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Fechando a minha trilogia sobre preconceitos nas relações – já abordei diferença de idade e relações intra-familiares – hoje vou falar sobre a questão de gênero, que também perpassa o conto As Avós. Nele, existe uma relação não explicitada de lesbianismo entre Lil e Roz , se não real, pelo menos percebida assim pelos outros. Até que ponto esta relação se projeta na transferência que permeia a atração de cada uma pelo filho da outra é algo que permanece em aberto. O assunto não parece tão polêmico, hoje, quanto o do incesto (que, aliás, voltou ao noticiário com o caso tenebroso de Josef Fritzl, o austríaco que manteve sua filha aprisionada durante 24 anos, e com quem teve 7 filhos – 6 sobreviveram). Ou estou enganada?
Ações afirmativas pelo avesso
Audrey Vachon, uma canadense, abriu processo contra o bar Le Stud, um bar gay em Montreal. O motivo: o garçom recusou-se a atende-la, porque era mulher. E o dono, frente ao escândalo que se instaurou, reforçou: “os clientes exigem um ambiente exclusivo para homens.” Ou seja: a exclusão que garante o respeito aos homossexuais. Como sempre, o direito de um é a negação do direito de outro. Garantir o direito dos homossexuais de terem um espaço só seu significa excluir as mulheres. E vice-versa. Quem decide qual direito prevalece sobre qual? Para saber mais sobre este caso, leia aqui.
(a charge foi tirada do site: http://www.slapupsidethehead.com/2007/06/)
Escândalo à brasileira
Mas deixamos os escândalos politicamente corretos do primeiro mundo e vamos ficar com a questão de gênero que pipoca no Brasil mesmo. Pois as últimas manchetes dão conta da tentativa de extorsão de Ronaldo, conforme seu próprio relato, por parte de um travesti. O outro lado da moeda diz que Ronaldo se recusou a pagar pelo programa. Seja como for, pipocam na imprensa a questão de porque o jogador, famoso, rico, teria procurado por travestis para, conforme suas palavras “extravasar” sua tristeza. Diz ele que se “enganou”, achou que era uma prostituta mulher, que chamou mais duas amigas – todas travestis. Ronaldinho então, ao descobrir tudo, ora bolas, desfez o programa porque… ora, porque, onde já se viu, homem com homem é coisa de lobisomem! E jogador de futebol é muito acho sim senhor. Resumo da ópera:a Nike, patrocinadora de Ronaldo, aguarda os desdobramentos e repercussão para decidir se rompe ou não o contrato. Coisa assim dos seus R$ 167 milhões (não, não errei na digitação, é isso mesmo: R$ 167 milhões). Enquanto o escândalo não pesa no bolso, fez a primeira baixa no coração do jogador: sua namorada rompeu o romance. Alguém se importa? O caso de Ronaldo está aqui.
Fatos reveladores
Assim como nas Avós, estes episódios só fazem vir a tona os muitos preconceitos que ainda existem em relação à identidade sexual. E o fato de se instituírem tantas ações afirmativas (a Parada Gay é a apenas o exemplo mais aparente) só reforça o quanto a sociedade ainda olha, com desconfiança, tais relações. Da mesma forma que no caso do incesto, o componente sexo com fins de procriação também está subjacente – tanto é que as avós (e só são avós por isso) querem que os respectivos filhos casem e, por sua vez, tenham filhos. Coisa impossível no caso da homossexualidade, se excluirmos a adoção – e aqui, volta-se ao tema o quanto um filho adotivo cria o laço parental ou não. Woody Allen que responda.
Continuando o que comecei no meu post passado, hoje darei continuidade a Trilogia dos Excludentes e Excluidos que conta com os posts: Amizade (que ja foi publicado aqui), Cumplicidade e Incesto. Hoje vou publicar a segunda parte.
Cumplicidade:
Uma coisa que concordo mas ao mesmo tempo discordo dos comentarios que li eh a sugestao de que as avos tenham criado um grupo fechado aonde ninguem entra e ninguem sai. Como assim concordo discordando ? Pois bem, concordo que no final existia um grupo fechado entre os quatro (avos e filhos), mas acredito que isso tenha acontecido apenas por forcas das circunstancias. Afinal, os que nao se encaixam se excluem nao eh mesmo ?
* Segundo o ponto de vista deles: Eles eram cumplices de uma situacao que se desenrolou de forma natural que aos olhos da sociedade seria visto como um crime. Essa mistura de culpa e remorso os faziam fechar e omitir com todas as forcas o seu grande segredo. Eram os quatro cumplices de um crime que nao podia ser divulgado. Olhares atentos e preocupacoes constantes sobre a exposicao de um sentimento. Qualquer caricia ou carinho deveria ser policiado a cada momento. Se as pessoas descobrissem seria uma vergonha. Uma vergonha nao porque duas mulheres maduras e bonitas e independentes estavam tendo relacoes sexuais com adolescentes, nao por causa disso, mas sim porque esses adolescentes poderiam ser considerados seus proprios filhos. Essa propria dor que as atormentavam era a mesma fortaleza que as protegiam pois jamais ninguem suspeitou que algo do tipo poderia estar acontecendo, afinal, eram todos uma grande familia. Ser considerada lesbica nesse aspecto, mesmo que de forma equivocada, era mais confortante para as avos do que expor a vergonha de estarem apaixonadas por seus proprios filhos. Pois ser lebica as excluiriam sim, mas nao as colocariam na fogueira dos infernos como a familia Borgia do seculo atual
.
Na atmosfera, uma mistura de amor, ternura, cumplicidade e acima de tudo medo que aos olhos de outros poderia ser interpretado de algumas maneiras:
a. Segundo o ponto de vista de Hannah: Eles sao apenas uma bela familia e com a cumplicidade natural de uma familia. Eh natural que exista esse carinho e cumplicidade entre os rapazes e as maes, ja que foram criados juntos desde que nasceram. Elas sao as maes deles !
b. Segundo o ponto de vista de Sam: Elas sao lesbicas e criam os meninos como se fossem seus proprios filhos. Era necessario uma presenca masculina na casa para apoiar os meninos para que eles crescessem saudaveis.
c. Segundo o ponto de vista de Mary: Eles possuem entre eles algo mais do que cumplicidade natural. Eh inconfortante saber que existe alguem que conhece seu companheiro mais do que voce em todos os aspectos
possiveis. Entao ai surge a duvida, a inseguranca e a curiosidade que levou ao descobrimento dos fatos.
