Uma das questões que o livro As Avõs põe é o do relacionamento amoroso ou apenas pelo sexo entre pessoas de idades diferentes. Doris Lessing trata da questão com todo cuidado, contando o geral, mas omitindo as partes (?). No entanto, fica, no final – pelo menos foi o que senti – que o relacionamento entre os quatro personagens do livro – as duas avós e seus filhos – é quase incestuoso.
O que leva a esta impressão é o fato de as duas avós serem amigas de sempre e para sempre e terem criado os filhos juntos, de tal forma que no final as duas eram mães deles. Então, o relacionamento que daí decorre, a proximidade entre os quatro, acaba levando a um outro tipo de relacionamento, que nada tem de filial, mas avança para o complexo de Édipo realizado.
Além do relacionamento carnal, quase uma troca de filhos, há, de outro lado, um aspecto interessante para se discutir a partir do livro, que é as amizades fechadas, que não permitem a inclusão das pessoas e criam um mundo todo particular, so entendível para quem está dentro. É o caso de As Avós. De tão amigas, cúmplices mesmo, elas criaram um mundo particular, só delas, que não admitia gente de fora.
O que se pode questionar é se tal amizade é saudável. Usando uma analogia, é como se fora o sistema solar, com tudo girando em torno de um centro. E nele estão as duas avós. Na verdade, elas têm vida fora desta amizade, mas a impressão que a narração dá – pelo menos no meu entendimento – é que ela é secundária. O que as sustenta, na verdade, é a amizade sem limites, ao ponto de suportarem que seus filhos se tornem amantes da outra.
Como criaram um mundo particular, só delas – nele incluindo os filhos – elas podem estabelecer as regras de convivência, sendo que todas elas se submetem ao que querem, ao que pensam. E estas regras não têm de ser, necessariamente, as da sociedade. Daí a naturalidade com que o quase incesto é tratado.



2 comments
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Abril 13, 2008 às 1:51 pm
Lys
Legal essa comparacao com o incesto e a chamada para o complexo de Edipo. Ainda nao li o livro Lino. Entrei em um ciclo bastante corrido no meu trabalho e estava embolada nele. O livro esta gritando do lado de minha cabeceira e hoje comeco a ler e pelo que tudo indica sera de uma sentada, assim como foi com voce e o Alvaro.
De maneira geral o relacionamento entre uma pessoa mais velha e outra mais nova me parece bastante inevitavel pois eh normal uma pessoa mais nova se interessar por pessoas mais inteligentes, vividas e com mais experiencia que na maioria das vezes se conquista com o tempo e a vivencia. Por outro lado, a pessoa mais velha sente-se atraida pelo jovem para tentar resgatar um pouco da leveza perdida com o tempo e com as experiencias que parecem ser tao atraentes aos mais novos. Uma troca de interesses e necessidades apenas. O “mais velho” eh de fato muito mais atraente para o “mais novo” e vice-versa, na maioria dos casos.
Mas colocando da forma que eu acredito que a Doris coloca no livro, quando ambas compartem a maternidade, ha de fato essa correlacao incestuosa e sua ideia eh de fato bastante interessante e bem sacada.
A Scliar comentou essa ideia de viver em um mundo fechado no post dela sob o titulo “O mundo em um aquario“. Voce abriu esse tema que achei bem legal. Ainda nao li o livro, veja bem, mas meu pitaco eh que acho que a Doris colocou apenas de maneira mais amplificada e exagerada o que acontece com a maioria das pessoas. Afinal, vivemos todos meio que fechados em nosso mundinho e poucos sao os que se atrevem e ultrapassam a barreira do aquario para enfrentar um mundo diferente nao eh mesmo ? Eh mais facil e comodo entender e mudar as leis morais e tradicoes do que se expor ao desconhecido e correr o risco de ser um estrangeiro, um ser diferente e sozinho. Temos dificuldade de lidar com a solidao e tambem com as perdas. Tenho que ler o livro… now
beijos
Lys
Maio 4, 2008 às 4:16 am
Excludentes e Excluidos III « Clube do Livro
[...] diferencial nesse conto, no meu ponto de vista eh o incesto como Lino citou bem em seu post. E depois a Scliar reforcou em um dos posts dela. A amizade era forte porem normal segundo o que eh [...]