Ainda nao li o livro. Passei por um periodo de ferias dos blogs e me ausentei domingo passado aqui do Clube por pura exaustao. Mas, bola para a frente que atras vem gente… hoje ja coloquei tudo em dia, li todos os posts que perdi e devo confessar que isso so me fez ter mais vontade de ler e de hoje nao passa !
Como ainda nao li, hoje vou falar de algo que acho super interessante que eh o processo criativo. Afinal, o que define um livro bem escrito o qual temos tanto prazer de ler se nao a capacidade criativa e descritiva de algumas pessoas tal como a Doris ?
O processo criativo eh algo de fato interessante e ao mesmo tempo intrigante. Aposto que muitos de voces tambem ja tiveram a mesma impressao que eu ao escutar a entrevista com algum musico famoso e se decepcionar com a falta de expressividade ou ate mesmo com sua antipatia e sua falta de vontade em dar entrevistas e interagir com o publico. Muitas vezes nos perguntamos: Como eh que pode esse “mala sem alca” ter criado algo tao genial, tao doce, tao lindo ? O problema eh que a maioria das vezes vemos a obra pronta, mas nao o processo criativo. E durante o processo criativo essas pessoas geniais muitas vezes se transformam em pessoas desconhecidas ate mesmo para os proprios criadores. No entanto, eh facil para nos entender e respeitar as excentricidades do Joao Gilberto apos ve-lo executar a musica “chega de saudade” com uma perfeicao impar por conta de sua insistencia por uma afinacao perfeita. Por outro lado isso eh ainda mais complexo de entender no caso de um escritor que jamais veremos em acao de fato.
Alguns autores se trancam em seus quartos com suas maquinas de escrever ou computadores. A necessidade de ter seu proprio quarto ou cantinho para se isolar do mundo real e entrar no mundo criativo foi discutido muito seriamente por Virginia Woolf, escritora britanica que escreveu um trabalho entitulado A Room of One’s Own com a famosa frase: “a woman must have money and a room of her own if she is to write fiction”, nos colocando a importancia de se ter um lugar so seu para escrever e criar uma obra. Esse era o argumento que ela encontrava para justificar o fato de nao haver muitas mulheres escritoras na epoca dela.
Mas como sera essa cantinho de cada escritor ? Acho que nao precisa ser necessariamente um quarto ou um escritorio sombrio cheio de fumaca de cigarros. Pelo contrario, pode ser algo totalmente diferente. Simone de Beauvoir por exemplo escreveu a maior parte de suas obras em cafes, o mais famoso deles eh o Cafe de Flores que fica na Saint Gremain des Pres em Paris. O cafe ainda existe e mantem a mesma decoracao Art Deco da epoca, mas apesar de caro pra caramba vale super a pena entrar e tomar um chocolate quente so para reviver a atmosfera aonde tantos escritores brilhantes costumavam passar horas de seus dias e aonde tantos personagens interessantes foram criados.
Neil Gaiman, escritor de ficcao cientifica e quadrinhos, incomodado com a dificuldade das pessoas entenderem esse tal processo criativo de um escritor, decidiu ficar por algum tempo escrevendo dentro de uma sala de vidro em um ambiente publico. Uma especie de reality show para escritores. Eu ja vi isso em algum dos lugares que estive e achei engracado.
O problema eh que infelizmente nao ha nada de magico acontecendo dentro do quarto de um escritor durante o processo criativo pois ele todo se passa dentro de sua cabeca. Nos de fora veriamos apenas o silencio… absoluto silencio… e ignorariamos por completo todo o mundo magico que esta sendo criado naquele exato momento, dancarinas pulnado de uma pagina em branco, musicas tocando ao fundo, personagens dos mais variados disputando espaco em cada linha. Uma magica que nao nos pertence e que muitas vezes nao tem nada, absolutamente nada, da pessoa que a esta descrevendo.
As vezes um personagem aparece para um escrito logo na primeira pagina que ele escreve e toma uma grandeza absoluta durante o decorrer do livro. Lendo algumas obras da Simone e acompanhar depois ou simultaneamente as suas biografias aonde a mesma descreve como criou e de onde surgiram seus personagens me fez admirar ainda mais todo esse processo criativo que na minha concepcao eh uma coisa completamente bela. Uma realidade inteira tomando forma e vida no plano imaginario. Ao escritor so resta descrever a cena que esta visualizando e dependendo de sua capacidade descritiva a obra sera boa ou nao no final. Cabe ao autor saber descrever o que esta passando em sua cabeca da melhor maneira possivel, quase que como uma fotografia. Os personagem ? Esses muitas vezes tomam vida propria sendo dificil para o autor mudar sua fatalidade.
Mas de onde vem esses pensamentos ? De onde nascem essas cenas ? Muitas vezes da vida diaria, de uma cena que se passa em uma cafeteria, um sonho, um movimento ou a propria falta de movimento. Uma simples sementinha na cabeca de uma mente criativa eh mais que o suficiente para gerar uma obra interia.
A Doris Lessing nos conta como funciona com ela esse processo criativo tao interessante nesse video abaixo.
Nesse outro link aqui voce pode escutar uma entervista com a Doris, ainda mais completa do que a do You Tube, aonde ela tambem fala sobre o processo criativo.
