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doris1.jpgHá alguns dias, quando este Clube estava escolhendo o autor que seria lido por todos os seus integrantes, fiz uma opção por J. M. Coetze, um autor sul-africano que fala sobre o seu pais tendo como pano de fundo o apartheid. Os dois outros autores eram Doris Lessing e Orhan Parmuk que, tal como Coetze, não li, mas pelo qual não me interessei.

De Lessing já havia lido, há algum tempo, os livros da série Canopus. Segundo os especialistas, eles tem fundo sufista, apelando mais para o espiritual que para o material, fala de outros mundos, outras filosofias e de relacionamentos diferentes. Talvez por isso tenham uma prosa densa, mais encorpada, que chega, em alguns momentos, a ser de difícil leitura, não pela própria prosa, mas pela abordagem dos temas que os livros desenvolvem.

Bom, o fato é que Doris Lessing foi escolhida. Vencido de maneira democrática, comprei o livro e comecei a lê-lo para me surpreender. Primeiro, com a linguagem, bem diferente do que dela há havia lido. As Avós, ouso dizer, tem uma prosa quase poética que, em muitos momentos, apelam para as figuras de linguagem, que dão um colorido especial à narração e tornam o texto, no final, um verdadeiro prazer de leitura.

Construído quase que de forma circular, pois parte quase do final para ser desenvolvido em flashback, o livro – pequeno – vai construindo uma história que sempre vai nos surpreendendo. A trama, bem construída, vai nos envolvendo e, a cada linha lida, temos vontade de ler a seguinte, saber como a história se desenvolveu, como terminou.

De fato, li o livro em um fôlego só. E nem tanto pelo seu tamanho, mas pela atração e envolvimento proporcionado pela história. Resumindo: gostei muito. E vi uma Doris Lessing bem diferente do que havia lido, do que conhecia. Chego a pensar que, neste caso, existem duas escritoras.

Uma, a que se dedicou à ficção científica, um tema que, muitas vezes, não tem profundidade. Outra, que escreveu As Avós, uma história deliciosa mas que, no final, vai permitir uma boa reflexão sobre os relacionamentos humanos.

Como dizem que a primeira impressão é a que fica, gostei tanto de As Avós que vou procurar ler outros livros da autora, que não os da série Canopus.

Hoje eh o ultimo dia que falaremos sobre o tema proposto pela Cica, tema esse que rendeu discussoes excelentes aqui no clube do livro. Acho que foi consenso que o livro Desonrada da Mukhtar Mai nao foi la grande coisa e poderia ser muito melhor escrito, mas no final acho que todos nos concordamos que esse tipo de livro tem uma razao de ser.

Abordando o tema proposto falei aqui no clube sobre a violencia domestica contra a mulher e tambem sobre a importancia de uma educacao mais libertaria para meninos e meninas para mudar a questao do sexismo no futuro.

Hoje, fecharei o tema com algo que comecei a semana passada, abordando o tema Violencia em um contexto geral e como uma doenca. O fato eh que apesar de entendermos que a violencia deve ser combatida, pouco entendemos sobre a violencia em si. E na tentativa de entender um pouco mais sobre essa tal de violencia, resolvi ler um artigo sobre a neurobiologia da violencia escrito por Jan Volavka. Hoje portanto, termino meus posts sobre o tema proposto pela Cica com um resumo do que aprendi sobre violencia.

Fatores Sociais e culturais sao importantes no desenvolvimento de um comportamento violento. No entanto, esses fatores e suas flutuacoes geram respostas diferentes em diferentes pessoas. Na verdade o comportamento violento se desenvolve atraves de uma complexa interacao entre fatores neurobiologicos e ambientais. Esse artigo se foca principalmente na neurobiologia e argumenta que alguns dos mecanismos do comportamento violento sao bastante similares ou ate mesmo identicos aos relacionados ao comportamente suicida.