Agora temos os excluidos por um lado e “os quatro” excludentes de outro. Por outro lado, “os quatro” excludentes continuam sendo excluido se considerarmos os padroes de sociedade vigente. E por esse mesmo lado os que antes eram excluidos fazem parte da sociedade excludente tambem. E de excluidos eles passar a ser excludentes ![]()
Égua de ti Scilar… por meu livro nao ter chegado eu vinha justamente tocar no assunto insesto. Ai tu me jogas um post desse onde só me resta lavrar e sacramentar o tema??? Égua de ti!!! Mas como sou enjoada, vou meter meu bedelho do mesmo jeito!!!
Na minha opinião, o incesto existe, ou ele acontece, quando a estrutura familiar se rompe. A natureza, a Igreja (qualquer uma), o universo “criaram” a instituição família: pai, mãe, filhos, tios… todos vivendo em um cla, alegre e felizes. A vida moderna afastou os parentes para outras terras… essa mesma modernidade trouxe o divórcio. E eu me atrevo ainda a dizer (mas mau marido não leia) que a natureza impulsionou o homem a constituir novas famílias. Os laços familiares foram assim se quebrando.
Sangue conta… mas o peso maior de nossos sentimentos são baseados naquilo que vivemos junto dos outros. John e Jenny, Wood e Soon-Yin nao viveram uma relação de pai e filho. Todos foram separados na infancia e se encontraram anos depois. O sentimento que tem um pelo outro depois de tanto tempo poderia ser tudo, inclusive o amor incestuoso.
Dessa forma chego a conclusão que a RELACAO de maternidade/paternidade é construída, ano após ano, mas o sentimento maternal/paternal… e amor entre pais e filhos, esse sim é instintivo!
Gostei da idéia da trilogia, que a Lys vai fazer. Bem, a minha trilogia aborda três formas de preconceito que perpassam o conto: questão de idade (falei no meu ultimo post sobre isto); questão de gênero e questão de incesto. Hoje, vou falar sobre o incesto.
“I have everything, she decided. But then, a voice from her depths – I have nothing.”
Doris Lessing, As avós.
O incesto é um tabu fortemente estabelecido em nossa cultura. Aparentemente, acreditamos que é um tabu “natural”, ou seja, que todas as culturas através dos tempos, apresentam este mesmo tabu. A explicação “cientifica” para tanto é que a preservação da espécie fala mais alto – e relações entre parentes consangüíneos apresentam maior possibilidade de gerarem filhos com problemas genéticos.
Vários graus de incesto
No entanto, existem uma larga variedade de relações sob a denominação “incesto”. Pais com filhas. Irmãos com irmãs. Tios com sobrinhas. Primos com primas – e vice versa, ou do mesmo gênero. Os dois últimos casos (sobrinhos, primos), por apresentarem um distanciamento genético maior suscitam também maior discussão, dentro da regra acima falada (geração de filhos saudáveis). É interessante destacar que tal postura reafirma que as relações de amor e sexo devem ter um só objetivo: a procriação. Aliás, esta fato também é reforçado no conto, quando as duas amigas conversam sobre o futuro de seus filhos – precisam se casar, ter seus próprios filhos, enfim, devem se “enquadrar” no modelo familiar tradicional. A noção de família com o objetivo de procriação vem sendo profundamente questionada desde o advento da pílula anticoncepcional – e hoje o debate ganha força renovada com a questão do aborto e dos movimentos pró-vida. Denise discute este assunto em seu blog, ao comentar o filme Juno.
Estranhamento
O incesto ganhou status suficiente para ser analisado e discutido em nossa sociedade a partir de Freud, que disseminou o conceito do Complexo de Édipo. Édipo, cheio de culpa, que assassina o pai, que se casa com a própria mãe, que arranca seus olhos… Existe uma análise, de Foucault, sobre o mito do Édipo, em que ele mostra como, dentro da peça teatral de Sófocles, Édipo Rei, se percebe a construção das várias formas de culpa/castigo e justiça que o ser humano desenvolveu através dos tempos. Bom, mas isto já é outro tema. Voltemos ao incesto. No livro, este incesto transparece pela relação não consangüínea, mas sim, desenvolvida durante o crescimento dos dois meninos. Algo similar com a adoção que, hoje, também é tão debatida. O sentimento de maternidade / paternidade é instintivo ou construído? Os defensores da adoção e das novas estruturas familiares defendem que ele é construído. A cultura popular defende o contrario – daí a quantidade de “madrastas do mal” que povoam as histórias e contos infantis. Que tal examinar dois exemplos nos dias de hoje para conferir como as pessoas reagem quando as histórias saem da ficção para a realidade?
Incesto consangüíneo: o caso de John e Jenny.
É claro que os casos de incestos raramente vêm a público, mas psicólogos acreditam que são mais comuns do que usualmente se pensa. Um dos que geraram controvérsia foi o do casal australiano, John,61, e Jenny Deaves, 39. Eles se reencontraram após trinta anos e se envolveram sexual e afetivamente. Tiveram dois filhos. O primeiro, morreu com 4 dias. O Segundo bebe, que tem 9 meses, vai bem, obrigada. O pai alega que a morte do primeiro bebê não tem nada a ver com o fato de serem parentes. Afinal, diz ele, morrem centenas de bebes todos os anos com o mesmo problema, e ninguém alega que a culpa é dos pais.. Continua ele: -A sociedade se incomoda com este fato. Nós não! Estamos felizes, não fazemos mal a ninguém.
Mesmo assim, o justiça interveio no caso, e sentenciou o casal a três anos de prisão. Atualmente, eles são monitorados e proibidos de manterem relações sexuais (o que no Brasil se chama casamento com separação de corpos). Agora, uma perguntinha: proibido de terem relações sexuais? Por que? Para saber mais sobre o caso, ele está na mídia.
