Todo dia eu chegava cedo na agência de propaganda. Redatora, em São Paulo. Era uma grande agência. Eu era uma pequena redatora, entre outros tantos. E para todos nós, uma revisora. Sim, agência grande tem disto: alguém que domina o vernáculo, que corrige aqueles erros que fazemos sempre, recorrentes; z ou s? J ou g? E a crase, vai mesmo onde? Pois tínhamos, então, uma revisora. Classe média alta – fazemos parte desta minoria ilustrada -, pós-graduada, condecorada, e quantos “adas” vocês quiserem!
Um dia, ela faltou. Ligou avisando. No outro, apareceu com um olho roxo. Tombo na escada, disse ela. Os tombos continuaram, recorrentes. Os olhos roxos também. Às vezes, hematomas nos braços, nas pernas. Um dia, me confidenciou: apanhava do marido.
Eu fiquei muda. Dizer o que? É um apoio solidário, calado, como quem diz -Estou aqui. Se precisar, estou aqui. E nada mais disse.
A liberdade
Dois anos se passaram, até que finalmente ele se separou do dito cujo. E veio me agradecer. Agradecer o quê, pulamordedeus? Agradecer que eu não havia censurado, não havia cobrado uma posição, não havia dito o que ela deveria fazer. Só comigo ela conseguia falar, e isto fora importante para arrumar cada uma de suas células, até aquele momento, dois anos depois. Então aprendi: cada pessoa tem o seu tempo, e quem sou eu para apontar meu dedo?
Mukhtar Mai não é a única. Minha amiga revisora não é a única. O verniz da classe média e da classe alta esconde nas entranhas dos condomínios de luxo a violência doméstica. Para rompê-la, é preciso falar. Saber que não se está só. Aproveite aqui para deixar seu relato, seu grito de dor ou socorro. Anonimamente, se quiser. Ninguém irá condená-la ou achar que você perdeu sua honra, seja porque motivo for. Mas é importante que muitas vozes se juntem, para que uma onda crescente, verdadeiro tsunami, varra da face da Terra todo tipo de violência.
. Uma em cada três mulheres sofre algum tipo de violência.
. Estima-se que apenas 20% das mulheres agredidas registrem queixa.
. Helen Cristina, 22 anos. Ex-integrante do Fama 3. Mantida em cárcere privado. Surrada com um martelo pelo marido.
. Ingrid Saldanha, 32 anos. Jornalista. Espancada pelo marido, o ator Kadu Moliterno.
. Sirley Dias Carvalho, domeestica. Espancada no ponto de ônibus por jovens atores do seriado Malhação.
. Maria Celsa da Conceição, 50% do corpo queimado pelo marido.
. Mariza Kapp Caldeira, 43 anos. Agredida pelo marido, só foi socorrida um dia depois. Morreu no hospital.
. 79% das mulheres agredidas tem entre 21 e 40 anos.
. 95% possuem filhos.
. Em mais da metade, a agressão é recorrente.
. O principal agressor: o companheiro ou alguém da família.
Medo da condenação social, vergonha, pavor de que, uma vez solto, o companheiro torne-se mais agressivo – tudo isso faz das mulheres prisioneiras de seu próprio corpo.
A violência não está no livro. Mora ao seu lado. Escreva. Deixe seu recado. Sua voz pode ajudar a libertar uma mulher.
Dia 8 de março. Blogagem coletiva pela mulher. Participe.
Outra opinião: Visao da vida

7 comments
Comments feed for this article
Março 5, 2008 às 8:57 pm
Lino
Acredito, como você disse, que a violência doméstica contra a mulher aparece-nos como uma ponta de iceberg. Sem dúvida ela existe e existe, também, o fazer vistas grossas de uma boa parcela, inclusive, de quem se diz bem educado.
Acho que só há um jeito de mudar: tornando tudo muito claro e os culpados sendo punidos, inclusive com a condenação pública.
Março 6, 2008 às 8:36 am
Nina
Muito bom post. Você comentou em algum outro blog, que existe um movimento pra dizer não à violência contra a mulher, onde os blogueiros poderiam comentar em seus blogs no dia 08. Gostaria de participar, como faço? Você poderia me orientar?
Abraços e obrigada
Março 6, 2008 às 1:35 pm
ethel scliar
Ola, Nina!
Para participar da blogagem do dia 8, você pode fazer assim:
a)Para quem tem blog (é o seu caso): Vá até o blog da Lys - http://universodesconexo.wordpress.com e deixe um recadinho dizendo que quer participar. Ela vai te adicionar como link na lista geral (veja la quem ja confirmou);b) no dia 8, no seu blog, faça um comentário sobre o assunto, dê sua opinião;c) Se quiser, pode colar o selinho contra a violência. Tem um la no blog da Lys, tem outro no Blog da Luma (http://luzdeluma.blogspot.com), e também tem este que coloquei aqui no clube do livro e vou colar tambem no womarket.blogspot.comb)
b)E quem nao tem blog? Participe também! Visite os blogs amigos nesta blogagem (a lista tá la no blog da Lys) e deixe seu comentario, sua sugestao, sua indignação!! Ethel
Março 7, 2008 às 3:51 am
Lys
Scliar. Seu selinho ficou show de bola ! Matou a pau… ja ja venho comentar os posts. Estou aqui na correria com a finalizacao de um trabalho. E ainda tem a coletiva… mas eu volto. Esse final de semana eu volto e comento tudo que ainda nao comentei.
Lys
Março 7, 2008 às 5:37 am
ethel scliar
Bota correria nisto… Esta quintupla jornada feminina (sim, porque agora tem jornada das blogueiras!) não é nada fácil. Legal que voce gostou do selinho, eu vou postar ele no dia 8, pode ser? Bzus.
Março 9, 2008 às 12:04 pm
Lys
Acho que preciso de uma revisora viu ? J por G, L por U… menina, as vezes me sinto uma analfabeta.
Muito legal seu post Scliar… estou aqui dodoi da cama tentando colocar o clube do livro em dia pois os blogs da coletiva demorarei uns 15 dias para terminar. Mas aos poucos chego la, levando minha joranada quintupla.
Como o Lino comentou, acho que em relacao a violencia contra a mulher so vemos mesmo a ponta do iceberg. Mas da mesma forma que voce viveu com sua amiga, temos que entender os motivos pelo qual as mulheres se calam.
As vezes elas simplesmente nao conhecem outra forma de comportamento masculino. Seus pais, irmao resolviam as coisas na porrada. Eh natural para elas que os maridos tambem o facam. Outros casos apenas mantem-se a esperanca de que essa foi a ultima vez e que elas serao capazes de mudar o agressor com amor. Ilusao ? Pode ser. Eu conheco algumas que apanham e faco como voce.
Eh facil para nos julgar e dificil entender, mas temos que tomar o cuidado para nao apontar o dedo como voce disse pois se fizermos isso o maximo que conseguiremos eh almentar o silencio da agredida.
E so para completar sua lista de agredidas, faltou a Maria da Penha que deu nome a tal lei de 2006
beijocas
Lys
Março 16, 2008 às 7:34 am
Contradicoes e Consensos « Clube do Livro
[...] a Scliar disse aqui existem varias pessoas que poderao te entender e ajudar sem julgamentos. Essas pessoas poderao te [...]