Fatores Externos:

O uso de substancias tais como alcool ou drogas sao de fato relevantes para aumentar a violencia. Nos Estados Unidos 34% dos casos de violencia eh suposto ser devido ao uso de substancias quimicas. Apesar do fato de pessoas com problemas mentais tais como esquizofrenia e problemas de humor normalmente ter uma tendencia maior a pratica de crimes mais violentos, apenas 4 % dos crimes nessa pesquisa eh atribuido a pessoas com essas doencas. No entanto, essas doencas misturadas com o consumo excessivo de substancias como alcool e drogas, pode aumentar e muito o fator de risco. Outros tipos de doencas mentais, tai como demencia e retardamento mental pode engatilhar um comportamento violento impulsivo, mas isso em menor escala que os anteriores.

O ambiente aonde crescemos tem um efeito poderoso no comportamento violento. Pelo menos 33 % das criancas que crescem vitimas da violencia domestica dao continuidade as agressoes em suas familias, com os filhos e companheiros (a Scliar escreveu um post super legal que se encaixa bem aqui nesse ponto) . Esse ambiente domestico eh determinado pelo comportamento dos pais e esse comportamento nao eh independente dos problemas geneticos dos mesmos. Portanto, fatores geneticos e ambientais influenciam de fato o desenvolvimento de uma crianca.

Fatores Internos:

O comportamento agressivo pode ser aprendido sim, no entanto essa nao eh a unica forma de tornar as criancas violentas. O desenvolvimento do cerebro nessa hora tem um papel importante no comportamento futuro das criancas. Consumo de alcool durante a gestacao ou rejeicao materna prenatal tambem podem aumentar a predisposicao para um comportamento agressico da criancas em sua fase adulta.

Neurotransmissores e hormonios, incluindo esteroides e outras substancias estao tambem relacionados com comportamento agressivo. Serotonina, que eh um neurotransmissor, mimetizada por algumas drogas e alimentos, por exemplo exerce um controle de impulsos agressivos. Baixo nivel de CSF 5-HIAA (que entendi ser um acido – 5-HIAA – no fluido espinal cerebral) foram encontradas em pessoas agressivas. Aparentemente essa substancia esta fortemente relacionada com o nivel de agressividade, indice de suicidios e ate mesmo o alcoolismo, que por sua vez, acentua ainda mais a agressividade. Outro neurotransmissor importante nesse caso eh a Noradrenalina. E por ai nao acaba mais… nao vou entrar em detalhes de cada substancia pois sao muitos detalhes para escrever em um post e nao tenho intencao e nem a pretencao de ser especifica. Mas o que importa eh que existem substancias em nosso organismo que comprovadamente, em baixos niveis ou auto niveis, propiciam o comportamento violento. Se nosso organismo eh incapaz de produzir essas substancias a contento e em equilibrio, o desbalanco acontece e a agressividade aparece. O que deve ficar claro aqui eh que essas substancias que contribuem para o controle da neurotransmissao sao geralmente transmitidas atraves dos genes. Essa funcao nao pode ser modificada por fatores externos a nao ser por mutacao genetica. Somada a outros fatores externos o comportamento agressivo inerente pode ser amplificado mas nao modificado permanentemente.

Genero e a violencia:

Nos Estados Unidos, aonde essa pesquisa foi feita, 85% dos presos por crimes violentos sao homens. Uma porcentagem semelhante tambem eh verificado em pesquisas e nos relatos pessoais feitos nas comunidades normais. No entanto, dentro de comunidades com problemas mentais ou uso excessivo de substancias quimicas, essa diferenca se reduz brutamente. Em hospicios nao ha diferencas entre os generos e ambos os sexos apresentam o mesmo grau de agresividade.

Segundo o artigo, a diferenca na agressividade entre os generos se desenvolve na pre-escola e atinge seu apogeu na puberdade. Homens tambem sao mais vulneraveis ao alcoolismo do que as mulheres.

Existem alguns tipos de substancias relacionadas com o controle do comportamento agressivo que sao de fato bastante limitadas nos homens. Um nivel elevado de testostetona pode tambem estar associada com a agressividade na juventude, e isso vale tanto para adolescentes homens e mulheres, mas eh muito mais predominante nos meninos. Mas, ainda nao existe nenhum consenso a respeito das causas dessa diferenca e predominancia da violencia masculina.

