Ou a tradição da violência? Porque ela não se restringe à mulher. Do homem contra a mulher. É homem contra homem. Mulher contra mulher. Nação contra nação. Pele contra outra pele. Os fatos não me deixam mentir: André São Pedro, 22, estudante de farmácia, Maria Dias, 24, estudante de medicina e Thaís Tibiriçá, 24, estudante de jornalismo,brasileiros, foram barrados em Dublin. 48 horas na prisão. André é negro. Maria, morena. Uma garota de 12 anos é mantida acorrentada e espancada. Responsável: Sílvia Calabresi Lima, 41, empresária. Do marido, no mínimo cúmplice por omissão, nada se sabe. Os fatos relatados causam espanto e horror – mas se repetem continuamente e nada parece mudar.
Naturalmente violento
Será a espécie humana, como outras, naturalmente violenta? Afinal, é o homem que mata outro homem, seu vizinho, seu amigo, gente do mesmo agrupamento, coisa que poucas espécies fazem. Aponta-se a educação como saída para reverter tais fatos. Mas o ato de educar é violento – da violência física, até pouco aceita e estimulada, à violência psicológica. Bater com o chinelo, bater com cinto, dar umas palmadas ou uns cascudos – isto ainda é considerado “educar” em muitas famílias. Apenas 16 países no mundo proíbem que os pais dêem palmadas nos filhos. Na América Latina, somente o Uruguai. Para a sociedade, este é um “direito” dos pais (voltarei ao assunto no final do post: direitos x violência).
Paulo Sérgio Pinheiro (USP) realizou uma ampla pesquisa e encontrou dados estarrecedores. Em 106 países, é permitido que as escolas empreguem castigos corporais. Quando se trata de instituições assistenciais, o número sobe para 147 países. Em casa, como já vimos, o uso é generalizado.
Escândalo através dos séculos
O hábito de bater em crianças escandalizou os índios brasileiros, durante a colonização. Bater em crianças é algo impensável nas tribos. Não que eles fossem “bonzinhos”. Sua violência manifestava-se de outras formas. Além da violência física, há a violência psicológica. Fiz um trabalho prático com meus alunos de Mídia Eletrônica, em que eles precisavam desenvolver uma campanha publicitária para combater o bullying. Bullying é uma espécie de assédio moral (outra forma de violência) nas escolas. Estudo da ABRAPIA, Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência, demonstrou que 45% das crianças e jovens do Rio de Janeiro envolvem-se com a prática do bullying, seja como vítimas, seja como alvos (muitas vezes, das duas formas). Os números são condizentes com pesquisas realizadas em outros países. Pois bem, no final da aula, uma das alunas me procurou, com lágrimas nos olhos –“Então era isto que faziam comigo!” Contou que, aos 18 anos, fez uma cirurgia só por causa dos traumas que ficaram da infância. Os professores? Ausentes.
Vergonha, vergonha, vergonha
Vergonha, acreditar que a dor interna é normal, que isto acontece com todo mundo são alguns dos motives que levam as pessoas a se calarem. Mukhtar tem o mérito de ter falado, aberto a porta para a discussão do problema – um passo para encontrar a solução. Se somos violentos por natureza, o que fazer com esta violência, negada e renegada? Existe uma violência “do bem”?
As fronteiras da violência
O impulso da morte – Tanatos – foi desviado através dos tempos para rituais religiosos. Rituais de dança. Rituais de competição. Nos esportes, dos gladiadores gregos aos cavaleiros medievais; da caça à luta de boxe. Já tentaram me convencer que luta de boxe é um balé. Balé? Qual a graça de ver dois homens se esmurrando? Qual a graça de uma tourada? De uma farra do boi? Uma rinha de galos?