Incesto não parental: o caso Woody Allen
Em 1992, Mia Farrow, então esposa de Woody Allen, descobriu que ele a filha adotiva do casal, Soon-Yi, estavam tendo um caso. A repercussão foi enorme, incluindo a questão do incesto e da diferença de idade (Allen é 35 anos mais velho que Soon-Yi). O casal se separou e Woody Allen finalmente se casou com a filha adotiva em 1997. Adotaram duas crianças. Durante todo o processo, Mia alegou que Woody Allen havia molestado as crianças, proibiu a visitação aos outros filhos do casal e colocou lenha na fogueira. O cineasta foi praticamente execrado nos EUA e colocado – não vou dizer na geladeira! – foi no freezer mesmo. A relação já dura 16 anos e Allen conseguiu cativar novamente o público Americano.
São muitas as perguntas em torno destes assuntos. Uma, que me intriga, é a interferência do estado nos assuntos familiares. As vezes, parece nítido e claro que esta interferência deve existir – a obrigatoriedade da vacinação está aí para comprovar isto. Outras, nem tanto. Como delimitar o campo de atuação? Quais os critérios que devem ser utilizados? O que deve ser considerado aceitável – e por que? Afinal, os escravocratas tinham fortes argumentos para considerar “normal” a exploração dos negros! Hoje, sabemos que era uma questão econômica. E no caso do incesto, consangüíneo ou não? Como delimitar a aceitação? No livro, parece fácil aceitar. Na vida dos outros, também - afinal, quem deve se meter onde não é chamado? Mas… Mães e pais de plantão: como vocês reagiriam com seus próprios filhos casando com seus parceiros? Ou seus filhos casando entre si? Ethel Scliar
Uma coisa que não entendi no livro foi o término da relaçao entre as avós e os filhos!! A Roz e o Ian não tinham porque terminar… eles se amavam e os dois sofreram com o término!!! O término do Tom e da Lil eu até entendo, porque o Tom queria casar e ter filhos.
Fico me perguntando se isso era só medo do preconceito ou se era um preconceito delas também!! Não lembro qual das duas fala em um momento do livro que não poderiam fazer isso com os meninos pois eles mereciam casar e ter filhos!!! Pô, os meninos já eram dois homens, será que eles não poderiam decidir isso!?!? E porque as duas mulheres decidem juntas terminar?!!? Elas simplesmente informam o término, não acho isso justo!!
Pra mim elas se acovardaram com medo do preconceito que iriam sofrer!! Sem contar no próprio preconceito de assumir pra cidade que estavam com os filhos uma da outra!! Tudo bem, sei que deve entrar uma certa culpa por essa relação ser meio incestuosa e tudo… mas se existe amor porque não lutar por ele!?!?
O que acham?!!?
Beijos, Dani
Dessa vez foi a vez de nosso companheiro de leitura Alvaro escolher o proximo tema de discussao aqui no Clube do Livro. O tema proposto foi o 2º Centenario da vinda para o Brasil da Corte Portuguesa. Como de costume, tres livros foram colocados em votacao (veja esse link aqui) e o escolhido foi o livro O Chalaca de Jose Roberto Torero.
Nas suas 228 paginas, forjando os diarios de Chalaca, secretario particular de Dom Pedro I, o autor compos uma obra literaria reveladora e picaresca (segundo o site Submarino).
Sinopse Completa:
O romance contém as supostas memórias do conselheiro Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, fiel secretário particular de D. Pedro I, personagem que viveu os mais importantes fatos do nascente Império brasileiro. Torero recria brilhantemente - e com humor implacável - a vida deste que teria sido um dos mais importantes auxiliares de Pedro I, não só na política, como em seu dia-a-dia - era sua atribuição, por exemplo, intermediar os encontros do Imperador com as filhas de Eva.
Sobre o autor: TORERO, JOSE ROBERTO
José Roberto Torero é autor de “O Chalaça” que ganhou o Jabuti 1995 de melhor romance , “Uma História de Futebol”, prêmio de altamente recomendável pela FNLIJ e de vários outros títulos como “Terra papagalli” e “Xadrez Truco e outras Guerras” - coleção Plenos Pecados. Em cinema, dirigiu e escreveu curtas-metragens - entre eles, o premiado “Amor” - e trabalhou como roteirista nos longas “A Felicidade É” e “Pequeno Dicionário Amoroso”.
Fonte: livraria cultura.
Apenas uma curiosidade: O autor eh Santista (como aquela que vos fala
) e possui dois blogs: Blog do Torero e Blog do Lele (seu sobrinho ficticio).
E enquanto compramos e lemos o novo livro, ainda temos mais duas semaninhas de Doris Lessing por aqui.
Finalmente peguei no livro. E foi assim, como todos os outros autores, lido em uma sentada. O livro eh envolvente e como o Lino ja disse, possui uma linguagem simples porem refinada. Me assustei um pouco com a primeira pagina, pois logo de cara ja encontrei umas tres palavras que eu nao sabia o significado. Achei que teria problemas com o ingles pelo fato de a autora ser britanica e tambem merecedora de um nobel de literatura. Ou seja, fui pre’ conceituosa e quebrei a cara :). Que feio ne Lys ? No final, Doris me ensinou que nao eh necessario escrever um texto rebuscado para se fazer literatura com maestria.
Adorei o conto. Como todos ja disseram aqui, achei envolvente, gostoso, dinamico e muito bem escrito. No entanto, cheguei a conclusoes diferentes das dos meus colegas autores a respeito de alguns pontos da estoria. E eh isso que acho mais interessante nesse clube sabia ? Sete pessoas lendo o mesmo livro e cada um apontando para algo interessante e segundo um ponto de vista diferente. E como disse a Scliar em um comentario no post da Cica, depois que a obra saiu das maos da Doris que as criou, as avos seguem seu rumo e cabe a nos criar o resto da historia em nossas cabecas.
