estado nos assuntos familiares. Nesse caso, qualquer extremo cai na mesma panela nao eh mesmo ?
Acho que cabe a cada um decidir o que fazer com seu proprio filho nao eh mesmo ?
E com o incesto deve ser algo parecido, mas ainda nao chegamos la.
De qualquer forma, continuo achando o filme Juno divertido e bem legal. Feito em um momento infeliz ? Sem duvida ! Mas o tempo todo somos manipulados pela midia nao eh mesmo ? Qual a diferenca agora ? Nada de novo. Tudo como sempre.
Acho que criticar eh legal sim e importantissimo, muito legal o que a Denise fez. No entanto nao podemos desqualificar nunca e eu nao gosto de rotular as coisas. Acho chato essas coisa de colocar rotulos. Existe uma infinidade de opcoes entre ser pro-aborto ou pro-vida. Uma mesma pessoa pode optar pelos dois lados dependendo da situacao. A complexidade eh infinita e acima de tudo, o individuo deve ser respeitado.
Lys
Abril 24, 2008 às 10:58 am
Lys
Alias, aproveito para colocar uma coisa que tenho dificuldade de entender… porque colocar pro-vida e pro-aborto como opostos ? O oposto de pro-vida eh pro-morte nao eh ? Talvez meus neuronios formatados para a ciencia exata seja incapaz de entender essas sutilezas, mas acho que ser pro-aborto esta longe de ser o extremos oposto de pro-vida.
Sempre fico confusa com esses rotulos. Ta vendo ? Acho que eh por isso que nao gosto
beijos
Lys