É claro que muitos irão alegar que existe uma graduação na violência, mas estabelecer este “termômetro” me parece muito difícil. Na época da abolição, os escravocratas se revoltavam com a perda do seu direito à propriedade. Sim. Os escravos eram “bens”, portanto, propriedades, direito este que a abolição estava violando. O mesmo direito que, hoje, os pais alegam em relação aos filhos. Assim, a questão da violência acaba tangenciando a questão dos direitos, mas todo direito positivado (adquirido) acaba por negativar um outro direito. O direito da criança de não receber palmadas significa a restrição da liberdade dos pais de darem palmadas, significa o direito do Estado interferir na vida privada. Por mim, lutas de boxe (e qualquer tipo de luta) seriam proibidas. Extremismo? Pode ser. E as violências do bem, como a arte? Já foi citado aqui o filme Laranja Mecânica. Ok. Mas como ficaria o Clube da Luta? E as panfletagens que inflamam as massas? Qual o limite e a fronteira entre uma violência aceitável e uma que deve ser combatida?
O Livreiro de Cabul, cuja história virou livro, considerou a publicação uma violência sem fronteiras – pois a vida morre, mas as palavras ficam.

8 comments
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Março 27, 2008 às 9:04 am
Mercia
Scliar,
bom demais seu texto…. acho que vou passar o dia hoje meditando a respeito disso.
o homem é um animal violento… acho que até um dos mais violentos entre os animais… porque, como vc falou, não respeita nem seu próximo e nem seu próprio habitat.
Mas o que fazer com essa informação? Será que isso ajudaria na busca de uma solução para essa violencia toda? numa grande discussão?
Ou isso é apenas a nossa sentença de morte porque já sabemos que somos mesmo assim e no final vamos todos nos destruir a nós mesmos.
Desculpe o pessimismo… nos últimos dias tive várias discussões sobre esse mesmo tema e até agora não consigo ver nenhuma luz…
Beijos
Março 27, 2008 às 10:12 am
danipontes
Adorei o post!! Vc fala tao bem e coloca tantos pontos chaves q me incomodam como o bullyng, o bater nos filhos!! Isso eh uma forma poderosa de violencia!!! Ate a estereotipação da sociedade, a mulher modelo q aparece em todas as capas eh uma bruta violencia!!!
Lembro qdo minha irma mais nova tinha uns 6 anos e quebrou o braço, ela chorava dizendo que nao queria o gesso pq ia ficar feia!!! Ela nao queria ir a escola com o gesso pq dizia q estava feia!!! Imagina uma criança de 6 anos se preocupar com isso?!!?
Essa semana ta me fazendo parar pra pensar…
Gostei mto!!!
Beijos, Dani
Março 27, 2008 às 8:42 pm
Luciane
Oi, Scliar!
Muito interessante o teu texto.
O lance do bullying é tão discutido aqui na Suécia; todas as escolas têm grupos anti-bullying, esse assunto é tema de programas na tv e artigos de jornal, etc. Eu acho até que o problema aqui tem proporcoes bem maiores que no Br por vários motivos, um deles é cultural mesmo. A outra forma de violência que tu e a Dani citaram, o bater no filhos, aqui também é criminalizado desde 1979, se não me engano. As criancas aqui falam para os pais, quando se sentem ameacadas, “se tu me bateres, eu ligo pra polícia!”. Parece exagero, mas é isso mesmo que acontece.
Eu tô como a Mercia, matutando muito sobre esse tema. Não acho que sejamos seres violentos por natureza, mas tenho que “comer muito mais feijão com arroz” pra chegar a qq conclusão.
Beijão pra ti.
Março 28, 2008 às 2:21 pm
Kenia
Aproveitando o tema Violência por Tradição, gostaria de convidar vocês a lerem o meu post de hoje sobre Fitna, um curta do deputado holandês Geert Wilders, que aborda a questão do islamismo do ponto de vista do terror e da dominação religiosa.
O filme caiu na rede ontem.
Beijo e um bom dia pra todos.
Março 30, 2008 às 11:49 am
Lys
Kenia, valeu pela dica… vou la ler mais tarde.
Scliar… fantastico seu post. Voce lembrou muito bem da questao das “palmadas” e tambem do bullying que tambem acontece no Brasil. Ja ate te citei no meu post de hoje pois tem um pedaco que seu post cai como uma luva. E tomo a liberdade de incluir os trotes nas faculdades que na verdade eh apenas um “bullying na fase adulta”. Sem falar nos bullyings adultos que acontecem nas empresas, no ambiente de trabalho, nas academias de ginastica etc… Sem duvida a violencia esta em todas as partes e dividir entre violencia do bem e do mal nao faz o menor sentido.
