Mukhtar Mai, a desonrada do livro de mesmo título, busca justiça. Justiça divina, justiça humana, justiça pública. Há muito que discutir sobre estes vários tipos de justiça – a começar pelo próprio título, pois vale discutir o que é honra e o que não é… Mas isto fica para outro post. Hoje, fico com a discussão da justiça paralela.
Dois pesos, uma só medida
A questão dos tribunais paralelos não é privilégio do Paquistão. Tem no Brasil também. O problema, como fica claro no livro, é que estes tribunais realizam os julgamentos sempre da mesma forma e o resultado só varia conforme a cara do “freguês”. Que freguês é este?
Minorias para todos os gostos
Mukhtar Mai é o símbolo da minoria constituída pelas mulheres – pois são elas que representam o grupo que pode ser vitimizado e brutalizado. Muitos dizem que as mulheres não são minoria, representam 50% da população. Balela. A minoria aqui, é de quem detém ou não o poder. Outras minorias também merecessem ser citadas: crianças, homossexuais, negros e pobres.
E no Brasil…
Charles Wagner, 32 anos, foi julgado e condenado. Pena: morte com 4 tiros.
Olhar para a namorada de um amigo. Traição. Abandonar o marido. Estes são alguns dos motivos que levam as pessoas a buscar uma justiça paralela e as milícias, que rapidamente colocam em ação o julgamento. Tem direito a defesa. O júri conversa entre si. O resultado é um só: pena de morte. Os motives lembram os apresentado por Mukhtar Mai em seu livro, geralmente fúteis, geralmente associados ao relacionamento homem-mulher, mesmo que isto seja apenas uma mascara que encobre outros interesses – posse de terras, territórios para drogas, poder e ganância, simplesmente. Não importa. O que se vê é que o tema sexualidade e relacionamento serve como uma luva para tudo e é socialmente aceito. Me pergunto o porquê.
E o mais estranho, é que os tribunais paralelos, os tribunais de pequenas causas e comunitários surgiram para, justamente, amparar as minorias. Deu no que deu. Mas fica para outro post.
Ethel Scliar
PS: Até bem pouco, aceitava-se no Brasil que um assassino escapasse alegando “legítima defesa da honra”, lembram disto?

2 comments
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Fevereiro 27, 2008 às 9:44 pm
Lys
Scliar ! Parabens pela netinha !!!
Pois eh, justica com as proprias maos e legitima defesa da honra sao bem parecidos ne nao ? E tem um monte de filmes desse genero aonde 99 % dos casos o assassino que lavou sua honra eh absolvido no final. Na vida real tambem acontece de monte, voce tem razao.
beijocas
Lys
Fevereiro 28, 2008 às 8:02 pm
ethel scliar
Lys, entre uma babada e outro no netinho, vou mantendo em ordem o blog… Por enquanto ele ainda não está vomitando no computador! kkk MAs concordo inteiramente com você: a mídia, inclusive a produção “artístico-intelectual” reforça e muito a defesa da honra. Eu, ainda, não consigo entender direito o que é esta tal de honra. Vou por o tico e teco para funcionar…