Prevencao e Tratamento da Violencia:

- Uma maior atencao e cuidados no pre-natal e natalidade pode reduzir consideravelmente o nivel de violencia em uma sociedade.

- Tratamentos detox, combatendo alcoolismo e uso de substancias toxicas, sao fundamentais ja que esses fatores sao os fatores externos que mais influenciam o comportamento agressivo.

- A reincidencia de crimes violentos pode ser reduzido consideravelmente com um tratamento detox nos presidios.

- Tratamento e acompanhamento psiquiatrico deve ser estimulado e encorajado a pacientes com problemas mentais ou de personalidade, principalmente os que apresentam uma maior propensao a um comportamento agressivo.

Existem tratamentos para a violencia. Nos casos mais simples uma terapia ou acompanhamento psicologico deve ser suficiente. Casos mais graves tambem podem ser tratados atraves de medicamentos e reposicao de substancias tais como o Litio ou Clozapine, muitas vezes usadas para o controle da depressao e desfuncao cerebral.

A pessoa violenta deve ser considerada doente e deve ser encorajada a iniciar um acompanhamento medico, seja ele de desintoxicacao, de carater psicanalitico ou ate mesmo de reposicao de substancias.

Por outro lado, tratamentos para a agressao ainda eh motivo de contestacao e debates, e ainda muita coisa permanece no obscurantismo. Entender a neurobiologia da violencia no contexto biosocial eh fundamental para um convivio social mais feliz ! Se queremos paz, temos que trabalhar duro por ela pois ela nao vira sem um esforco coletivo. E isso foi muito bem colocado pela Dani em seu post e com sua tirinha.

Aprendi bastante com essa leitura. Duvidas ? Eu ainda tenho varias, mas acho que por hoje eh so !

Para quem quiser ler o texto na integra, ele pode ser baixado desse link aqui. Esse mesmo autor possui varios livros na area caso alguem tenha interesse em se aprofundar mais no tema.

Um abraco a todos e tenham um otimo domingo sem violencia !

Lys

Esse é o último post sobre esse tema super interessante escolhido pela Cissa. Desde o comeco, antes mesmo do livro ser escolhido, esse tema já estava dando pano pra manga nos e-mails que trocamos entre os participantes do Clube do Livro. A discussão continuou aqui nos posts, sempre de forma super interessante e enriquecedora.

A verdade é que ninguém passa batido, sem ter nenhuma opinião ou uma reflexão a respeito, quando o tema é esse. No caso da Mukhtar, que foi estuprada, a violência é física e, por isso, visível. Quando a violência deixa provas concretas, o nosso engajamento intelectual e emocional acaba sendo quase que imediato. Primeiramente ficamos revoltados com o ato em si e sentimos extrema empatia com a vítima, para depois passar a tentar fazer com que alguma coisa nessa história terrível faca sentido. A mesma coisa ocorre quando, por exemplo, falamos de circuncisão feminina. “Que coisa horrível, que ato bárbaro. Pobre menina, doe em mim só de pensar. Mas é a tradicão deles, a cultura é assim.” A verdade é que quanto mais longe da nossa própria cultura, mais difícil fica de compreender os rituais dos outros, ainda mais quando esses envolvem violência física. Já a violência que não deixa tracos físicos não nos engaja da mesma maneira. Por exemplo:

- Milhares de fetos são abortados todos os dias e em muitos países unicamente pelo fato de que esses fetos são meninas.

- Milhões de mocas e rapazes sao obrigados a aceitar casamentos arranjados por suas famílias.

- Milhares de viúvas na India são condenadas a viverem isoladas, sem contato algum com a sociedade, pelos simples motivo de que seus maridos estão mortos.

- Milhöes de mulheres ainda hoje recebem salários bem menores que homens, mesmo desempenhando a mesma funcão e tendo cargas horárias equivalentes.

- Milhões de mulheres alteram seus corpos através de cirurgias estéticas, colocando muitas vezes suas vidas em perigo, a fim de que consigam corresponder aos padrões sociais de beleza.

