Acho que agora que começamos a falar o que incomoda no livro, a porteira está aberta! E, gente, é tãoooo bom criticar! Kkk Criticar os outros, ok? Mas falando sério, a história é tão trágica, que acaba criando uma barreira, nos deixa um pouco “culpados” por apontar problemas, seja na historia, seja no livro. Pensei nisto e conclui que, ora bolas, não posso me sentir culpada de ter uma vida totalmente diferente. E como polemizar ainda faz parte das regras do jogo, vou botar mais lenha na fogueira sobre o assunto “educação para um mundo melhor”. Melhor para quem?
Santas…
Mukhtar, ao se descrever, projeta para o leitor o tipo de mulher que considera ideal. Ok, ok: eu sei que isto é um reflexo da sua educação e da sua cultura. Mas somos todos filhos do nosso tempo! Vamos lançar um olhar sobre esta mulher, pinçando as palavras de Mukhtar. Recatada. Obediente aos pais e à família (aceitou o primeiro marido sem questionar). Exerce tarefas “femininas” (borda, dá aulas – mesmo analfabeta, são aulas orais). É religiosa, tem fé no Corão. Mais: após o divórcio, volta para a família e “vive longe dos homens, como é seu dever”. Mantém o rosto coberto e baixa a cabeça. Este é um dos motives de sua revolta – como tal tragédia se abateu sobre ela, uma mulher tão boa? Aliás, diga-se de passagem, isto não é exclusividade do Oriente. Quem nunca ouviu pessoas que vivem alguma tragédia clamarem aos céus: – Por que isto aconteceu comigo? Os jornais não me deixa mentir, indo dos muitos famosos que são assaltados até os pobres anônimos, nossos amigos. Como se ser bom cidadão (seja qual for o parâmetro) garanta proteção contra as infelicidades em nosso mundo mortal!
… e Pecadoras
E quem é o contraponto desta mulher perfeita? Samara, a mulher que desencadeou toda a desgraça. 27 anos Não é virgem. Fez um aborto Não abaixa a cabeça. Sai quando quer. Se mexe muito. Tem comportamento agressivo. Fala firme e forte. Conhecemos há muito este maniqueísmo. A Virgem Maria e Madalena. A mulher para casar mãe-esposa e a mulher para ter prazer. Mulher fácil x mulher “difícil”. Essa postura justificativa agressões: se a mulher esposa não é perfeita, posso “educá-la”, colocá-la nos eixos. Uma mulher que está fora do padrão perde sua honra.
Lições de todo dia
Tais preconceitos, como aponta Mukhtar, podem ser derrubados pela educação – mas a educação também perpetua as diferenças nas lições de todo dia.
Na escola de Mukhtar, a assiduidade dos meninos é premiada com uma bicicleta –garantia do direito de ir e vir. Símbolo da aventura de descobrir novo horizontes.
As meninas? Ganham uma cabra – amarras para ficar no mesmo lugar. Símbolo do cuidar e do casar. Afinal, não é disto que são feitas as meninas?
Quantas cabras valemos nós?
Ethel Scliar



5 comments
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Março 19, 2008 às 4:06 pm
Lys
Maravilhosa !!! Lindo o post.
Alias, nessa coisa de dividir o mundo entre putas e santas tambem somos feras ! Nao precisamos nem chegar a ir para o Oriente
So na coletiva ja vimos um monte. E ai caimos na velha historia da nossa formacao patriarcal. Eu as vezes escorrego na casca de banana tambem… afinal, tambem fui criada nesse contexto.
E estou com voce. Existe educacao e educacao
Abaixo o patriarcado !
beijos,
Lys
Março 19, 2008 às 8:14 pm
Luciane
Scliar, sei lá, mil coisas. ;o)
Antes de eu ler o livro, escrevi um comentário aqui no blog sobre o meu desgosto com esse tipo de publicacão. Fiquei com uma pena dessa moca depois de ter lido o livro, que eu até mudei de idéia. É uma tragédia pessoal muito grande, independentemente dela ser isso ou aquilo – se é que alguém é só oito ou oitenta. Mas depois da tragédia sempre vem a revolucão (ou não).
