O que gera discussão? O que mobiliza nosso corpo, nossa mente? A estupidez de um ato? A beleza poética? Algo pelo qual nos sentimos próximos? Pois é. Não sei se chamou a atenção de vocês, mas o livro A Desonrada, que lemos antes deste da Doris Lessing, só na primeira semana, rendeu 30 comentários. As avós? No mesmo período, apenas 3 (e que para dizer a verdade, nem chegavam a ser comentários de fato). Então pus o tico e o teco a funcionar: o que este dado significa?
OPINIAO ABERTA
Claro que as justificativas são sempre muitas; problemas, outras prioridades, etc. e tal. Então TODO mundo naquela semana da Desonrada tinha tempo para se mobilizar e ninguém nesta (inclusive eu!)? Deixemos de lado as explicações racionais (até porque estão sempre à mão e são utilizadas para mascarar os motivos porque deixamos algumas coisas de lado ou para depois) e pulemos para o próximo capítulo. A Desonrada trata de um tema em que todos temos uma posição firme, já estabelecida. Estupro? Agressão à mulher? Mesmo com as vírgulas e os “mas” (um parênteses para o respeito à diversidade cultural), podemos escrever sobre A Desonrada e clamar aos céus. Tem mais: o livro possui um tom de escrita quase infantil – uma catarse que nos libera para escrever. Doris Lessing? Isso já é outra história.
POLITICAMENTE CORRETO
Seriam os temas abordados em As avós menos polêmicos? Na minha opinião, são mais polêmicos. Tão polêmicos, que fica difícil articular um comentário – mais: quem quer parecer reacionário e discordar? Outro detalhe: como Doris escreve com sutileza, nada é tão preto no branco (ops! Isto está politicamente correto? Ou temos que escrever afro-descendente no euro-descendente?). Isto torna difícil uma tomada de posição. Quais são os temas que perpassam o conto? A amizade fechada de duas mulheres – uma amizade tão intensa, que resvala no lesbianismo. O amor sexual de duas mulheres já velhas por dois jovens – seus filhos, na idade e na forma como interagem. Talvez a transferência do amor lesbiano não realizado. E há também a inveja de um cenário perfeito, ideal – mas que não passa de cenário. Ou seja: o dilema das aparências.
TAO PERTO, TAO DISTANTE
Existe também a questão da proximidade; ou seja; o fator de identificação. Este aspecto é muito estudado em jornalismo e propaganda, pois desejamos que o público-alvo tenha uma reação X ao que escrevemos. Por isso, coloca-se em destaque pontos que podem ser facilmente mapeados, para que o outro “leia” aquele mundo. O quanto nos afeta o assunto abordado? A questão do estupro – em A Desonrada – atinge 1 em cada 4 mulheres. Conhecemos alguém. Podemos ser a próxima ou o próximo envolvido. Será que o ser humano só reage quando é de fato cutucado na própria carne? Algo assim como estas pessoas que só percebem a criminalidade e a violência quando são atingidas por ela. E saem em passeata, e escrevem, e protestam, e se engajam. Onde estavam elas antes? O incesto está neste caso? Distante e dificil de falar sobre o assunto? E o sexo entre gerações? Não uma pequena diferença, mas um diferença de 40 anos? Um a mulher de 55 anos com um jovem de 15 anos? 54 com 14? Qual o limite do aceitável? E por que? No próximo post, falo um pouco sobre minha experiência pessoal. Boa semana para todos! Ethel SC



4 comments
Comments feed for this article
Abril 9, 2008 às 11:19 pm
danipontes
Sabe q eu tb reparei isso?!?! Esse blog ta meio morto essa semana… nem os proprios autores andam participando!!! E olha que eu ADOREI o livro e vi varios pontos q gostaria de discutir!!!
Adorei o puxao de orelha Ethel!!!
Vamos acordar e participar povo!!!
Beijos, Dani
Abril 13, 2008 às 2:15 pm
Lys
Otima observacao Scliar ! Excelente.
O fato de estarmos ocupados nao eh justificativa pois sempre podemos voltar nos posts anteriores e discutir, mesmo que com atraso, uma semana impossivel, eh possivel em algum dia sentar e discutir todos os pots, assim como acabei de fazer hoje. Eu tambem sempre acompanho os comentarios novos feitos por outras pessoas no blog para nao perder discussoes que estao acontecendo em posts anteriores.
Acho que o problema possa ser um misto entre a segunda e a terceira possibilidade. Na verdade acho que as tres, cada uma contribui com uma parcela.
No meu caso, eu costumo comentar em todos os posts quase que imediatamente. Fiquei sem aparecer por um tempo mas ja coloquei em dia… voltei no ultimo que ainda nao havia lido e vim lendo tudo de tras para frente pois gosto de seguir a ordem cronologica. No meio percebi a ausencia de comentarios e a falta de profundidade nas discussoes. Cheguei no seu agora e notei que voce esta incomodada com o mesmo que me chamou a atencao.
Concordo com voce e ao ler os posts ja vinha pensando em como resolver isso. Acho que a mudanca deve comecar entre os autores. Temos que participar mais, voltar aos topicos e discutir com mias profundidade, ler os posts e comentar, ler os comentarios novos e comentar, mas eh complicado exigir essa postura de todos. Pois a ideia nao eh exigir nada de ninguem e sim que o clube seja uma atividade prazeirosa e feliz. Nao gostaria de impor nada a ninguem, mas apos escrever meu post de hoje vou escrever um email para todos os autores e pedir uma maior colaboracao.
Nao sei como mudar isso, mas de fato seria muito mais legal se todos participassem mais intensamente…
beijos,
Lys
Abril 13, 2008 às 2:22 pm
Kenia
Semana passada, de uma tirada só, li As avós.
Acho que em comparação com A Desonrada (que não li, mas opinei sobre o tema da violência), a novela de Doris Lessing ficou em desvantagem em termos de comentários porque ela mexe com aspectos humanos mais subjetivos, que envolvem juízos de valor: ao mesmo tempo em que são apresentadas relações quase que incestuosas, por exemplo, existe a simpatia que as personagens despertam no leitor, fazendo com que ele, de certa forma, assimile aspectos que, desvinculados das personas ficcionais, causariam estranhamento. E é justamento o estranhamento que deixa os debatedores meio silenciosos, pois, de certa forma, somos coniventes com a transgressão por pura empatia. No fim, o inferno são os outros mesmo.
Beijos gerais e aguardo o desdobramento da discussão.
Abril 13, 2008 às 3:26 pm
danipontes
Meninas, como ja disse la em cima, concordo com vcs!!! Os autores precisam acordar e movimentar isso aqui!!!
Ja vou preparar meu post dessa semana!!!
Beijos, Dani