Na minha opinião, a violência que se pratica de forma sutil, tao sutil que a própria vítima não se percebe como tal é a  pior de todas. Mukhtar já era vítima dessa violência muito antes dela ter sido estuprada, mas por conta da quietude dessa violência, ela jamais recebeu ajuda, tão pouco identificou ela mesmo que necessitava de ajuda.

Ou a tradição da violência? Porque ela não se restringe à mulher. Do homem contra a mulher. É homem contra homem. Mulher contra mulher. Nação contra nação. Pele contra outra pele. Os fatos não me deixam mentir: André São Pedro, 22, estudante de farmácia, Maria Dias, 24, estudante de medicina e Thaís Tibiriçá, 24, estudante de jornalismo,brasileiros, foram barrados em Dublin. 48 horas na prisão. André é negro. Maria, morena. Uma garota de 12 anos é mantida acorrentada e espancada. Responsável: Sílvia Calabresi Lima, 41, empresária. Do marido, no mínimo cúmplice por omissão, nada se sabe. Os fatos relatados causam espanto e horror – mas se repetem continuamente e nada parece mudar.

Naturalmente violento
Será a espécie humana, como outras, naturalmente violenta? Afinal, é o homem que mata outro homem, seu vizinho, seu amigo, gente do mesmo agrupamento, coisa que poucas espécies fazem. Aponta-se a educação como saída para reverter tais fatos. Mas o ato de educar é violento – da violência física, até pouco aceita e estimulada, à violência psicológica. Bater com o chinelo, bater com cinto, dar umas palmadas ou uns cascudos – isto ainda é considerado “educar” em muitas famílias. Apenas 16 países no mundo proíbem que os pais dêem palmadas nos filhos. Na América Latina, somente o Uruguai. Para a sociedade, este é um “direito” dos pais (voltarei ao assunto no final do post: direitos x violência).
Paulo Sérgio Pinheiro (USP) realizou uma ampla pesquisa e encontrou dados estarrecedores. Em 106 países, é permitido que as escolas empreguem castigos corporais. Quando se trata de instituições assistenciais, o número sobe para 147 países. Em casa, como já vimos, o uso é generalizado.

Escândalo através dos séculos
O hábito de bater em crianças escandalizou os índios brasileiros, durante a colonização. Bater em crianças é algo impensável nas tribos. Não que eles fossem “bonzinhos”. Sua violência manifestava-se de outras formas. Além da violência física, há a violência psicológica. Fiz um trabalho prático com meus alunos de Mídia Eletrônica, em que eles precisavam desenvolver uma campanha publicitária para combater o bullying. Bullying é uma espécie de assédio moral (outra forma de violência) nas escolas. Estudo da ABRAPIA, Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência, demonstrou que 45% das crianças e jovens do Rio de Janeiro envolvem-se com a prática do bullying, seja como vítimas, seja como alvos (muitas vezes, das duas formas). Os números são condizentes com pesquisas realizadas em outros países. Pois bem, no final da aula, uma das alunas me procurou, com lágrimas nos olhos –“Então era isto que faziam comigo!” Contou que, aos 18 anos, fez uma cirurgia só por causa dos traumas que ficaram da infância. Os professores? Ausentes.

Vergonha, vergonha, vergonha
Vergonha, acreditar que a dor interna é normal, que isto acontece com todo mundo são alguns dos motives que levam as pessoas a se calarem. Mukhtar tem o mérito de ter falado, aberto a porta para a discussão do problema – um passo para encontrar a solução. Se somos violentos por natureza, o que fazer com esta violência, negada e renegada? Existe uma violência “do bem”?