Vou contar para voces alguns topicos que para mim sao pontos interessantes nesse conto, mas terei que dividir em tres partes para nao ficar muito longo (pois eh pois eh, estou comecando a me preocupar com isso). Chamarei a serie de posts de: Trilogia dos Excludentes e Excluidos que contara com os posts: Amizade, Cumplicidade e Incesto. Hoje vou publicar a primeira parte !
Amizade:
O livro conta uma estoria de amizade sincera e para toda uma vida. No meu ponto de vista a amizade entre as avos (Roz e Lil) era apenas uma amizade legal e sincera. Nao havia cobrancas e nada de ruim entre elas. Nao havia nenhuma relacao de inveja e ciumes alem do normal entre duas amigas. Nao havia tentativa de possuir a existencia da outra ou produzir dependencia. Apenas uma amizade que evolui em ciclos, seguindo seu rumo e brilhando em palcos paralelos, porem sempre proximas. Nao por obrigacao, mas apenas por opcao.
Segundo o ponto de vista de Harold (marido de Roz), era inconcebivel dividi-la com outra pessoa. Nao entendia como sua esposa poderia ser mais intima de uma terceira pessoa do que com ele proprio. Eh bastante facil compreender o lado de Harold tambem, pois quando nos casamos queremos de certa forma possuir o companheiro e ser a pessoa mais importante da vida dos nossos conjugues. Vai dizer que nao ? Nao conheco nenhum casal que seja diferente.
No entanto ate mesmo Harold no final chegou a conclusao de que nao havia nada de mal entre as avos, e sim, que ele gostaria de ter uma relacao mais tradicional que finalmente conquistou no futuro e todos viveram felizes e em harmonia. Uma familia tradicional e bacaninha de acordo com os padroes de felicidades da maioria.
Apesar de Lil ter sido o pivo da separacao, nao ha nenhuma evidencia no livro que indique que o motivo principal da decisao de nao mudar de cidade com o marido tenha sido o fato de ficar longe da amiga. Roz tinha sua vida ligada a cidade, sua carreira e seus desejos futuros. Ficar foi uma opcao aonde pesaram varios fatores nao somente a amizade. Eu faria diferente, pois tambem gosto desse esquema bacaninha de acordo com os padroes de felicidades da maioria, mas entendo que Roz teve motivos de sobra para ficar.
Agora aqui me pergunto, quem era o excluido e quem era o excludente da relacao ? Harold se sentia excluido da relacao entre Roz e Lil. Por outro lado ele disse que Roz nao se encaixava no grupo de pessoas normais capazes de compor uma familia tradicional segundo os padroes vigentes na sociedade. Ou seja, agora a excluida eh Roz e Lil ?
Os três livros que sugiro para que um seja escolhido pelos membros do Clube do Livro estão aí. Curtimos o 2º Centenário da vinda para o Brasil da Corte Portuguesa. Não sei se isso foi bom, se isso foi mal (aposto mais na primeira hipótese), mas ajudou a formar o Brasil como nacionalidade. Dos três livros, 1808 é o mais longo, mas rico em fatos de natureza histórica. O Sol do Brasil é considerado o mais intelectualmente sofisticado, requintado. O Chalaça conta, através do texto irreverente do autor, a história de um personagem caricato da nobreza, mas que é uma espécie de retrato do lado menos sério do brasileiro. Os três livros são muito bem escritos. Mãos à obra, portanto.
1808
A fuga da família real portuguesa para o Rio de Janeiro ocorreu em um dos momentos mais apaixonantes e revolucionários do Brasil, de Portugal e do mundo. O propósito deste livro, resultado de dez anos de investigação jornalística, é resgatar e contar de forma acessível a história da corte lusitana no Brasil e tentar devolver seus protagonistas à dimensão mais correta possível dos papéis que desempenharam duzentos anos atrás. ‘1808 - Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil’ é o relato sobre um dos principais momentos históricos brasileiros.
O Sol do Brasil
A historiadora Lilia Moritz Schwarcz se debruça sobre a vida e a obra do pintor francês Nicolas-Antoine Taunay. Um ensaio a respeito do imaginário francês sobre os trópicos, da arte neoclássica e da vinda da família real portuguesa e do grupo que a historiografia batizou de ‘Missão Artística Francesa’. Um livro de muito conteúdo e que retrata o Brasil de 200 anos passados com muita sensibilidade e arte.
O Chalaça
O romance contém as supostas memórias do conselheiro Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, fiel secretário particular de D. Pedro I, personagem que viveu os mais importantes fatos do nascente Império brasileiro. Torero recria brilhantemente - e com humor implacável - a vida deste que teria sido um dos mais importantes auxiliares de Pedro I, não só na política, como em seu dia-a-dia - era sua atribuição, por exemplo, intermediar os encontros do Imperador com as filhas de Eva.
Estou a mais de meia hora olhando essa tela tentando escrever meu post, mas minhas avós ainda não chegaram (como se não bastasse tá inventando palavra no título, essa intimidade com quem ainda nem foi apresentada) e estou tentando me basear nos post dos outros colegas para fazer o meu. E como se faz isso sem cair no pecado “concordo com fulano, discordo de beltrano”? E ainda me fica aquela sentimento de “não gastar munição antes de começar o tiroteio”.
Lesbianismo e incesto… pois é né? Nem era para ser polémico. Amizade, amor… eeeiiii, a gente tá falando do mesmo livro??? Eu jurava que ia ler um história de duas senhoras amorosas que sentam em suas cadeiras de balanço para bordar enquanto um delicioso cheiro de bolo de fubá inunda o ambiente… Que coisa!!!
Mas é essa a visão de avó que 90% das pessoas tem. E isso nao mudará de uma hora para outra. Não estou levantando bandeira para acabar com essa imagem doce e terna da vovó, por favor, minha veia revolucionária foi clampeada a algumas décadas… NAO MUITAS, pois só uma jovem avó!
Porém, gostaria de levantar uma questão: se fosse “As tias”, mudaria alguma coisa? Eu sei… ninguém aqui está “chocado” com duas velhotinhas lesbicas, mas e o mundo?
