Devo confessar que acabei de ler o livro muito rapidamente mas, tenho dificulde de encontrar palavras para descrever o que penso sobre ele. Nao gostei do livro, mas acho que o livro eh feito para nao se gostar mesmo. Afinal, quem pode gostar de uma barbaridade dessas ? O tema poderia ser melhor abordado. Isso eh fato sim, mas por outro lado, acho que a ideia desse livro era apenas um pequeno grito que certamente ira inspirar a outros mais. Assim espero, assim esperamos. A verdade eh que sabemos o que passa la dentro sim mas temos as maos atadas. Eh necessario que alguem de dentro mude a situacao e eh ai que esta a importancia do livro segundo meu ponto de vista.
Fiz algumas viagens para paises muculmanos. Conheci Marrocos, depois a Turquia e percorri varias cidades do Egito. Lembro que ao sair do Egito a unica coisa que pensava era na condicao das mulheres. Como elas podiam aceitar viver dessa maneira tao subordinada. Subordinada a um ponto que nenhuma mulher que eu conheco, nem mesmo as mais submissas, seriam capazes de suportar no ocidente. Mas a minha agonia nao era so a respeito das mulheres nao. E sim a varias coisas que vi e ouvi. Como foi triste ver um pais que um dia foi um centro da civilizacao completamente destruido e jogado ao abandono. No meu ponto de vista so sobrou a pobreza, a violencia e a falta de respeito para com o ser humano em geral. Fomos desrespeitados varias vezes em varios aspectos como turistas e tendo toda uma estrutura ao nosso redor para nos protejer… o que podemos dizer entao das pessoas que moram la e que absolutamente estao entregues ao azar ? De uma coisa eu estou certa, nao viajarei nunca mais para o Egito e nao tenho o menor interesse de se quer conhecer qualquer outro pais religioso extremista como Paquistao e cia. Considero ja ter visto o suficiente e nao ha nada la que eu tenha interesse de ver. Hipocrisia da minha parte ? Pode ser… mas o fato eh que nao ha nada que nem eu e nem ninguem do lado de ca possa fazer para mudar esse quadro.
Lembro que quando sai do Egito estava certa de que o problema so poderia ser o da religiao. Afinal, eh apoiada nela que a maior parte da brutalidade se desenvolve nao eh mesmo ? Agora sei que vou escutar de muitos de voces que o problema nao eh da religiao e sim da instituicao religiosa. Tudo bem, nao importa, que seja entao. Que o problema esteja entao na forma em que os dirigentes usam e se apoiam na religiao para resolver os problemas das pessoas de forma parcial e impositiva.
No entanto, devo convir que isso nao eh completamente verdade ja que paises diferentes que seguem a mesma religiao como tradicao podem levar a vida de maneira completamente diferente. Nao vi em Istambul o que vi em Marrocos e nao vi em Marrocos o que vi no Egito. O que entao eh diferente ? O extremismo ? A pobreza ? A ausencia de lei ? Ou a impunidade ?
Me diga por favor o que faz que um pais consiga retroceder tanto em anos ? Qual eh o problema ? Porque ainda existe no mundo algo tao extremista como o que acontece no Paquistao e que foi descrito no livro ?
Algo que quero deixar claro aqui eh que nao acho que esse eh um problema do islamismo. O islamismo assim como qualquer outra instituicao religiosa, dentre as que eu conheco obviamente, eh sim bastante sexista, mas nao acho que essa seja a questao tratada aqui. O que considero o problema eh o extremismo religioso, e nesse aspecto, seja cristao extremista, judeu extremista ou muculmano extremista… sempre da merda.
Porque podemos ate dizer que isso existe em todos lugares. E existe sim certamente. No nosso pais esta cheio de varias coisas que lemos no livro e algumas ate piores… mas uma coisa eh fato… em nenhum lugar do planeta me senti tao insegura e indefesa como me senti no Egito. O que diria eu estando no Paquistao ? Nao sei e nao quero saber… essa parte eu vou pular.
A pergunta eh: Se em todos lugares acontece a mesma coisa, o que difere entao o caso de Mukhtar Mai ? Voce acha que se o mesmo tivesse acontecido em um pais europeu ou ate mesmo no Brasil esses caras ai do lado continuariam em liberdade ? Eu acho que nao… pelo menos tenho esperancas que nao. Na verdade o que aconteceria eh que esses , ao inves de serem condenados a morte, seriam jogados na cadeia e sabemos muito bem o que acontece com estupradores de um menino de 12 anos em uma penitenciaria nao eh mesmo ? Justica com as proprias maos ! Mas nesse caso estaria valendo ? Afinal a honra de ambos estuprados, torturados etc e tal seriam lavadas. Honra por honra se paga ?