As fronteiras da violência
O impulso da morte – Tanatos – foi desviado através dos tempos para rituais religiosos. Rituais de dança. Rituais de competição. Nos esportes, dos gladiadores gregos aos cavaleiros medievais; da caça à luta de boxe. Já tentaram me convencer que luta de boxe é um balé. Balé? Qual a graça de ver dois homens se esmurrando? Qual a graça de uma tourada? De uma farra do boi? Uma rinha de galos?
É claro que muitos irão alegar que existe uma graduação na violência, mas estabelecer este “termômetro” me parece muito difícil. Na época da abolição, os escravocratas se revoltavam com a perda do seu direito à propriedade. Sim. Os escravos eram “bens”, portanto, propriedades, direito este que a abolição estava violando. O mesmo direito que, hoje, os pais alegam em relação aos filhos. Assim, a questão da violência acaba tangenciando a questão dos direitos, mas todo direito positivado (adquirido) acaba por negativar um outro direito. O direito da criança de não receber palmadas significa a restrição da liberdade dos pais de darem palmadas, significa o direito do Estado interferir na vida privada. Por mim, lutas de boxe (e qualquer tipo de luta) seriam proibidas. Extremismo? Pode ser. E as violências do bem, como a arte? Já foi citado aqui o filme Laranja Mecânica. Ok. Mas como ficaria o Clube da Luta? E as panfletagens que inflamam as massas? Qual o limite e a fronteira entre uma violência aceitável e uma que deve ser combatida?
O Livreiro de Cabul, cuja história virou livro, considerou a publicação uma violência sem fronteiras – pois a vida morre, mas as palavras ficam.

Fiquei pensando e pensando sobre o que escrever nesse post… não aguento mais tanta violência no mundo, nas ruas, no trânsito, no trabalho e em todos os lugares!! Não sei a solução pra toda essa violência, não chego nem a me atrever a tentar!! Mas acredito que a violência vive dentro de nós, faz parte de cada um!! E nem venha me dizer que você é a pessoa mais pacífica do mundo… em algum momento sua violência aparece, mesmo que seja bem canalizada!! Eu mesma quando dirijo sou quase possuída por um monstro violento… xingo, ultrapasso, tenho vontade de matar vários!!! Por isso mesmo me policio muito, ligo o som com alguma música que goste e tento relaxar… mas é a minha face violenta querendo tomar conta!!

O que fazer então se somos todos violentos?!!? Como poderemos diminuir ou acabar com a violência se ela faz parte de nós?!!? Sinceramente eu não sei.. mas acho que depende de cada um de nós (claro, além de muitos outros fatores!!) aprender a canalizar nossa violência, a usá-la pra outras coisas que não a destruição.

Enfim, acho que não dá mais pra ficar só culpando o governo e esperando algo acontecer… já passou da hora de cada um fazer a sua parte e ajudar o outro a fazer a dele!! Só assim talvez tenhamos a chance de conseguir a tão sonhada PAZ!!!

doris.jpgO mundo caminha, não tenho dúvida, para o matriarcado. Hoje, em todos os lados que se olha a mulher está ganhando espaço, conquistando posição e se destacando. Mulheres estão ocupando, com muita competência, as mais importantes posições e chegam a sonhar em comandar a mais poderosa nação do mundo. Então, isso não é um sinal?

Deixando de lado a minha bola de cristal, que não é nada eficiente, voltemos a este clube e à prevalência que as mulheres têm nele. Eu e o Álvaro somos, neste caso, os “bendito fruto” entre elas, ardorosas defensoras – com justa razão – do espaço feminino. E para completar esta prevalência – que ainda não chegou ao matriarcado – mais uma mulher entra para o Clube, a escritora e ganhadora do Prêmio Nobel, Doris Lessing.

Confesso não ter votado nela, mas como a democracia diz que a maioria vence, me curvo ao resultado. Dos autores sugeridos, os outros dois não tinha lido e gostaria de ler J. M. Coetze e o seu mundo e visão da África do Sul, um país que acho fascinante e onde Lessing viveu por muitos anos, chegando a ser banida devido às suas críticas ao apartheid.

Li, de Doris Lessing, os livros da série Canopus, que podem ser classificados como ficção científica e que, na opinião de críticos, têm influencia sufista, já que trata, muitas vezes, de situações interiores. A prosa de Lessing é espessa, os livros são bons, mas são de leitura lenta, de apreciação mais longa e, diria até, de um entendimento mais difícil, já que é uma literatura refinada, se compararmos, por exemplo, com Desonrada e, mesmo, com Admirável Mundo Novo.