Entao eh isso… agora chegou a hora de eu ir fazer meu chazinho e ler meu livro para tentar reproduzir o que passou na cabeca da Doris em um desses momentos fantasticos do processo criativo ! Que certamente se deu em um quartinho comum no suburbio Londrino e que foi descrito fielmente por uma maquina de escrever antiga, como ela mesmo descreve
beijos para todos e ate semana que vem !
Lys



8 comments
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Abril 13, 2008 às 4:30 pm
danipontes
Lys, eu quando era adolescente queria ser escritora… ate ganhei uma maquina de escrever no meu aniversario de 15 anos!!! Eu pensava que bastava gostar mto de ler e de escrever e que tudo viria naturalmente… mas nao eh bem assim!!!
O processo criativo eh penoso… como diria uma professora q tive… precisa de 10% de inspiração e 90% de transpiração!!!
Mas ainda bem q existem grandes criadores no mundo pq eu nao saberia viver sem um bom livro!!!
Beijos, Dani
Abril 13, 2008 às 4:47 pm
Toca Raul !!! « Lys, no labirinto de seu universo desconexo
[...] Fiquem entao com uma foto do show do Rush (a primeira dos mocos e a segunda das Rushetes – Lys e Paula) e com a promessa de que voltarei em breve ! E se ainda nao deu para matar a saudade, vai la no clube do livro pois hoje escrevi por la tambem, sobre o Processo Criativo. [...]
Abril 13, 2008 às 5:12 pm
Lys
Acho que muita gente ja passou por isso ne Dani ? Eu tambem as vezes tento escrever mas no meu caso sobra inspiracao e falta competencia
Tenho bastante facilidade de criar situacoes e personagens, mas nao basta so criar ne ? Tem que ser bem escrito, bem bolado, bem amarrado, bem argumentado. As coisas devem se fechar e para mim isso eh quase que impossivel fazer.
Acho que se esse processo criativo fosse facil nao haveria o famoso trauma da folha em branco ne ?
Mas eh muito bonito esse processo. Bonito mesmo. Imagine so os personagens fervilhando na cabeca desse povo e criando vida. Acho que quando o processo comeca nao deve ser facil parar de escrever ne ? Acho que eh por isso que alguns escritores somem por um tempo para um lugar distante e longe da civilizacao.
A Doris Lessing diz que consegue seguir uma rotininha e escrever pela manha, quando eh o melhor horario para ela escrever. E ela disse que entra no quarto, desliga o telefone e entra no mundo da ficcao. Muito legal ! Eu acho isso o maior barato.
Acho que qualquer dia vou tentar colocar a cabo um conto que tenho em minha cabeca. Na verdade tenho umas 3 ou 4 historias mas nunca consegui amarrar as coisas. Como disse, falta competencia
Abril 13, 2008 às 7:13 pm
danipontes
Eh Lys, no meu caso tb falta competencia… aqueles 90% de transpiração!!! Mas acho q deve ser bem legal vc entrar naquele mundo de ficção q eh quase seu, sem ser!! Pq eu qdo leio mergulho naquele mundo e mtas vezes qdo o livro acaba fico com saudades dos personagens… imagina o criador deles!!! Deve ser gostoso e dificil ao mesmo tempo!!
Beijos
Abril 13, 2008 às 9:44 pm
Lys
Pois eh. Uma vez escutei um escritor falando que tinha pegado tanta raiva de seu personagem e no final acabou matando o pobre.
A Simone de Beauvoir contou uma vez em um dos livros auto-biograficos a relacao que tinha com seus personagens e que as vezes ela desenvolvia um sentimento mais forte por um e ficava triste quando o livro acabava e as vezes o final desse personagem nao era tao legal. Ela ficava dias pensando em como melhorar as coisas para ele. Eh interessante mesmo.
Abril 15, 2008 às 5:03 pm
ethel scliar
Lys, esta também é uma das áreas que me fascinam – até porque a criatividade é um dos vetores que definem a humanidade, não é? O incrível é que a criatividade se acha também no dia-a-dia: a forma de arrumar um arranjo de flores, até mesmo dobrar um guardanapo! Alias, Leonardo Da Vinci – que inventou o guardanapo – fez varios desenhos com mil e uma formas de dobrar os dito cujos. Arte em origami e guardanapo! Bom, é verdade que nem todo mundo é um Da Vinci… Agora, tem um livro fantastico que fala sobre criatividade (pena que não tem em portugues), mas é maravilhoso. Porque aborda a criatividade por este outro lado: a criatividade que requer disciplina, hora certa para ser trabalhada. O livro chama The Creative Habit, de Twyka Tharp, uma dançarina e coreografa fantastica. Ja o titulo mostra o enfoque, pois junta duas palavras que normalmente as pessoas acham que nao podem estar abraçadas… Uma semana criativa para todos! Ethel SC
Abril 15, 2008 às 5:04 pm
ethel scliar
PS: Esqueci de dizer. Já já vou postar os comentarios dos dois outros posts. AGora preciso por a mesa para o almoço. Tenho que dobrar guardanapos…
Abril 15, 2008 às 6:58 pm
Lys
Sem duvida Scliar ! Ate na area de ciencia exata eh possivel ver essas manifestacoes criativas