A impunidade eh algo definitivamente assustador. Nao ter para onde correr e para quem pedir ajuda eh absolutamente inconcebivel. Quando nem mesmo em nossa familia podemos buscar apoio e confianca so nos resta pensar como Mukhtar Mai que disse repetidas vezes que depois do incidente nao consegue confiar mais em ninguem. E ela esta certa ! Ela nao pode confiar em ninguem mesmo. E ai nao tem casta que ajude nao eh mesmo ? No livro mesmo foi dito que se tratando de mulher, nao importa o grau de escolaridade, nao importa se eh rica ou pobre, nao importa se sabe ler ou nao, no final a impunidade eh a mesma para todas. Sem falar que essa impunidade tambem se aplica ao homem mas de maneira mais sutil. Pelo menos nao sao eles que sao usados como mercadoria de troca ou moeda de “honra”.
Podemos ate dizer que a Mukhtar deu “sorte” de conseguir o apoio de alguem, mas e todo o resto das mulheres que estao agora, nesse exato momento sendo estupradas e humilhadas por todo um grupo de pessoas que por alguma razao se sente superior, seja ela financeira ou apoiada nas costas da religiao. O que elas devem fazer ?
Mas uma coisa eh certa, isso precisa mudar. E essa mudanca so pode vir de dentro. Ja pensei bastante sobre isso durante minha estadia no Egito. Nao ha como alguem de fora entrar e tentar mudar essa situacao. Porque ? Porque nos absolutamente nao entendemos e jamais vamos entender o ponto de vista deles e portanto jamais seremos tambem entendidos e escutados.
A mudanca tem que vir de dentro… e eh por essa razao que Mukhatar Mai tem que continuar sua luta ! E eh por essa razao que esse livro existe ! Para que o mundo inteiro saiba e de certa forma a proteja, ja que no pais dela a unica coisa que existe eh a impunidade. Nos, na realidade servimos para mante-la viva para lutar e eh isso que devemos continuar fazendo, pois o dia em que o mundo esquecer dessa mulher ela certamente nao vera mais a luz do dia.
Nao podemos fazer nada mais para ajudar a nao ser mante-la viva. Ela e todas sua seguidoras paquistanesas. Porque ela esta la dentro, faz parte do sistema e continuara la dentro lutando pela mudanca. Porque elas sim falam a mesma lingua, creem nas mesmas coisas e certamente entenderao as necessidades umas das outras. Nao ha intervencao possivel que nao seja dessa maneira.
No meu ponto de vista, essa eh a mensagem do livro: Temos que mante-la viva !

9 comments
Comments feed for this article
Março 2, 2008 às 9:31 am
Luciane
Oi, Lys! Respeito muito o teu ponto de vista e concordo com o que escreveste nos últimos parágrafos. Depois eu discordo em algumas coisas.
Qualquer pessoa que viesse pra Suécia como turista seria super bem atendido e duvido que sairia daqui sem a impressão de que aqui tudo funciona, tudo é limpo e cheiroso, e que os nativos sao o supra sumo da educacao. Mas vem morar aqui pra ver o que é bom pra tosse, porque as coisas não são bem assim. E eu digo morar, estudar, trabalhar, tentar se relacionar com os nativos, acompanhar a política, ler jornal em sueco. Mesmo assim, demora uns bons anos até que a gente consiga entender a dinâmica das coisas, consiga ver as nuances. Eu moro aqui faz quase oito anos e continuo no processo de tentar entender. E olha, eu tô falando da Suécia, não do Paquistão nem do Egito. Imagina a dificuldade que é entender uma cultura quase que diametralmente oposta a nossa!
É claro que a batalha dessa moca paquistanesa é muito digna. A história dela deve ser compartilhada por centenas de outras mocas, e eu me solidarizo com elas. Mas não dá pra deixar de ser crítico também, porque aqui na Europa esse tipo de “literatura” só corrobora aquilo que os europeus já sabem, ou seja, que os outros (the others) são todos selvagens. Nós inclusive.
Beijo e bom domingo.
Março 2, 2008 às 9:41 am
Lys
Bom, nao preciso nem dizer que nao concordo com voce nao eh mesmo ?
