woman in lineIsolar-se do mundo, criar um novo universo – mas quando o artista (em qualquer arte, em todas as formas) abre uma porta para este  território, nós espiamos, entreolhamos – e mergulhamos neste aquário.
Um pouco do cotidiano se esvai. Um pouco da rotina se desmancha no ar. Mas ao fechar a última página, voltamos para o nosso dia-a-dia, destino irrevogável.
E assim é, assim será com as duas avós: elas criam seu próprio mundo. Desde crianças, um caminho de proteção, um aquário construído por ambas, para se protegerem de tudo que escapa à compreensão. Fogem, pela amizade, ao bullying, à família, ao casamento cujas aparências mascaram, como um vidro sujo do aquário, os tesouros enterrados na areia.
E tentam – ah!, como tentam – quebrar estes vidros que aprisionam, mas, ao mesmo tempo, libertam. No entanto, isto não é possível. O destino das vidas entrelaçadas está amarrado. E a história se repetirá - quem sabe? – com as netas que crescem à beira-mar. E o livro, em tom poético, esconde, na verdade, a violência daquilo que a sociedade não aceita e a desesperança do irrealizável. Ethel SC
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PS: Eu não li o Carnê Dourado, o livro mais famoso de Doris Lessing. Mas, pegando o gancho do Lino, não dá para julgar um autor só por um livro (embora… bom, deixa isto prá lá, vou falar no assunto em outro post!). Doris tem até um pseudônimo, Jane Somers, com o qual publicou novelas sem ter o “peso” da fama. Até que descobriram, claro! Mas quem não tem estas múltiplas personalidades? Até as avós do livro – amigas, mães, avós, amantes. 

Crédito da foto: Woman in line. Performance. Criação e foto de Bianca Scliar.