Estranheza. Perplexidade. Um impulso de subverter o curso da história, refazendo a própria história. A relação amorosa das duas amigas (avós, o que reforça a diferença de idade) e seus respectivos filhos, é encoberta pelos planos para que uma vida rotineiramente tradicional se estabeleça. Como a diferença de idade é um dos plots do conto, vamos pular da ficção para a realidade.
50 ANOS DE DIFERENÇA
Tive dois namorados (não simultaneamente! Minha “modernidade” não chega a tanto…). Entre os dois, uma diferença de 50 anos. Ou seja: tive um namorado 25 anos mais novo que eu e um outro 25 anos mais velho. Geralmente, a pergunta que eu mais ouvia, em especial dos homens, quando contava isto, era: -E qual era o melhor? Entenda-se, aqui, “melhor” como desempenho sexual! Que parece ser uma grande preocupação masculina (me corrijam os homens, se eu estiver errada).
O problema, para mim, é definir este melhor. Lembro o que disse uma das minhas filhas, quando ela tinha 18 anos, sobre seu recente namorado. Ela, toda orgulhosa e muito segura de si: -Ah, está maravilhoso! Nós temos uma relação fantástica na cama, perfeita.
Caramba! Ou minha filha tem o dom da sabedoria precoce, ou eu era uma completa idiota aos 18 anos (agora, menos completa).
Voltando aos comentários. Em relação ao namorado que era mais velho, o comentário do filho dele: -Ela só pode estar interessada no seu dinheiro.
Em relação ao mais novo, comentário da família e dos amigos: -Ah, ele só pode estar interessado em seu dinheiro!
Parece que existe um tabu nas relações afetivas que transgridem as barreiras geracionais e que, portanto, só podem se estabelecer segundo os critérios de valoração na sociedade atual: sexo e dinheiro. Preconceitos que achamos superados Estarão mesmo? No caso do meu namorado mais novo, existia um outro componente, pois ele possuía um cabelo super longo e eu, na época, usava cabelo Joãozinho, bem rente. De costas, segundo os critérios vigentes, eu parecia o menino e ele a menina… Mas aí já entra a questão de gênero -também presente no conto-, que fica para o próximo post.
Uma coisa que achei linda no livro foi a amizade das avós. O jeito delas de saber o que a outra pensava ou sentia, a forma de se comunicar, mesmo em silêncio. Como disse no outro post me apaixonei por elas e só depois de baixar o livro e parar pra pensar sobre ele comecei a ver coisas que me incomodaram…
Uma delas foi a separação da Roz porque o marido se sentia excluído. Eu já presenciei uma amizade assim, que não precisa de mais ninguém e onde duas amigas se bastam… pode até ser algo lindo e gostoso de vivenciar mas é cruel com aqueles que amam as amigas e são mantidos sempre do lado de fora!! A amizade que não tem espaço pra liberdade é como aquele amor bandido que isola e separa os amantes de todas as outras pessoas amadas.
O ser humano precisa de amor mas o amor verdadeiro não isola, não poda nem impede mais amor. O amor verdadeiro atrai ainda mais amor e cria cada vez mais vínculos e mais laços!! Então fico pensando… será que a Roz e a Lil se amavam mesmo ou era só uma sensação de posse que impedia que elas amassem outras pessoas?!?! O que vocês acham??
Beijos, Dani
“Ler pelo prazer de ler”. A proposta que levou à escolha de As Avós como um dos livros deste clube está se cumprindo integralmente. E isso se dá porque e em primeiro lugar, o livro é uma delícia, envolvente, charmoso e que nos proporciona, de fato, o prazer da leitura.
Mas o que provoca este deleite? No meu entender, ele se prende à linguagem usada, que é refinada, e construída de forma a oferecer o envolvimento do leitor, mas a beleza das construções, com excelentes figuras de imagens que acabam nos transportando para o ambiente em que a história se situa, um local próximo da praia, casas próximas, ligação de amizade extremada, exclusão de quem não participa do círculo íntimo, etc.
Em relação à edição brasileira, que li, considero que a tradução foi excelente, já que conseguiu manter o clima do livro. Esta, infelizmente, não é a regra no caso do Brasil. Em muitas obras expressões idiomáticas, por exemplo, são traduziadas ao pé da letra, fazendo com que perca o seu sentido original. Não foi o que aconteceu com As Avós. E isso contribuiu para manter o clima do livro, torná-lo envolvendo e, realmente, transformar a leitura em um prazer.
No final, a história é a celebração da amizada, mas uma amizade tão profunda que, poderíamos dizer, se transforma em dependência mútua, é excludente, constrói um muro em volta e exclui o mundo. Não é, se olharmos bem, um ambiente saudável. O dr. Sigmund na certa acharia isso meio estranho e teria, não tenho dúvida, uma teoria para a classificar.
Acho que esta situação fica bem evidente quando Harold, diante do convite para lecionar em uma outra ciadade, anuncia sua intenção de mudar, estabelecendo-se um diálogo sobre o relacionamento dele e de Roz, para concluir: (…)mas não é comigo que você tem uma relação?”. Logo depois, Roz conta a Lil o que aconteceu e esta fica surpresa, afirmando que Harold foi quem se excluiu.
O que acontece, no final, todos nós sabemos: o envolvimento com os filhos - uma da outra - e a descoberta pelas mulheres dos filhos. Com isso, e com a promessa de que nunca mais verão as netas, quebra-se o muro, abre-se nele uma brecha. Mas permanece a ligação Lil Roz e delas com os filhos, ligados não só pela maternidade, mas, como já disse, por um tipo de relação quase incestuosa.
Ainda nao li o livro. Passei por um periodo de ferias dos blogs e me ausentei domingo passado aqui do Clube por pura exaustao. Mas, bola para a frente que atras vem gente… hoje ja coloquei tudo em dia, li todos os posts que perdi e devo confessar que isso so me fez ter mais vontade de ler e de hoje nao passa !
Como ainda nao li, hoje vou falar de algo que acho super interessante que eh o processo criativo. Afinal, o que define um livro bem escrito o qual temos tanto prazer de ler se nao a capacidade criativa e descritiva de algumas pessoas tal como a Doris ?
