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Ao longo da discussão que há de vir, e da qual as mulheres desse clube tomarão parte bem mais ativa que a nossa, a dos homens, a história de Mukhtar Mai será contada e recontada, sobretudo envolvendo o seu conteúdo de violência, que ultrapassa em muito a fronteira do grotesco.
Mas nós precisamos discutir um pouco os motivos pelos quais certas regiões do Paquistão são assim, porque os Gujjar da aldeia de Meerwala, no Punjav, devem se curvar aos Mastoi, e o que fez a violência do estupro se abater sobre essa divorciada de 28 anos após seu irmão de 12 anos cometer o “crime” de se dirigir a uma mulher adulta, de uma casta superior. E é preciso não esquecer nem colocar em segundo plano o seguinte: também o menino foi violado, estuprado, além de espancado covardemente, pelas mesmas pessoas guiadas pelos mesmos princípios que provocaram o suplício de Mai, gerando sua luta e sua vitória.
A resposta a isso está na palavra casta. Um sistema que rege uma série de sociedades no mundo. Castas, em sociologia, são sistemas alguns tradicionais, hereditários ou sociais de estratificação, ao abrigo da lei oficial ou da prática comum, com base em classificações que podem ter por base quesitos como a raça, a cultura, o sexo (no nosso caso), a ocupação profissional, etc. Varna, a designação sânscrita original para a palavra casta, quer dizer cor.
Talvez esse sistema cultural tenha sua manifestação mais cruel na Índia e não no Paquistão. Lá há a figura dos “intocáveis”. Quem são eles? Os intocáveis, na sociedade Hindu são os que trabalham em atividades “indignas”, “sujas”, com o morto (animal ou humano), amontoados de cadáveres e outros empregos que os mantêm em contato com o que o restante da sociedade local considera nojento. Por exemplo: os intocáveis são os que queimam os cadáveres das pessoas às margens do Rio Ganges, num ritual milenar naquela sociedade.
Essas ocupações não são consideradas apenas coisas nojentas. Os que se ocupam delas são considerados individualmente sujos, e assim não podem praticar contato físico com os “não-sujos”, partes mais puras da sociedade. Vivem separados do resto da população. Ninguém pode interferir na sua vida, pois os intocáveis são os últimos no ranking social, considerados menos que humanos e alijados do sistema de castas. São a base imunda da pirâmide social.
Nessa classificação foi colocada Mukhtar Mai quando seu irmão “sujo”, ao se dirigir a alguém “superior”, “sujou” esse alguém. Como, então, proceder à limpeza do que havia sido tornado imundo, já que o sabão não bastaria, o perdão era irrelevante e o ódio tribal, forte demais? Ora, era preciso “sujar” os inferiores. O menino, que apenas havia se dirigido à mulher, foi espancado e sodomizado diversas vezes. Sua irmã, que além de inferior era divorciada numa sociedade marcadamente preconceituosa e patriarcal, precisava ser estuprada. Sim, para ficar “suja” de uma vez por todas. Para gerar nojo. Para se tornar uma intocável.
Assim funcionam as coisas.
O que é a escravatura? Determinadas sociedades se apossam, na total acepção da palavra, de grupos humanos e os escravizam. Significa dizer, tiram-lhe todos os direitos de cidadania. Consideram-nos seres inferiores. Isso aconteceu no Brasil por vários anos, primeiro envolvendo populações indígenas e depois, principalmente, grupos negros, contrabandeados da África. Notem que muitas das escravas “serviam” seus senhores, filhos e amigos deles, independente de suas vontades. Nasceram dessa prática os primeiros mamelucos.
Mukhtar Mai, na prática, era membro de uma casta escrava de casta superior. Sim, na medida em que não tinha direitos. E sua gente era considerada sabuja, pois o irmão sequer podia dirigir a palavra a uma pessoa de outro sexo, da casta superior. Como ele cometeu esse “crime”, restava puni-lo. E não bastaria que ele fosse sodomizado. Era pouco. Para a punição completa, seria preciso que uma das mulheres da casta inferior sofresse a suprema humilhação do estupro. Melhor se fosse divorciada. Melhor ainda se fosse irmã do “criminoso”.
Mai foi valente. Seus atos posteriores trouxeram à tona a violência existente no dia-a-dia daquela sociedade distante do que consideramos mundo moderno. Certamente, mudanças haverá. Certamente, pressões internacionais crescerão muito, pois já cresceram. Mas a raiz cultural e o caldo de cultura que geram esses comportamentos milenares continuam enterrados no solo ou guardados nas panelas. Muito ainda se passará antes que desapareçam.
Quiçá, não seja preciso haver mais muitas Mukhtar Mai.

2 comments
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Março 1, 2008 às 8:31 am
Lys
Bem colocado Alvaro ! vejo que voltas com forca total para o clube.
Temos que lembrar tambem que o menino, com apenas 12 anos de idade, foi violentado da mesma forma que a nossa protagonista. Nesse caso temos mais uma violencia contra o mais fraco e nao apenas para com a mulher.
Gostei da forma com que colocaste o sistema de castas e a comparacao com os escravos e negros. Como a Scliar mesmo disso, acho que foi ela que disse, o que acontece em sistemas como esse eh a opressao de uma classe entendida como inferior.
Mas o triste eh ver que isso acontece ainda de forma tao dura nos dias de hoje nao eh mesmo ? E o pior eh que aocntece… e nao so no Paquistao.
Lys
Março 1, 2008 às 12:42 pm
ethelscliar
Pois é, a questão do menino também é terrivel. Mas gostaria de acrescentar um ponto nesta história das castas, pois como a própria “densonrada” coloca, não fica bem claro se, por trás, não havia simplesmente um interesse financeiro, de poder e domínio sobre a terra, e tudo não passou de uma desculpa para tentar com que eles abandonassem o lugar. Será que Marx tem razão? A pensar. Ethel