“Ler pelo prazer de ler”. A proposta que levou à escolha de As Avós como um dos livros deste clube está se cumprindo integralmente. E isso se dá porque e em primeiro lugar, o livro é uma delícia, envolvente, charmoso e que nos proporciona, de fato, o prazer da leitura.
Mas o que provoca este deleite? No meu entender, ele se prende à linguagem usada, que é refinada, e construída de forma a oferecer o envolvimento do leitor, mas a beleza das construções, com excelentes figuras de imagens que acabam nos transportando para o ambiente em que a história se situa, um local próximo da praia, casas próximas, ligação de amizade extremada, exclusão de quem não participa do círculo íntimo, etc.
Em relação à edição brasileira, que li, considero que a tradução foi excelente, já que conseguiu manter o clima do livro. Esta, infelizmente, não é a regra no caso do Brasil. Em muitas obras expressões idiomáticas, por exemplo, são traduziadas ao pé da letra, fazendo com que perca o seu sentido original. Não foi o que aconteceu com As Avós. E isso contribuiu para manter o clima do livro, torná-lo envolvendo e, realmente, transformar a leitura em um prazer.
No final, a história é a celebração da amizada, mas uma amizade tão profunda que, poderíamos dizer, se transforma em dependência mútua, é excludente, constrói um muro em volta e exclui o mundo. Não é, se olharmos bem, um ambiente saudável. O dr. Sigmund na certa acharia isso meio estranho e teria, não tenho dúvida, uma teoria para a classificar.
Acho que esta situação fica bem evidente quando Harold, diante do convite para lecionar em uma outra ciadade, anuncia sua intenção de mudar, estabelecendo-se um diálogo sobre o relacionamento dele e de Roz, para concluir: (…)mas não é comigo que você tem uma relação?”. Logo depois, Roz conta a Lil o que aconteceu e esta fica surpresa, afirmando que Harold foi quem se excluiu.
O que acontece, no final, todos nós sabemos: o envolvimento com os filhos – uma da outra – e a descoberta pelas mulheres dos filhos. Com isso, e com a promessa de que nunca mais verão as netas, quebra-se o muro, abre-se nele uma brecha. Mas permanece a ligação Lil Roz e delas com os filhos, ligados não só pela maternidade, mas, como já disse, por um tipo de relação quase incestuosa.



9 comments
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Abril 14, 2008 às 12:43 pm
Lys
A traducao eh de fato importantissima ne nao Lino ? Muitas vezes toda a beleza do livro se perde nesse ponto, o que eh uma pena pois eh muito mais agradavel e efetivo para nos lermos um livro em nossa propria lingua. Eu estou lendo o livro no original, como foi escrito pela Doris. Estou feliz por isso, mas ao mesmo tempo estou mais feliz ainda por saber que o proximo livro do nosso clube sera sorteado enquanto eu estiver no Brasil e isso possibilitara a compra em portugues.
O fato eh que perde-se em uma traducao sem duvida, mas perde-se tambem no entendimento quando lemos um livro em uma segunda lingua. Por mais que sejamos fluentes, eh dificil para nos tambem entender as entrelinhas que envolvem outra cultura. No caso da Inglaterra sem duvida nao eh tao diferente como era no caso do livro anterior, mas temos conceitos diferentes sim para uma serie de coisas. Achamos graca em coisas que para eles nao faz o maior sentido, e as vezes, coisas que para eles eh serio ou engracado para nos nao faz o menor sentido. Acho que ai nao tem so a barreira da lingua, mas tambem a barreira cultural. Acredito que para ser um bom tradutor eh preciso vencer essa barreira tambem.
Por exemplo, depois desses meus 2 anos na Inglaterra, agora sim consigo entender o porque de uma frase ou outra sempre dita por todos. Agora algumas coisas fazem muito mais sentido para mim do que fazia antes. No entanto, as vezes quando estou lendo um livro um pouco mais complexo eh dificil entender uma entrelinha ou outra.
Por isso, no final, acho que as versoes traduzidas quando bem feitas, sao muito mais efetivas em termos de compreensao do que a versao original.