O processo criativo eh algo de fato interessante e ao mesmo tempo intrigante. Aposto que muitos de voces tambem ja tiveram a mesma impressao que eu ao escutar a entrevista com algum musico famoso e se decepcionar com a falta de expressividade ou ate mesmo com sua antipatia e sua falta de vontade em dar entrevistas e interagir com o publico. Muitas vezes nos perguntamos: Como eh que pode esse “mala sem alca” ter criado algo tao genial, tao doce, tao lindo ? O problema eh que a maioria das vezes vemos a obra pronta, mas nao o processo criativo. E durante o processo criativo essas pessoas geniais muitas vezes se transformam em pessoas desconhecidas ate mesmo para os proprios criadores. No entanto, eh facil para nos entender e respeitar as excentricidades do Joao Gilberto apos ve-lo executar a musica “chega de saudade” com uma perfeicao impar por conta de sua insistencia por uma afinacao perfeita. Por outro lado isso eh ainda mais complexo de entender no caso de um escritor que jamais veremos em acao de fato.
Alguns autores se trancam em seus quartos com suas maquinas de escrever ou computadores. A necessidade de ter seu proprio quarto ou cantinho para se isolar do mundo real e entrar no mundo criativo foi discutido muito seriamente por Virginia Woolf, escritora britanica que escreveu um trabalho entitulado A Room of One’s Own com a famosa frase: “a woman must have money and a room of her own if she is to write fiction”, nos colocando a importancia de se ter um lugar so seu para escrever e criar uma obra. Esse era o argumento que ela encontrava para justificar o fato de nao haver muitas mulheres escritoras na epoca dela.
Mas como sera essa cantinho de cada escritor ? Acho que nao precisa ser necessariamente um quarto ou um escritorio sombrio cheio de fumaca de cigarros. Pelo contrario, pode ser algo totalmente diferente. Simone de Beauvoir por exemplo escreveu a maior parte de suas obras em cafes, o mais famoso deles eh o Cafe de Flores que fica na Saint Gremain des Pres em Paris. O cafe ainda existe e mantem a mesma decoracao Art Deco da epoca, mas apesar de caro pra caramba vale super a pena entrar e tomar um chocolate quente so para reviver a atmosfera aonde tantos escritores brilhantes costumavam passar horas de seus dias e aonde tantos personagens interessantes foram criados.
Neil Gaiman, escritor de ficcao cientifica e quadrinhos, incomodado com a dificuldade das pessoas entenderem esse tal processo criativo de um escritor, decidiu ficar por algum tempo escrevendo dentro de uma sala de vidro em um ambiente publico. Uma especie de reality show para escritores. Eu ja vi isso em algum dos lugares que estive e achei engracado.
O problema eh que infelizmente nao ha nada de magico acontecendo dentro do quarto de um escritor durante o processo criativo pois ele todo se passa dentro de sua cabeca. Nos de fora veriamos apenas o silencio… absoluto silencio… e ignorariamos por completo todo o mundo magico que esta sendo criado naquele exato momento, dancarinas pulnado de uma pagina em branco, musicas tocando ao fundo, personagens dos mais variados disputando espaco em cada linha. Uma magica que nao nos pertence e que muitas vezes nao tem nada, absolutamente nada, da pessoa que a esta descrevendo.
As vezes um personagem aparece para um escrito logo na primeira pagina que ele escreve e toma uma grandeza absoluta durante o decorrer do livro. Lendo algumas obras da Simone e acompanhar depois ou simultaneamente as suas biografias aonde a mesma descreve como criou e de onde surgiram seus personagens me fez admirar ainda mais todo esse processo criativo que na minha concepcao eh uma coisa completamente bela. Uma realidade inteira tomando forma e vida no plano imaginario. Ao escritor so resta descrever a cena que esta visualizando e dependendo de sua capacidade descritiva a obra sera boa ou nao no final. Cabe ao autor saber descrever o que esta passando em sua cabeca da melhor maneira possivel, quase que como uma fotografia. Os personagem ? Esses muitas vezes tomam vida propria sendo dificil para o autor mudar sua fatalidade.
Mas de onde vem esses pensamentos ? De onde nascem essas cenas ? Muitas vezes da vida diaria, de uma cena que se passa em uma cafeteria, um sonho, um movimento ou a propria falta de movimento. Uma simples sementinha na cabeca de uma mente criativa eh mais que o suficiente para gerar uma obra interia.
A Doris Lessing nos conta como funciona com ela esse processo criativo tao interessante nesse video abaixo.
Nesse outro link aqui voce pode escutar uma entervista com a Doris, ainda mais completa do que a do You Tube, aonde ela tambem fala sobre o processo criativo.
Entao eh isso… agora chegou a hora de eu ir fazer meu chazinho e ler meu livro para tentar reproduzir o que passou na cabeca da Doris em um desses momentos fantasticos do processo criativo ! Que certamente se deu em um quartinho comum no suburbio Londrino e que foi descrito fielmente por uma maquina de escrever antiga, como ela mesmo descreve
beijos para todos e ate semana que vem !
Lys
O que gera discussão? O que mobiliza nosso corpo, nossa mente? A estupidez de um ato? A beleza poética? Algo pelo qual nos sentimos próximos? Pois é. Não sei se chamou a atenção de vocês, mas o livro A Desonrada, que lemos antes deste da Doris Lessing, só na primeira semana, rendeu 30 comentários. As avós? No mesmo período, apenas 3 (e que para dizer a verdade, nem chegavam a ser comentários de fato). Então pus o tico e o teco a funcionar: o que este dado significa?
OPINIAO ABERTA
Claro que as justificativas são sempre muitas; problemas, outras prioridades, etc. e tal. Então TODO mundo naquela semana da Desonrada tinha tempo para se mobilizar e ninguém nesta (inclusive eu!)? Deixemos de lado as explicações racionais (até porque estão sempre à mão e são utilizadas para mascarar os motivos porque deixamos algumas coisas de lado ou para depois) e pulemos para o próximo capítulo. A Desonrada trata de um tema em que todos temos uma posição firme, já estabelecida. Estupro? Agressão à mulher? Mesmo com as vírgulas e os “mas” (um parênteses para o respeito à diversidade cultural), podemos escrever sobre A Desonrada e clamar aos céus. Tem mais: o livro possui um tom de escrita quase infantil – uma catarse que nos libera para escrever. Doris Lessing? Isso já é outra história.