Acho que pode, sim, ser uma ótima experiência ler da mesma autora um outro tipo de literatura e, assim, poder julgá-la e ao que escreve com base em linhas diferentes de trabalho. O livro já está encomendado. E como neste final de semana temos, aqui no Espírito Santo, um feriadão, vou lê-lo e, na próxima segunda, prometo, volto aqui para falar de minhas primeiras impressões.

Hoje eh meu ultimo post livre sobre o tema Violencia por Tradicao proposto pela Cica. Semana que vem todos os autores se focarao no tema proposto e discutirao suas ideias sobre a questao. Eu decidi falar do tema proposto hoje e dar continuidade a semana que vem pois acho, do fundo do coracao que a Violencia nao esta relacionada com a tradicao no sentido que usamos para esse livro, mas a questao eh imensa e complicada o suficiente para ter que ser dividida em dois posts loooonnngos, bem meu estilo :D . Como assim ? Vou explicar.

Os seres humanos sao tradicionamente violentos. O que quero dizer eh que durante a historia inteirinha podemos citar casos serios de violencia entre todos os povos e civilizacoes, no entanto, nao acredito que a violencia esteja intrinsecamente relacionada com religiao, nem tradicao, nem cultura, nem classe social, nem com educacao, nem nada. O fato eh que a violencia nao se justifica nunca. Temos exemplo dos dois lados em todas as racas, pessoas violentas e nao violentas coexistindo em varios lugares do planeta independente de qualquer coisa que seja e o negocio eh homogeneo.

Pode ser que alguns lugares as pessoas violentas sejam mais violentas e outros menos violentas, mas a violencia esta em todas as partes. Ela pode ser amplificada por fatores externos e ai cabe sim todos esses que citamos acima, mas estou desconfiada que a violencia eh intrinseca aos individuos, mas nao entendo o porque. A tradicao, ou o que quer que seja, na minha opiniao eh apenas uma muleta para justificar a violencia por varios motivos. Talvez porque a violencia em pequeno caso ainda nao tenha sido entendida como uma doenca, ou porque eh dificil entender o que pode tornar uma pessoa violenta, principalmente quando se trata de alguem que amamos. Mas sera que violencia eh uma doenca ?

No meu post passado falei da violencia contra a mulher. Coloquei o tema como sendo um consenso absoluto porque tenho fe na humanidade. Tirando algumas faccoes que pregam a tal “Ultraviolence” e podemos ate achar sites sobre isso na internet, existe de fato um consenso de que a violencia, seja ela qual for e contra quem for deve ser combatida sempre. No entanto, para combater algo eh necessario conhecer seu adversario e muito bem. E ca entre nos, ate onde vai nosso conhecimento sobre violencia ? Sera que de fato a violencia pode ser combatida ?

Esses pensamentos me fizeram lembrar imediatamente o famoso filme do Stanley Kubrick, chamado Laranja Mecanica, que conta a historia do lider de uma gangue de delinquantes que eh preso e usado como cobaia num experimento para frear impulsos destrutivos. A esses impulsos destrutivos foi dado o nome de “ultraviolence”, termo esse que ficou conhecido atraves do filme.

Mas durante essa semana comecei a pensar melhor sobre o termo Violencia e algumas perguntas vieram a minha cabeca:

1. O que faz uma pessoa se tornar violenta ? Isso eh organico ? Genetico ? Temporario ? Inerente a cada individuo ?

2. Sera que a violencia faz parte de todos nos e alguns possuem essa tendencia mais aflorada a desenvolver atos violentos ? E as outras pessoas ? Apenas reprimem ? Seriamos todos nos violentos reprimidos ?

3. Se for por ai, o que faz entao com que algumas pessoas nao consigam controlar sua violencia interna ? Substancias externas ? Substancias internas desequilibradas ? O que gera esse desequilibrio ?