Em resumo, concordo completamente com voce. Eh uma delicia quando encontramos um livro bem traduzido !
beijos,
Lys
Abril 14, 2008 às 12:51 pm
Kenia
Sem dúvida, a linguagem do livro é envolvente, prende o leitor tanto pela narrativa ágil quanto pela proximidade que estabelece.
Mas eu não diria que é uma linguaguem refinada no sentido de construção de imagens ou mesmo de sintaxe, a despeito de também ter lido a versão em português.
Na minha opinião, o grande mérito da linguagem nesse obra é justamente a simplicidade, o pouco rebuscamento que faz com que a ligação entre leitor e obra se dê de uma maneira deliberadamente familiar: a impressão que fica é a de alguém, uma velha amiga, por exemplo, contando-nos uma história aparentemente prosaica, mas, no fundo impactante.
E eu não creio que esse simplicidade seja gratuita: ela é um recurso estilístico que visa à criar justamente empatia para depois acrescentar a quebra de juízos de valor: o leitor tende a relaxar seus preconceitos em razão da simpatia pelas personagens.
Beijos.
Abril 14, 2008 às 10:51 pm
danipontes
Gente, eu tb achei o livro uma delicia de ler!! Como ja disse me apaixonei pela familia, pelos personagens de uma forma q so um livro bem escrito pode fazer!! E concordo com a Kenia… a linguagem utilizada eh bem simples, de proposito pra q a gente se aproxime do personagem, se sinta meio q amigo ouvindo um causo!! Mas acho q isso nao deixa de ser uma coisa refinada pq nao deve ser facil escrever de forma simples sem ser simplorio!!!
Beijos
Abril 14, 2008 às 11:31 pm
Lino
Lys, Kenia e Dani:
Lys, realmente, ler na nossa própria língua é bem melhor, mas as vezes o original traz detalhes que se perdem na tradução. Acredito que o texto em inglês também seja ótimo.
Kenia e Dani, vocês têm razão em dizer que a linguagem é simples. E é exatamente isso que a faz refinada. É muito mais difícil escrever de forma simples, com construções claras e figuras de linguagem que dão o clima do envolvimento da família.
Abril 15, 2008 às 12:30 am
danipontes
Concordo com vc Lino!! Escrever de forma simples e agradavel deve ser bem complicado pq o autor deve ter q se policiar pra nao acabar escrevendo maneirismos e nem parecer simplorio!!
Abril 15, 2008 às 10:17 am
Lys
Sim, em ingles eh otimo e nem eh tao dificil assim. Me assustei com a primeira pagina e agora ja vi que a linguagem eh mais leve do que eu esperava
Ontem li quase todo o conto e estou chegando a conclusoes diferentes das que eu tinha antes.
Escrever de forma simples e elegante eh uma arte
Concordo contigo e com a Dani.
Abril 15, 2008 às 6:27 pm
ethel scliar
Pois então, quando peguei para ler, na primeira pagina levei um choque! Pensei comigo, ai, ai, ai, meu inglês tupininquim tá só para pedir hotdog e olhe lá! give me this, give me that (e apontando com o dedo!). Depois melhorou. Vantagem de ler no original, quando a gente não domina muito bem a lingua: dá para entender do jeito que se quiser! Bom, mas lembrei do ditado italiano: traduttore, traidore . Todo tradutor é um traidor, pois cada lingua tem seu ritmo e a linguagem reflete a própria cultura. Lembram daquela música que diz “Só é possível filosofar em alemão” (Língua, Caetano Veloso)? Os eskimos, dizem, possuem mais de 50 palavras para designar diferentes tipos de branco! O catalogo de branco em tintas é imenso. Ora, branco é branco, dirão vocês. Não digam mais! Só para ver como nossos olhos nos engnam, que dirá a nossa língua… Ethel SC
Abril 15, 2008 às 7:03 pm
Lys
Abril 20, 2008 às 4:30 am
Excludentes e Excluidos I « Clube do Livro
[...] no livro. E foi assim, como todos os outros autores, lido em uma sentada. O livro eh envolvente e como o Lino ja disse, possui uma linguagem simples porem refinada. Me assustei um pouco com a primeira pagina, pois logo [...]