POLITICAMENTE CORRETO
Seriam os temas abordados em As avós menos polêmicos? Na minha opinião, são mais polêmicos. Tão polêmicos, que fica difícil articular um comentário – mais: quem quer parecer reacionário e discordar? Outro detalhe: como Doris escreve com sutileza, nada é tão preto no branco (ops! Isto está politicamente correto? Ou temos que escrever afro-descendente no euro-descendente?). Isto torna difícil uma tomada de posição. Quais são os temas que perpassam o conto? A amizade fechada de duas mulheres – uma amizade tão intensa, que resvala no lesbianismo. O amor sexual de duas mulheres já velhas por dois jovens – seus filhos, na idade e na forma como interagem. Talvez a transferência do amor lesbiano não realizado. E há também a inveja de um cenário perfeito, ideal – mas que não passa de cenário. Ou seja: o dilema das aparências.
TAO PERTO, TAO DISTANTE
Existe também a questão da proximidade; ou seja; o fator de identificação. Este aspecto é muito estudado em jornalismo e propaganda, pois desejamos que o público-alvo tenha uma reação X ao que escrevemos. Por isso, coloca-se em destaque pontos que podem ser facilmente mapeados, para que o outro “leia” aquele mundo. O quanto nos afeta o assunto abordado? A questão do estupro – em A Desonrada – atinge 1 em cada 4 mulheres. Conhecemos alguém. Podemos ser a próxima ou o próximo envolvido. Será que o ser humano só reage quando é de fato cutucado na própria carne? Algo assim como estas pessoas que só percebem a criminalidade e a violência quando são atingidas por ela. E saem em passeata, e escrevem, e protestam, e se engajam. Onde estavam elas antes? O incesto está neste caso? Distante e dificil de falar sobre o assunto? E o sexo entre gerações? Não uma pequena diferença, mas um diferença de 40 anos? Um a mulher de 55 anos com um jovem de 15 anos? 54 com 14? Qual o limite do aceitável? E por que? No próximo post, falo um pouco sobre minha experiência pessoal. Boa semana para todos! Ethel SC
Assim como a garçonete do Baxter´s eu também me apaixonei pela família… pelo Tom, pelo Ian, pela Roz e pela Lil!!! Me apaixonei pela intimidade, pela proximidade e pelo amor deles!!! Dá pra imaginar uma família assim tão linda?!?!
Na verdade não dá!! É por isso que eles não são tão lindos assim… por isso tem o quase incesto, tem a amizade excludente, tem duas mulheres sozinhas, muito sozinhas e corações partidos!!!
Mas tenho que confessar que só depois de mais de 24hs de largar o livro consegui ver os defeitos da família porque eu tinha me apaixonado!!!!
Senta que as próximas discussões prometem!!!
Mil beijos, Dani
Uma das questões que o livro As Avõs põe é o do relacionamento amoroso ou apenas pelo sexo entre pessoas de idades diferentes. Doris Lessing trata da questão com todo cuidado, contando o geral, mas omitindo as partes (?). No entanto, fica, no final - pelo menos foi o que senti - que o relacionamento entre os quatro personagens do livro - as duas avós e seus filhos - é quase incestuoso.
O que leva a esta impressão é o fato de as duas avós serem amigas de sempre e para sempre e terem criado os filhos juntos, de tal forma que no final as duas eram mães deles. Então, o relacionamento que daí decorre, a proximidade entre os quatro, acaba levando a um outro tipo de relacionamento, que nada tem de filial, mas avança para o complexo de Édipo realizado.
Além do relacionamento carnal, quase uma troca de filhos, há, de outro lado, um aspecto interessante para se discutir a partir do livro, que é as amizades fechadas, que não permitem a inclusão das pessoas e criam um mundo todo particular, so entendível para quem está dentro. É o caso de As Avós. De tão amigas, cúmplices mesmo, elas criaram um mundo particular, só delas, que não admitia gente de fora.
O que se pode questionar é se tal amizade é saudável. Usando uma analogia, é como se fora o sistema solar, com tudo girando em torno de um centro. E nele estão as duas avós. Na verdade, elas têm vida fora desta amizade, mas a impressão que a narração dá - pelo menos no meu entendimento - é que ela é secundária. O que as sustenta, na verdade, é a amizade sem limites, ao ponto de suportarem que seus filhos se tornem amantes da outra.
Como criaram um mundo particular, só delas - nele incluindo os filhos - elas podem estabelecer as regras de convivência, sendo que todas elas se submetem ao que querem, ao que pensam. E estas regras não têm de ser, necessariamente, as da sociedade. Daí a naturalidade com que o quase incesto é tratado.
Vamos começar o post de As Avós como se esse artigo não fosse coisa séria. Mas é. Um belo dia, cansado de conviver diariamente com as diatribes do governo Lula, e também de tanto ler e ouvir sobre escândalos, Chico Buarque de Holanda propôs ao presidente, que já tem 38 ministérios, a criação de mais um: O Ministério do Vai Dar Merda. A ele seria dada a incumbência de evitar que a sucessão de escândalos e besteiras aumentasse além da conta. Além disso, acenderia a luz vermelha sempre que algo pudesse dar em merda.
As Avós é a típica história que teria de terminar dando errado. Em merda, no caso. E acaba sendo deliciosa de ler, e de ser lida em um único fôlego – no meu caso, com parada apenas para o almoço –, pois é impossível não curtir aquela trama que, desde sua metade, encaminha-se inevitavelmente para um final de comédia pastelão apesar da carga dramática dos momentos finais. Que, aliás, estão divididos entre as primeiras e as últimas páginas de forma magistral.