4. Sera que a violencia nao eh inerente ao ser humano e os acontecimentos externos durante nossa existencia dao origem a esse comportamento ? Como relacoes de amizades, filmes, jogos de violencia, traumas de infancia. Ate que ponto isso eh efetivo ? Funciona para todas as pessoas da mesma forma ?

5. Existe solucao para um ser violento ? Isso eh uma doenca ? Pode ser tratada ?

Posso ate dar uns chutes em uma pergunta ou outra e tenho minha intuicao obviamente, mas eu devo confessar que sou uma ignorante completa em relacao a isso. No entanto, como falar de violencia se eu se quer sei o que ela eh ? Conheco suas consequencias mas nao ela de fato. Sei que pode aparece em varios graus de intensidade mas nao sei porque. E para combate-la antes de tudo precisamos entende-la !

Fiquei entao bastante curiosa para saber o quanto sabemos sobre esse impulso destrutivel que assombra a humanidade. Minha curiosidade eh infinita e comecei com minhas buscas no google e pela wikipedia.

Achei entao um artigo bastante interessante, datado em 1999, de um PhD chamado Jan Volavka sob o titulo – A Neurobiologia da Violencia: Uma Atualizacao. Comecei a ler e achei bem interessante e eh com um resumo desse texto, tentando entender melhor o que existe por traz dessa tal violencia que mata e maltrata seres humanos, que fecharei esse tema proposto pela Cica !

Mas como quero reler com calma e fazer umas outras pesquisas, voces terao que aguardar a semana que vem pois por hoje eu paro por aqui !

Infelizmente para esse post eu so tenho perguntas para oferecer. Perguntas essas que estao fervilhando meus neuronios nesse exato momento. Espero que semana que vem eu consiga trazer algumas solucoes !

Muitos beijos a todos e ate domingo que vem.

Lys

Você é como uma criança que aprende a caminhar. É uma vida nova e você tem que recomeçar do começo. Eu não sou psiquiatra mas me conte sobre a sua vida antes disso tudo, sobre a sua infância, seu casamento e até mesmo sobre essa situação horrível a qual você foi submetida. Você tem que falar, Mukhtar, porque falando a gente põe pra fora tanto coisas boas quanto ruins. A gente se liberta. É como lavar uma peca de roupa suja: só quando ela finalmente fica limpa é que a gente pode usá-la sem receio.

(…)

“- Você fala sempre o que você pensa?

– Sempre!”

(…)

“Eu consegui realmente falar com Naseem e contar tudo pra ela. (…) O meu sofrimento físico e psíquico, a vergonha, a vontade de morrer, a confusão mental, como quando eu voltei sozinha para casa e me atirei na cama, como um animal agonizante. Pra ela eu pude falar coisas que seriam impossíveis de ser faladas para minha mãe ou minhas irmãs, pois, desde muito pequena, somente uma coisa eu fui ensinada – a me calar.”

Esse insight da Mukhtar, pra mim, valeu o livro, e a partir daí eu comecei a achá-lo interessante. Foi a necessidade de fazer com que a sua história fizesse sentido, que a levou a tomar as atitudes que ela tomou. Foi assim que ela aprendeu a falar – até então, ela só repetia a história dos outros.

Beijo pra vocês e bom fim de semana.

O proximo tema a ser discutido no Clube do Livro foi escolhido pela Luciane e sera Ler pelo prazer de ler um livro bem escrito.

Tres livros foram colocados em votacao nesse post aqui e o escolhido pela maioria foi As Avos da escritora britanica Doris Lessing que acabou de ser contemplada com o Nobel de Literatura em 2007.