Dentro do contexto em que M. vive, ela transgrediu bastante. A transgressão comeca no fato dela continuar viva, já que segundo as “normas” sociais ela deveria ter cometido suicídio. Ela não só continua viva como aprendeu a falar, entrar em conexão com os seus sentimentos. Imagina a revolucão que é pra uma mulher naquela sociedade, que só repetia o corão, que ela decorou inteiro mesmo sem saber ler (olha a loucura!), falar o que ela pensa – mesmo que para nós ela pense um monte de merda (desculpa o meu francês!). Essa parte me tocou muito no livro, dela comecar a falar e contestar. Pra mim, isso é mais revolucionário que um bando de pseudo-feministas gritando “morra odorico!” e quando chegam em casa vão lavar as cuecas do “benhê”.
No mais, eu tô com a Lys, I blame it on the patriarchy.
Beijo pra ti.
Março 20, 2008 às 10:01 am
Dani
Adorei o post!!! Detesto essa coisa da divisão entre santas e putas!! Sempre fui mais expansiva, falo e rio alto, brinco mto… acabava sendo classificada na segunda categoria!!
Acho a critica uma parte importante e gostosa da leitura!!! O livro eh valido sim, pelo q ele representa… e, como disse a Lys, pra manter a autora viva!! Mas ele poderia ser mto melhor ne?!!?
Beijos, Dani
Março 23, 2008 às 2:35 pm
ethel scliar
Pois então, gentem… Agora, tem uma coisa que vale no livro, afinal, serve, além de manter a autora viva e iniciar uma mobilização para reduzir os danos da violencia contra amulher, tambem para gente discutir um bocado por estas bandas virtuais! E concordo que só fazer discurso, e em casa vestir a carapuça, é uma m… Bzus para todos! Ethel
Março 23, 2008 às 8:25 pm
Lys
Kkkkk… eh verdade Scliar.
Mas serio meninas, sei que a Lu nao se referiu a isso mas o comentario que ela fez me lembrou um ponto que eh interessante e gostaria de colocar meu ponto de vista. De fato nao acho que exista nada grave em lavar a cueca do maridao quando ele nao pode fazer isso se ele tambem lavar as nossas calcinhas quando a gente nao puder
Deixa eu explicar melhor antes que voces pensem que sou uma feminista que lava as cuecas do “benhe”
… mesmo porque isso seria uma injustica minha ja que quem lava as roupas aqui em casa eh o Edu. Ele geralmente lava tudo pois essa eh umas das tarefas dele.
O que acho eh que o negocio eh dividir as tarefas de igual para igual, mas tambem temos que saber entender os momentos dificeis nas nossas vidas. Tem momentos que precisamos fazer mais que o outro por varios motivos, muitas vezes por excesso de trabalho do companheiro, dificuldade em transporte etc. Mas isso tem que valer para ambos os lados. O fato eh que essas coisas tem sempre que ser dosadas com amor e justica para nao sobrecarregar nenhum dos dois lados e nisso nao sao somente as tarefas domesticas que contam. Existem momentos e momentos e varias circunstancias que devem ser consideradas.
Apesar de me considerar feminista e dividir as tarefas de igual para igual com o Edu, nao acho que podemos levar essas coisas a ferro e fogo. Aqui em casa as vezes a coisa pega para meu lado e Edu faz mais do que eu… outros momentos eu faco mais do que ele. E assim vamos levando. As vezes simplesmente faco mais porque gosto de fazer pois sinto prazer em cozinhar ou cuidar das minhas coisinhas e o libero de algumas tarefas porque simplesmente eu quero fazer porque eh divertido. As vezes acontece o contrario.
Lembro que quando defendi minha tese o Edu ficou cerca de 2 meses fazendo quase todas as tarefas sozinho. Certamente, nessa epoca quem olhasse a cena de fora, pensaria imediatamente que ele era explorado por mim. No entanto, dois anos antes eu fiz o mesmo por ele e mais uma vez certamente muitas pessoas julgaram que eu era explorada por ele. O fato eh que a dinamica de um casal eh complicada e nem sempre eh facil de julgar.
O que penso eh que as vezes, se olharmos uma relacao de fora em um momento especifico podemos achar que existe uma certa injustica… mas de fato eh dificil entender a dinamica de um casal
Voces nao acham ?
Lys