Depois de ler os muitos blogs que abordaram a questão da mulher no dia 8 de março, blogagem proposta por Lys e Meire, achei que valia a pena levantar uma questão que me incomoda no livro A Desonrada.
O primeiro impacto, é claro, é de solidariedade. Como não se revoltar ante o estupro cometido, como não ficar indignado com a submissão imposta a estas mulheres?
Mas algo continuava a me incomodar.
O segundo impacto é a busca de proximidade. Identificar-se com o outro, ver o que nos faz iguais e ao mesmo tempo diferentes – as mulheres que são violentadas, espancadas e apunhaladas no corpo e na mente em tantas partes do mundo. O Brasil faz parte destas tristes estatísticas.
Mas algo continuava a me incomodar.
E o que me incomoda no livro, para além da questão dos grilhões que acorrentavam Mukhtar Mai, é a sua postura de reverência religiosa e a divisão maniqueísta que faz entre mulheres “de bem” e mulheres “da vida”. Sei que é difícil uma postura distanciada e crítica daquilo que nos faz, mas acho que é um dever tentar fazer isto em relação ao seu próprio discurso e no discurso do outro. Já no início do livro, ela comenta que o juiz, um juiz “diferente”, nas suas próprias palavras, que lhe ouviu com atenção, termina dizendo: -“Deus decidirá.” Como assim, deus decidirá? Tenho até peninha de deus, coitado, que tem que se encarregar de cuidar da vida de cada um, fora atender aos pedidos de passar no vestibular, ganhar na megasena e outros que tais.
Mas não para por aí. Ela mesma se reconhece fatalista, que o Corão a protegerá. E prega, contraditoriamente, a mesma lei do “olho por olho”, que critica. Assim “como os Mastoi não a perdoaram, eu também não os pedôo.” O que me chocou, também, foi que ela ficou satisfeita e feliz com a sentença de morte de 4 dos seus algozes. Punição sim. Mas sentença de morte? Sei que é um assunto controverso – os plebiscitos populares que o digam. Mukthar não foi humilhada na carne, pelo estupro. Ela é humilhada porque sua mente é prisioneira de suas próprias palavras.
A outra questão, da mulher digna x mulher indigna, fica para o próximo post.
PS: Sobre a questão da escravidão, tem um post ótimo no blog Na Suécia não tem barata, sobre a escravidão da mulher. Vale a pena conferir.



6 comments
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Março 12, 2008 às 1:32 pm
Mercia
Scliar,
já fui lá no blog e li o post… muito bom!!!
quanto ao peso da religião em tudo o que aconteceu com Mukhtar Mai é mais uma discussão a parte… acho que nós que não conhecemos a religião muçulmana vamos queimar vários neurônios pensando e não vamos entender o verdadeiro significado de algumas dessas coisas na cabeça deles. Pelo menos é assim que eu penso.
beijos e parabens!
Março 13, 2008 às 6:48 pm
Luciane
Oi, Scliar! Eu concordo com a Mércia. É dificil de entender, sem que se conheca a fundo os códigos todos da religião e da cultura. E mesmo conhecendo, ainda sim fica difícil porque a gente não tem os mesmos valores “na espinha dorsal”, como se diz por aqui.
Beijo pra ti.
Março 14, 2008 às 12:06 am
ethel scliar
Pois é, gente, eu sei que é difícil entender outras religiões, outras culturas, outros tudos. Mas quando estava lendo o livro “Deus, um delirio”, do Dawkins, as religiões, a priori, se outorgam o direito de estabelecer que não se pode discutir a religião, porque há este espaço de desconhecido, de desconforto. Por isso mesmo é que devemos discutir! Pelo menos, é o ponto de vista da ciência. Ja pensou se os cientistas deixassem de comentar e discutir tudo que não entendem? É o desconhecimento que impulsiona as descobertas – e acho que isto pode valer tanto para ciência, quanto par aoutras áreas. Ou não? Beijos mil para vocês.
Março 15, 2008 às 4:55 pm
Lys
Sabe Scliar… eu tenho que concordar com voce. Esse eh um ponto que tambem me incomoda muito no livro mas que eu nao estava entendendo bem e voce me esclareceu. Em alguns momentos parece que que nossa heroina deseja para os outros o que ela mesmo diz ser errado fazer.
Existe de fato contradicoes em alguns pontos que me deixam confusa. Nao sei se isso esta relacionado com a religiao, talvez nao. Sera que nao caimos ai no problema que a Lu citou ha algum tempo, das varias traducoes ? Talvez seja confuso esse negocio e tenhamos em alguns pontos a opiniao de quem escreveu misturada com os relatos da nossa heroina. Um filtro, uma interpretacao equivocada aqui ou ali… uma forcinha para fazer o ocidente entender melhor e nao se chocar. Vai saber ? Mas no final de fato parece contraditorio.
E falando em escravidao, muito bem citado o post da Paola para referencia aqui no clube, pode ser que nossa heroina seja apenas escrava de suas proprias ideias.
beijinhos
Lys
Março 16, 2008 às 6:36 am
Contradicoes e Consensos « Clube do Livro
[...] claras e devo confessar que acabei o livro com uma sensacao identica a que a Scliar expressou no post dela. Acabei o livro com um cero desconforto que nao consegui e ate agora nao consigo [...]
Março 18, 2008 às 10:18 am
danipontes
Scliar, mto bem colocado o post!! Acho q isso tb foi uma coisa q me incomodou sem nem saber… como aquela pulguinha atras da orelha!!!
Imagino q devam existir erros de traduçao e tudo… mas q mulher nao eh contraditoria!?!? Eu nao digo q, no lugar dela, tb nao ficaria feliz com a morte de 4 dos algozes… q nao ficaria brava pela liberdade dos outros… devem ser sentimentos mto contraditorios… de raiva, impotencia, fragilidade, odio!!
De qq forma gostei mto da colocação!!!
Beijos, Dani