Vamos começar o post de As Avós como se esse artigo não fosse coisa séria. Mas é. Um belo dia, cansado de conviver diariamente com as diatribes do governo Lula, e também de tanto ler e ouvir sobre escândalos, Chico Buarque de Holanda propôs ao presidente, que já tem 38 ministérios, a criação de mais um: O Ministério do Vai Dar Merda. A ele seria dada a incumbência de evitar que a sucessão de escândalos e besteiras aumentasse além da conta. Além disso, acenderia a luz vermelha sempre que algo pudesse dar em merda.
As Avós é a típica história que teria de terminar dando errado. Em merda, no caso. E acaba sendo deliciosa de ler, e de ser lida em um único fôlego – no meu caso, com parada apenas para o almoço –, pois é impossível não curtir aquela trama que, desde sua metade, encaminha-se inevitavelmente para um final de comédia pastelão apesar da carga dramática dos momentos finais. Que, aliás, estão divididos entre as primeiras e as últimas páginas de forma magistral.
As Avós romperam com todas as convenções sociais vigentes. E o mais interessante na trama é que seu maior álibi se sustentava na visão equivocada de um senhor maduro apaixonado por Lil e que, num belo dia, chegou à terrível conclusão de que ela e Roz eram lésbicas. Amantes, por tão próximas, tão presentes uma na vida da outra. Isso as deixou tranqüilas. E como…
A novela (é uma novela) de Doris Lessing, escrita de forma magistral, mostra que algumas coisas a gente não deve registrar por escrito. Nem com a infantilidade com que se escreve de sopetão, nem com a maturidade preservacionista com que se guarda certos escritos por candura. Rupturas de convenções sociais são guardadas somente na memória. Até porque, nela, a gente pode manipular as recordações e dar asas à imaginação.
Quem nunca rompeu com uma convenção social? Que homem nunca teve atração, por exemplo, por uma priminha linda? Que mulher jamais se sentiu atraída por um exemplar do sexo oposto bem mais jovem? E aqui estou falando somente do que o livro trata: de relacionamento heterossexual maduro, furtivo, escondido, definitivamente a minha especialidade. E sem querer tecer críticas a quem prefere o inverso ou incursões em ambas as opções dessa atividade.
As Avós não é uma história aética. Nem amoral. Nem, muito menos, imoral. Não agride, embora transgrida. Ela conta em pouco menos de 100 páginas – repito, magistralmente escritas – um fato perfeitamente possível. Quem não conhece ao menos uma história do homem e da mulher que se apaixonaram, mesmo ambos sendo os melhores amigos dos parceiros do outro?
As Avós tiveram paixões que eram para elas, irresistíveis, iguais às dos exemplos citados acima. E foram correspondidas. O mais é considerar que, se elas tivessem o auxílio do conselho de Chico Buarque de Holanda, não teriam deixado o rastro que deixaram. Mas aí a novela não seria o primor que é.

1 comment
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Abril 13, 2008 às 1:33 pm
Lys
Romper as convencoes sociais eh o maior barato
Afinal, quem eh que define essas tais convencoes ? Qualquer regra, decidida por uma maioria, nao pode desclassificar os pontos fora da curva correto ? Por isso detesto e condeno qualquer tipo de regra de carater descriminatorio.
Ainda nao li o livro. Entrei em uma especie de holocausto trabalhistico que pretendo me livrar logo. Hoje comeco a ler e pelo o que voces estao comentando, acho que lerei de um so folego
beijos
Lys