As Avós romperam com todas as convenções sociais vigentes. E o mais interessante na trama é que seu maior álibi se sustentava na visão equivocada de um senhor maduro apaixonado por Lil e que, num belo dia, chegou à terrível conclusão de que ela e Roz eram lésbicas. Amantes, por tão próximas, tão presentes uma na vida da outra. Isso as deixou tranqüilas. E como…
A novela (é uma novela) de Doris Lessing, escrita de forma magistral, mostra que algumas coisas a gente não deve registrar por escrito. Nem com a infantilidade com que se escreve de sopetão, nem com a maturidade preservacionista com que se guarda certos escritos por candura. Rupturas de convenções sociais são guardadas somente na memória. Até porque, nela, a gente pode manipular as recordações e dar asas à imaginação.
Quem nunca rompeu com uma convenção social? Que homem nunca teve atração, por exemplo, por uma priminha linda? Que mulher jamais se sentiu atraída por um exemplar do sexo oposto bem mais jovem? E aqui estou falando somente do que o livro trata: de relacionamento heterossexual maduro, furtivo, escondido, definitivamente a minha especialidade. E sem querer tecer críticas a quem prefere o inverso ou incursões em ambas as opções dessa atividade.
As Avós não é uma história aética. Nem amoral. Nem, muito menos, imoral. Não agride, embora transgrida. Ela conta em pouco menos de 100 páginas – repito, magistralmente escritas – um fato perfeitamente possível. Quem não conhece ao menos uma história do homem e da mulher que se apaixonaram, mesmo ambos sendo os melhores amigos dos parceiros do outro?
As Avós tiveram paixões que eram para elas, irresistíveis, iguais às dos exemplos citados acima. E foram correspondidas. O mais é considerar que, se elas tivessem o auxílio do conselho de Chico Buarque de Holanda, não teriam deixado o rastro que deixaram. Mas aí a novela não seria o primor que é.
Faltando 22 páginas terminar a leitura do conto eu vou lhes falar a verdade: nunca (ou quase nunca) leio nada desse pistolões, vencedores prêmios, colecionadores de títiulos, medalhas, louros e outros quetais. Geralmente escolho livros de autores nao muito conhecidos, sem muito auê em torno de suas obras. Como a gente está aqui no Clube tentando diversificar, resolvi também dar uma mudada nos meus conceitos e propus autores reconhecidos e comentados pra essa rodada de leitura. Por sorte e pra meu deleite, essa moca escolhida por vocês, autora de As Avós, está entre as grandes, mas mantém de certa forma a frescura (e ironia) comum aos pequenos independentes e contestadores.
Acho que acabo essa noite mesmo o livro. Vinte e duas páginas left , e a Lessing já ganhou uma nova fã.
Beijo pra vocês e bom fim e semana.
Meu livro ainda não chegou, e creio eu que terei problemas dessa vez pois o correio aqui no primeiro mundo, onde tudo funciona é lindo, perfeito, sem falhas, está em greve sem previsão de voltar ao trabalho. Não é maravilhoso pagar impostos tao altos, vender uma imagem de está morando no paraíso terrestre e pegar uma rabiçaca dessa? Sinceramente, estou a beira das lágrimas de pura emoção.
Bom, na falta das minhas avós, nao quero ler os post dos colegas agora para não ser influênciada, vou voltar ao tema Violencia por tradiçao ao qual, por problemas de cunho técnico e pessoal fiquei devendo os dois ultimos post.
A Lys não poderia ter encerrado o tema de melhor forma ao nos presentear seu ultimo post onde abrange a violência como um todo, de um todo. E vocês viram como é fácil prever e tratar dela? Infelizmente, esse tratamento, na forma em que se encontra hoje nosso mundo é lento, muito lento, por pura falta de infra-estrutura do estado, da família, da igreja em fim, todas as instituiçoes que de uma forma ou de outra são resposáveis por nossa criação. É muito fácil jogar a culpa no outro, tomar um pouco dela para sí AGIR é o problema.
O homem quando vivia nas cavernas (eu nao estava lá, que fique bem claro) era obrigado a lutar para sobreviver. Seus instintos animais eram aguçados e qualquer ameaça era respondida com brutalidade para se defender e sobreviver. Trouxemos isso para a vida moderna. Por mais civilizado que tende a ser a raça humana, e nesse ponto as mulheres estão anos luz a frente dos homens, (ou vocês já viram um homem sentar para discutir a relação?) sua constante necessidade de provar que é mais forte tras de volta o primitivismo teoricamente deixado para trás!
Isolar-se do mundo, criar um novo universo – mas quando o artista (em qualquer arte, em todas as formas) abre uma porta para este território, nós espiamos, entreolhamos – e mergulhamos neste aquário.
Um pouco do cotidiano se esvai. Um pouco da rotina se desmancha no ar. Mas ao fechar a última página, voltamos para o nosso dia-a-dia, destino irrevogável.
E assim é, assim será com as duas avós: elas criam seu próprio mundo. Desde crianças, um caminho de proteção, um aquário construído por ambas, para se protegerem de tudo que escapa à compreensão. Fogem, pela amizade, ao bullying, à família, ao casamento cujas aparências mascaram, como um vidro sujo do aquário, os tesouros enterrados na areia.
E tentam – ah!, como tentam – quebrar estes vidros que aprisionam, mas, ao mesmo tempo, libertam. No entanto, isto não é possível. O destino das vidas entrelaçadas está amarrado. E a história se repetirá - quem sabe? – com as netas que crescem à beira-mar. E o livro, em tom poético, esconde, na verdade, a violência daquilo que a sociedade não aceita e a desesperança do irrealizável. Ethel SC
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PS: Eu não li o Carnê Dourado, o livro mais famoso de Doris Lessing. Mas, pegando o gancho do Lino, não dá para julgar um autor só por um livro (embora… bom, deixa isto prá lá, vou falar no assunto em outro post!). Doris tem até um pseudônimo, Jane Somers, com o qual publicou novelas sem ter o “peso” da fama. Até que descobriram, claro! Mas quem não tem estas múltiplas personalidades? Até as avós do livro – amigas, mães, avós, amantes.
Crédito da foto: Woman in line. Performance. Criação e foto de Bianca Scliar.