E ja expliquei meu ponto de vista. Nao acredito que “esse tipo de literatura so corrobora aquilo que os europeus ja sabem, ou seja, que os outros (the others) sao todos selvagens”. Os europeus que pensam assim, na minha opiniao, sao ignorantes. E quanto a esses eu so lamento. Nao acho que esse tipo de literatura seja para esse tipo de europeus. E considerar que todos os europeus pensariam dessa maneira seria um erro tambem. Tem muita gente disposta a apoiar e eh dessas pessoas que ela precisa. Nao de europeus ignorantes que considera-os como selvagens.
Acho que esse tipo de literatura serve sim para que o mundo saiba da existencia dela e ajude. Assim como o Canada esta fazendo. E nao so ajude financeiramente mas a ajude em sua causa e como eu disse, a mante-la viva. Pois as unicas pessoas que podem mudar a situacao no Paquistao soa eles mesmos.
Quanto as minhas impressoes quanto ao Egito, melhor nem discutir pois vejo que voce nao entendeu o que quis dizer, ou eu nao expliquei direito. No entanto, nao fui superficial em minha analise, isso eu te garanto. Procuro entender o lugar que visito nao com os olhos turvos de um turista e sem preconceito. Mas o minimo que espero de um lugar eh que me tratem com respeito. O unico lugar que me senti desrespeitada em minha vida foi no Egito. Se voce precisa de um exemplo para entender o que quero dizer, em uma negociacao de um presentinho que queriamos comprar em uma loja o vendedor simplesmente me disse que nao discutia questoes financeiras com mulheres. Mas esse eh apenas um pequeno exemplo sem nenhuma importancia aonde nao consegui comprar um souvenier sem a presenca de meu marido. Como voce pode ver, nao precisei nem morar la para aprender qual eh o lugar da mulher na sociedade. Essa viagem para o Egito era o sonho da minha existencia e te juro que nao fui superficial e nem parcial em minha analise, assim como nao fui parcial em Istambul e nem em Marrocos aonde a convivencia entre homens e mulheres eh OK. Bem, no Marrocos pelo menos com os turistas eh OK. Em Istambul, o relacionamento tambem eh legal entre homens e mulheres locais. Sei diferenciar pobresa e falta de educacao por desrespeito e sacanagem. Mas enfim… essa eh apenas minha opiniao e obviamente voce pode discordar dela.
Um otimo domingo para voce tambem.
Lys
Março 2, 2008 às 1:38 pm
ethel scliar
Lys, entao ele nao quis discutir questões financeiras contigo? KKKKK Pelo menos não tentou te comprar, como aconteceu comigo? Ainda bem que não ouvi quantas cabras ele ofereceu, vai que eram poucas, ia ficar deprimida… Agora, questao religiao, volto a citar o livro, acho que ja falei por aqui, o “Deus, um delírio”. Nele, a religião, sim, é considerada a raiz de muitos males, seja religião light, seja extremista. Vale a pena. O Dawkins não abre concessões (nem mesmo as do gênero religião não se discute…Aliás, ele começa por aí: -Não se discute por que? Quem disse isto? A própria religião? E nós temos que aceitar?
Quanto ao livro em si, do ponto de vista literario, muito ruim. Podia ser melhor, afinal, teve ghost writer, a jornalista poderia ter caprichado um bocadito mais. Tem tambem umas posturas complicadas que ela coloca, difíceis de engolir. Mas no frigir dos ovos, concordo que é um grito, uma pedrinha a agitar o mar para tentar mudar as coisas - no Paquistão, no Oriente, no mundo. E, claro, agressão às mulheres não é privilégio de nenhum país em específico. Mas isto fica para o meu post, ou este comentário vira um post também, ninguém merece!
Bom e friorento domingo canandese, embora ensolarado…
Ethel
Março 2, 2008 às 4:31 pm
Luciane
Lys, querida, talvez eu não tenha te entendido bem. Vou ler teu texto novamente. Mas desde já, eu não acho que tu tenhas sido superficial, não foi isso. Baseado na tua experiência nesse país, tu tiraste tuas conclusões, e não há nada de superficial nisso. Acho até que tu foste coerente, porque eu também na mesma situacao, jamais voltaria lá pra deixar meu rico dinheirinho com gente ordinária. Mas eu realmente acho que tem um monte de fatores que devem ser levados em conta, quando a gente fala sobre cultura. Religião, por exemplo, é apenas uma delas.
O “só” na minha frase que tu citaste ficou realmente sobrando. Não é só pra isso que serve, mas, na minha opinião, também pra isso. Talvez eu discuta esse assunto no meu post, ok?
