Terminei de ler o livro. Ele em sueco chama-se “A honra tem seu preco”, e no prefácio o editor descreve como o livro foi feito. Uma jornalista especializada em escrever “auto-biografias” de mulheres foi ao Paquistão, escutou os relatos da Mukhtar que foram devidamente traduzidos do idioma dela para o francês por dois intérpretes. A escritora então colocou tudo no papel em francês. Os interpretes traduziram novamente, só que dessa vez do francês para o idioma de Mukhtar, e gravaram uma espécie de audio book para que Mukhtar pudesse escutar e autorizar a publicacão. Ou seja, foi um trabalho grande de traducão. Mas isso é só uma curiosidade, que de repente até está na edicão em português.
A minha opinião depois de ter lido o livro é que não dá pra lê-lo sem se horrorizar com o sofrimento dessa moca. Muito menos dá pra ler um livro desses sem pensar sobre como violência contra mulher, religião e poder estão todos interligados nessa trama canalha. Infelizmente, há uma série de referências no livro sobre leis religiosas, tradicões locais e arranjos sociais que eu nunca havia lido sobre. Por isso mesmo eu nem me arrisco a colocar aqui minha opinião sobre quem é o ovo e quem é a galinha nessa história toda.
Uma coisa que fica evidente pra mim é como o corpo da mulher, independentemente da cultura, se torna sempre objeto na mão dos poderosos. No exemplo de Mukhtar, eles mantêm o poder, além de reforcarem e lavarem sua honra, através de atos de violência contra as mulheres. A religião parece ser um pano de fundo, que tanto dá esperanca e conforto à vítima, quanto é usada como arma contra ela pelos seus algozes. O corpo, o que ele significa, como pode ser usado e por quem é, a meu ver, o central em toda essa história. Não à toa as feministas no ocidente travaram e travam batalhas à favor do aborto e contra a pornografia.
Deixei um comentário há uns dias atrás aqui no clube, em que eu dizia que esse tipo de literatura “só” reforca a idéia que o Ocidente tem a respeito dos não-ocidentais como sendo não civilizados. Depois de ler o livro, eu definitivamente mudo de idéia. Acho que esse livro tem seu espaco e razão de ser.
Beijo pra vocês e desculpe o atraso em publicar o post.

3 comments
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Março 8, 2008 às 10:05 pm
ethel scliar
Oi, Luciane! Muito interessante esta curiosidade sobre o processo de tradução. Na minha versão não tinha esta explicação não. Talvez isto ajude a entender um pouco o estilo, que deixa a desejar. Muitas traduções para chegar até nós… E como cada tradução é uma traição, já viu, não é? Concordo com a questão corpo-objeto. Mas agora, neste exato momento, me veio uma outra idéia. Vou jogar aqui, embora precise por o tico e o teco a funcionar melhor… O corpo não seria sempre um objeto? um objeto que usamos para mandr mensagens - objeto ao vestir e despir, objeto na postura e no gestual, objeto na arte (dança, teatro, rituais, perormances)? A questão é quando temos o poder sobre este corpo-objeto, ou quando os outros ee que detém este poder. Nas prisões, por exemplo, um dos símbolos do domínio é justamente que o prisioneiro já não manda mais em seu próprio corpo, tudo é decidido por ele: o que vestir, quando tomar sol, quando banhar-se. A mulher se encerra, assim, na sua própria prisão sem barras. Bzus. Ethel
Março 9, 2008 às 12:27 pm
Lys
Lu, muito interessante mesmo todo o esquema da traducao. E como a Scliar ja disse, quem conta um conto aumenta um ponto e assim vai. Mas, como voce mesmo disse, esse livro tem seu espaco e razao de ser, portanto ta valendo.
Scliar, devo confessar que voce eh um ponto fora da curva
Sempre olhando as coisas por angulos diferentes para nos surpreeder, e eu minha querida nao canso de me surpreender com suas notas. E ja aprendi muito contigo. Achei fantastica essa sua questao do poder sobre nosso corpo-objeto. Ja vejo que vira post danado de bao por ai.
beijos meninas e agora vou voltar para a cama pois tenho que repousar… to dodoi.
Lys
Março 16, 2008 às 6:37 am
Contradicoes e Consensos « Clube do Livro
[...] apenas por eu nao ter entendido uma passagem ou outra do livro, pois como disse a Lu nesse seu post aqui, o livro passou por varios processos de traducoes e conversoes ate ser terminado. Eh dificil [...]