Em astronomia, ou em ciencias exatas, costumamos trabalhar muito com estatistica. Calculamos uma media e dizemos que um comportamento eh aceitavel dentro de 3 sigmas de desvio dessa media. Tudo que esta acima desses 3 sigmas deve ser estudado com cuidado. Tratado esses pontos “fora da curva” calculamos uma nova media, com novos sigmas e dessa forma teremos nossos pontos fora da curva que nao apareciam antes.
Nao sei se expliquei direito mas costumo pensar assim nesse caso de violencia. Se formos resolvendo os “pontos fora da curva” por vez… certamente chegaremos la. A definicao de um padrao de comportamento vem a partir da media. E sei que as vezes nao eh muito bom, como nos casos que voce citou dos paises da America Latina e tambem no caso do Paquistao, como vimos no livro.
Muitos beijos
Lys
Março 30, 2008 às 3:41 pm
A Neurobiologia da Violencia « Clube do Livro
[...] dao continuidade as agressoes em suas familias, com os filhos e companheiros (a Scliar escreveu um post super legal que se encaixa bem aqui nesse ponto) . Esse ambiente domestico eh determinado pelo comportamento [...]
Março 31, 2008 às 3:04 am
Geraldo Gomes
Não sou “parte” integrante do “universo acadêmico” nem muito menos especialista em comportamentos humanos porém sou sabedor que a violência é uma indùstria fabricada pelos seres humanos que gera lucros e que proporciona felicidades.Quantos “tipos” de violência existem?Será que existe algum especialista ou Dr.que possa-me responder tal pergunta?Tambem sou sabedor que a maior das violências é a INDIFERENÇA e lamentavelmente sou descobridor de que não existem seres humanos com propósitos SÈRIOS para erradicarmos a violência no planeta terra.EX:Somos incapazes de renunciarmos e repudiarmos os “MEIOS” que fazem com que o “espírito” da mesma “manifeste-se”.O que é a violência?Por que somos reclamantes da mesma se somos a “CAUSA?Qual corrente de conhecimentos nos oferecerá o conhecimento da não-violência?Por que não existem homens ou mulheres talentosas ou genios na prática da não-violência?Tenho me comunicado com o “mundo”Ex:onu.oea.anistia internacional,unesco,parlamento europeu,veículos de comunicação internacionais e nacionais,universidades,autoridades e pessoas do povo de diversas regiões terrestre perguntando-lhes:O QUE ESTÃO FAZENDO PARA QUE HAJA A PRIMEIRA ERA DA NÃO-VIOLÊNCIA NO PLANETA TERRA?Comentando-as,divulgando-as,propagando-as,saibam que tais atitudes também é uma violência.Se desejarem conhecerem ideias séria e equilibradas acessem:{www.geraldo-gomes.blogspot.com}Depois de conhecerem todo conteúdo do mesmo espero que compreendam de que nada fazemos para o desativamento e desarmamento da ARMA [o ser humano]mais letal e destrutiva do planeta terra.
Março 31, 2008 às 11:17 am
Lys
Geraldo, obrigada pela participacao aqui no clube do livro. De fato nao eh necessario ser academico para saber sobre a violencia, afinal, estamos submersos nela. E essa nem eh a pretencao aqui no clube ja que ninguem eh especialista em violencia e nao acredito que alguem queira se dedicar a essa area no futuro. Estamos apenas dando nossos pitacos… e o seu pitaco tambem eh muito bem vindo.
No entanto, eh injusto pensar que nada esta sendo feito nessa area. Com a leitura do livro e depois as pesquisas que fiz para escrever meus posts descobri que existem varias pessoas estudando isso sim na area de psiquiatria. De uma pesquisada melhor pois voce ira se surpreender. Eu fiz isso e fiquei bastante contente de ver a “mocada academica”
se dedicando com forca para entender melhor os tipos de violencia, consequencias, e ate mesmo os possiveis tratamentos.
Comece lendo esse post que escrevi nesse link aqui. Sugiro que voce baixe e leia o texto que estou indicando na integra e note que la tem varias bibliografias. Se voce estiver interessado no tema, certamente encontrara inumeras respostas lendo todas as bibliografias no artigo e assim por diante.
Um abraco,
Lys