Concordo plenamente contigo que a mudanca só pode vir das mulheres e homens que vivem dentro daquele contexto. A “salvacão” vinda de fora, mais atrapalha do que ajuda.
Eu tenho quase que diariamente contato com muçulmanos, principalmente mulheres. É pra mim uma dificuldade tremenda ter que discutir, por exemplo, com o marido, o pai e o filho mais velho de uma paciente adulta, antes de eu poder sentar em um sala sozinha com ela. Algumas vezes eu tenho que negociar com eles pra que elas possam conversar comigo sem a presenca deles, tu acreditas? E tu achas que eu entendo isso? Não entendo, não entra na minha cabeca. Mas eu respeito, porque justamente nao entendo todos as pecas desse quebra-cabeca. Claro que no que eu desconfio que ela foi molestada ou vítima de qq tipo de violência física, aí não tem conversa, mas isso é outra história.
Lys, somos duas mulheres adultas, independentes, inteligentes, educadas e, como se nao bastasse, não somos de se jogar fora. Uia! Cada um tem sua opinião e é bom que continue assim. Às vezes a gente concorda, às vezes nao. E segue o barco.
Beijinho pra ti e pra Ethel.
Março 3, 2008 às 12:07 am
Lys
Scliar, certamente eu nao valho nem uma cabra na concepcao deles
. Mas certamente antes de me escutar falar, por onde passavamos eles diziam que Edu era um homem de sorte. Edu, brincalhao que so ele, respondia sempre que a sortuda era eu
Eles ficavam confusos e era engracado.
Mas esse foi apenas um detalhe que aconteceu comigo sem nenhuma consequencia. Pior foram as coisas que vi acontecer entre eles… lembro ate de uma engracada. Quando eu e Edu vimos uma mulher acompanhada do marido, obviamente ha alguns passos atras do mesmo, usando um burca completa, aquelas que cobrem tambem os olhos. Ai estava eu e Edu nos perguntando se nao atrapalhava a visao da moca… a resposta veio imediatamente, quando a pobre da coitada sentou a cara no primeiro post.
Lu - So para terminar nossa discordancia
. Eu nao acho o povo egipcio gente ordinaria, de forma nenhuma. Acho apenas que eles sao oprimidos por um sistema radical. Tambem nao acho que o problema seja o islamismo e sim o extremismo religioso que independente de que religiao seja acaba por massacrar uma sociedade inteira. Mas obviamente isso nao vem sozinho, tem todo um comodismo por traz das coisas e uma resistencia a mudanca. Afinal a luta tambem nao foi facil para nossas feministas ocidentais nao eh verdade ? Eh duro romper esse comodismo sexista. Assim como eh duro romper o extremismo religioso que geralmente esta associado com interesses maiores.
Março 3, 2008 às 1:55 am
Lys
Scliar. De tanto voce falar desse livro estou curiosa pra caramba
Bem que voce podia pegar esse tema para seus livros hem ? Eu ja ouvi falar de um livro, acho que o Dawkins mesmo, chamado o Gen Egoista que me disseram que era muito bom. Voce ja leu ? Meu orientador de tese de doutorado estava encantado com ele. Eu nao li nenhum dos dois, mas pelo jeito voce gosta do tema e definitivamente pode ser interessante para uma discussao aqui no clube.
bjs
Lys
Março 3, 2008 às 1:57 am
Lys
Lu… essa sua bonequinha eh uma graca
Março 3, 2008 às 9:10 am
danipontes
Lys, deve ser uma situaçao horrivel ver essa submissao e saber q nao podemos fazer nada!!! E acho q vc esta certa… o objetivo maior do livro eh mante-la viva, contar a historia para q possamos mante-la sempre viva pra poder continuar ajudanod!!! Pq a maior transformaçao eh sempre aquela q vem de dentro!!!
Beijos, Dani
Março 30, 2008 às 11:23 am
A Neurobiologia da Violencia « Clube do Livro
[...] março 30, 2008 in Desonrada, violencia por tradição by Lys Tags: alcolismo, neurobiologia da violencia, suicídio, tratamento para a violencia, uso de drogas, violência Hoje eh o ultimo dia que falaremos sobre o tema proposto pela Cica, tema esse que rendeu discussoes excelentes aqui no clube do livro. Acho que foi consenso que o livro Desonrada da Mukhtar Mai nao foi la grande coisa e poderia ser muito melhor escrito, mas no final acho que todos nos concordamos que esse tipo de livro tem uma razao de ser. [...]