O livro conta a historia de duas amigas em 104 paginas. Leia abaixo a sinopse completa do site submarino:

“Roz e Lil são amigas inseparáveis desde a infância. Cresceram, casaram, tiveram filhos, e vivem na paradisíaca bacia de Baxter, um lugar cercado de rochas por todos os lados. O ambiente protegido, “bocejante”, além do qual o “verdadeiro oceano rugia e roncava”, é o cenário ideal para uma relação cada vez mais simbiótica. Morando em casas vizinhas, elas criam os filhos por conta própria – e eles se tornam adolescentes encantadores.Tão encantadores e próximos, que Roz e Lil não tardam a se envolver uma com o filho da outra. Num efeito ambíguo e desconcertante, típico da grande literatura, o que poderia parecer repulsivo é tratado com naturalidade e bom-humor, fazendo a quebra de tabus soar como regra, e não como dramática exceção. Temas como a amizade, maternidade e sexualidade ganham novos contornos enquanto Doris Lessing esmiúça as complexidades e armadilhas da forte ligação entre essas duas mulheres, e retrata a força com que elas confrontam as convenções familiares e sociais de sua época.”

Iniciaremos a discussao desse novo tema no dia 31 de Marco. Enquanto compramos nossos exemplares e iniciamos nossa leitura voces ficarao com nossos ultimos posts sobre o livro Desonrada.

E nao esquecam que semana que vem todos os autores colocarao seu ponto de vista sobre o tema proposta pela Cica: Violencia por Tradicao.

Acho que agora que começamos a falar o que incomoda no livro, a porteira está aberta! E, gente, é tãoooo bom criticar! Kkk Criticar os outros, ok? Mas falando sério, a história é tão trágica, que acaba criando uma barreira, nos deixa um pouco “culpados” por apontar problemas, seja na historia, seja no livro.  Pensei nisto e conclui que, ora bolas, não posso me sentir culpada de ter uma vida totalmente diferente. E como polemizar ainda faz parte das regras do jogo, vou botar mais lenha na fogueira sobre o assunto “educação para um mundo melhor”. Melhor para quem?

Santas…
Mukhtar, ao se descrever, projeta para o leitor o tipo de mulher que considera ideal. Ok, ok: eu sei que isto é um reflexo da sua educação e da sua cultura. Mas somos todos filhos do nosso tempo! Vamos lançar um olhar sobre esta mulher, pinçando as palavras de Mukhtar. Recatada. Obediente aos pais e à família (aceitou o primeiro marido sem questionar). Exerce tarefas “femininas” (borda, dá aulas – mesmo analfabeta, são aulas orais). É religiosa, tem fé no Corão. Mais: após o divórcio, volta para a família e “vive longe dos homens, como é seu dever”. Mantém o rosto coberto e baixa a cabeça.  Este é um dos motives de sua revolta – como tal tragédia se abateu sobre ela, uma mulher tão boa? Aliás, diga-se de passagem, isto não é exclusividade do Oriente. Quem nunca ouviu pessoas que vivem alguma tragédia clamarem aos céus: – Por que isto aconteceu comigo? Os jornais não me deixa mentir, indo dos muitos famosos que são assaltados até os pobres anônimos, nossos amigos. Como se ser bom cidadão (seja qual for o parâmetro) garanta proteção contra as infelicidades em nosso mundo mortal!

… e Pecadoras
E quem é o contraponto desta mulher perfeita? Samara, a mulher que desencadeou toda a desgraça. 27 anos Não é virgem. Fez um aborto Não abaixa a cabeça. Sai quando quer. Se mexe muito. Tem comportamento agressivo. Fala firme e forte. Conhecemos há muito este maniqueísmo. A Virgem Maria e Madalena.  A mulher para casar mãe-esposa e a mulher para ter prazer. Mulher fácil x mulher “difícil”. Essa postura justificativa agressões: se a mulher esposa não é perfeita, posso “educá-la”, colocá-la nos eixos. Uma mulher que está fora do padrão perde sua honra.

Lições de todo dia
Tais preconceitos, como aponta Mukhtar, podem ser derrubados pela educação – mas a educação também perpetua as diferenças nas lições de todo dia.
Na escola de Mukhtar, a assiduidade dos meninos é premiada com uma bicicleta –garantia do direito de ir e vir. Símbolo da aventura de descobrir novo horizontes.
As meninas? Ganham uma cabra – amarras para ficar no mesmo lugar. Símbolo do cuidar e do casar. Afinal, não é disto que são feitas as meninas?
Quantas cabras valemos nós?
Ethel Scliar

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