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A violência por tradição
Março 26, 2008 in Uncategorized | Tags: bullying, liberdade, palmadas, violencia educacional | by scliar | 8 comentários
Ou a tradição da violência? Porque ela não se restringe à mulher. Do homem contra a mulher. É homem contra homem. Mulher contra mulher. Nação contra nação. Pele contra outra pele. Os fatos não me deixam mentir: André São Pedro, 22, estudante de farmácia, Maria Dias, 24, estudante de medicina e Thaís Tibiriçá, 24, estudante de jornalismo,brasileiros, foram barrados em Dublin. 48 horas na prisão. André é negro. Maria, morena. Uma garota de 12 anos é mantida acorrentada e espancada. Responsável: Sílvia Calabresi Lima, 41, empresária. Do marido, no mínimo cúmplice por omissão, nada se sabe. Os fatos relatados causam espanto e horror – mas se repetem continuamente e nada parece mudar.
Naturalmente violento
Será a espécie humana, como outras, naturalmente violenta? Afinal, é o homem que mata outro homem, seu vizinho, seu amigo, gente do mesmo agrupamento, coisa que poucas espécies fazem. Aponta-se a educação como saída para reverter tais fatos. Mas o ato de educar é violento – da violência física, até pouco aceita e estimulada, à violência psicológica. Bater com o chinelo, bater com cinto, dar umas palmadas ou uns cascudos – isto ainda é considerado “educar” em muitas famílias. Apenas 16 países no mundo proíbem que os pais dêem palmadas nos filhos. Na América Latina, somente o Uruguai. Para a sociedade, este é um “direito” dos pais (voltarei ao assunto no final do post: direitos x violência).
Paulo Sérgio Pinheiro (USP) realizou uma ampla pesquisa e encontrou dados estarrecedores. Em 106 países, é permitido que as escolas empreguem castigos corporais. Quando se trata de instituições assistenciais, o número sobe para 147 países. Em casa, como já vimos, o uso é generalizado.
Escândalo através dos séculos
O hábito de bater em crianças escandalizou os índios brasileiros, durante a colonização. Bater em crianças é algo impensável nas tribos. Não que eles fossem “bonzinhos”. Sua violência manifestava-se de outras formas. Além da violência física, há a violência psicológica. Fiz um trabalho prático com meus alunos de Mídia Eletrônica, em que eles precisavam desenvolver uma campanha publicitária para combater o bullying. Bullying é uma espécie de assédio moral (outra forma de violência) nas escolas. Estudo da ABRAPIA, Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência, demonstrou que 45% das crianças e jovens do Rio de Janeiro envolvem-se com a prática do bullying, seja como vítimas, seja como alvos (muitas vezes, das duas formas). Os números são condizentes com pesquisas realizadas em outros países. Pois bem, no final da aula, uma das alunas me procurou, com lágrimas nos olhos –“Então era isto que faziam comigo!” Contou que, aos 18 anos, fez uma cirurgia só por causa dos traumas que ficaram da infância. Os professores? Ausentes.
Vergonha, vergonha, vergonha
Vergonha, acreditar que a dor interna é normal, que isto acontece com todo mundo são alguns dos motives que levam as pessoas a se calarem. Mukhtar tem o mérito de ter falado, aberto a porta para a discussão do problema – um passo para encontrar a solução. Se somos violentos por natureza, o que fazer com esta violência, negada e renegada? Existe uma violência “do bem”?
As fronteiras da violência
O impulso da morte – Tanatos – foi desviado através dos tempos para rituais religiosos. Rituais de dança. Rituais de competição. Nos esportes, dos gladiadores gregos aos cavaleiros medievais; da caça à luta de boxe. Já tentaram me convencer que luta de boxe é um balé. Balé? Qual a graça de ver dois homens se esmurrando? Qual a graça de uma tourada? De uma farra do boi? Uma rinha de galos?
É claro que muitos irão alegar que existe uma graduação na violência, mas estabelecer este “termômetro” me parece muito difícil. Na época da abolição, os escravocratas se revoltavam com a perda do seu direito à propriedade. Sim. Os escravos eram “bens”, portanto, propriedades, direito este que a abolição estava violando. O mesmo direito que, hoje, os pais alegam em relação aos filhos. Assim, a questão da violência acaba tangenciando a questão dos direitos, mas todo direito positivado (adquirido) acaba por negativar um outro direito. O direito da criança de não receber palmadas significa a restrição da liberdade dos pais de darem palmadas, significa o direito do Estado interferir na vida privada. Por mim, lutas de boxe (e qualquer tipo de luta) seriam proibidas. Extremismo? Pode ser. E as violências do bem, como a arte? Já foi citado aqui o filme Laranja Mecânica. Ok. Mas como ficaria o Clube da Luta? E as panfletagens que inflamam as massas? Qual o limite e a fronteira entre uma violência aceitável e uma que deve ser combatida?
O Livreiro de Cabul, cuja história virou livro, considerou a publicação uma violência sem fronteiras – pois a vida morre, mas as palavras ficam.



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