CADA UM EM SEU LUGAR
Admirável mundo novo, com sua construção de corpo e mente, determinando castas e funções para manter a estabilidade social. Mais admirável ainda, quando o avanço das biotecnologias colocam em xeque algumas certezas. Parece “natural”, “normal” e “desejável” que a ciência contribua para um mundo melhor. O problema? Definir o que é este melhor.
DESIGNER BABYS: OS BEBÊS PROJETADOS
Valorizar o normal, ou o diferente? Aceita-se, de fato, a diversidade? As biotecnologias promovem a inserção ou a exclusão? Muita gente considera aceitável, até mesmo desejável, o uso de técnicas para implantar embriões sem problemas genéticos. – Vade retro satanás, isto não é eugenia!, clamam. Mas, e se a escolha for determinante para selecionar o gênero, como ocorre na China? Qual o avesso da ciência? Sandra Duchesneau e Candy McCullough, surdas de nascença, buscaram um banco de sêmen para fazer inseminação artificial. Queriam um filho surdo. Não conseguiram no banco, mas um amigo fez a doação. Afinal, a surdez pode ser uma opção de vida? E quanto à Síndrome de Down? Casal com filho com Síndrome de down recusou-se a fazer o teste para descobrir se o segundo filho era portador também. Disseram que isto significaria uma rejeição ao primeiro. E assim, tiveram o segundo filho – com Down também. Você optaria, como eles, por um bebê com estas características?
QUANTO VALE UM SER HUMANO
Quando nasceu Louise Brown (1978), começou a discussão sobre até onde poderiam ser realizadas tais intervenções. Tudo em prol da ciência! Na seqüência, surgiu o Banco de Esperma de Gênios (Repository for Germinal Choice), criado por Robert Klark Graham no final da década de 1970. Graham convidava ganhadores de prêmio Nobel, desportistas e artistas famosos. Depois, oferecia por catálogo os espermas, descrevendo suas qualidades. O projeto de Graham teve forte impacto e abriu as portas para que os casais pudessem, ativamente, selecionar o tipo de doador que gostariam ter – e pagar. Quanto a Louise Brown, um detalhe: a mãe fez um contrato de cobertura exclusiva com o Daly Mail pela bagatela de US$ 550 mil. Ou seja: as relações econômicas sempre andam de mãos dadas com a ciência – e é isto que provoca arrepios.
E se você não pode escolher o gene de seu filho, escolha ao menos um bichinho de estimação geneticamente transformado:
*Cortesia de Ju, em desemburrecendo.




5 comments
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Fevereiro 20, 2008 às 5:55 am
meyviu
Eu não sei se o post foi feito pra determinar a idéia do que o Huxley quis passar quando descrevia o processo de “criação” das pessoas, mas, pelo que entendi ao ler o livro, a descrição era uma forma, digamos, “maquiada” de como são as coisas. A eugenia existe em todo lugar, das panelinhas na escola aos networkings corporativos, o grupo já faz questão de escolher quem participa dele. Tome-se de exemplo os alimentos geneticamente modificados. Não se sabe quais são seus efeitos, não vão surgir agora nem daqui a 40 ou 50 anos mas quem sabe após algumas centenas de anos o que vai acontecer? Agora, na realidade, quem consome transgênicos? A dona-de-casa classe média-alta que faz compras em supermercados onde a venda de alimentos perecíveis é certificada por não conter agrotóxicos e ser 100% natural ou a mulher que batalha todo santo dia pra poder comprar os produtos mais baratos que encontra na prateleira?
Fevereiro 20, 2008 às 10:36 am
Lys
Pois eh Scliar. Se desejamos criar um futuro, temos que pensar bem em qual futuro queremos criar. Muito bem colocado. Mas sera que temos o direito de ter a pretencao de criar um futuro para as demais geracoes ? Eu tenho sim o direitio de criar circunstancias para minha existencia mas nao para as futuras.
Ja pensou uma geracao inteira apenas de alpha plus ? A “purificacao” da raca. Mais ou menos o que Hitler queria fazer nao eh mesmo ?
Eh bastante tentador para os pais querer predefinir o que o seus filhos vao fazer da vida. Isso ja acontece na nossa sociedade. A maioria dos pais tentam impor profissoes e comportamento para seus filhos o tempo todo. Somos rotulados mesmo sem ter gens predestinados a ser uma coisa especifica. O que sera entao que aconteceria com uma crianca predestinada a ser um cientista de ponta por exemplo ? Sera que eh legal
impor um compromisso dessa maneira para seus filhos desde tao cedo ? Isso eh o mesmo que colocar um rotulo e colocar na prateliera. Muito bem sacado
Agora uma pergunta, o que garante que o filho de dois cientistas tambem tera a mesma capacidade cientifica dos pais ? Imaginem, eu sou astronoma, meu marido tambem… sera que toda nossa prole esta condenada a se dedicar ao estudo do universo ? Vamos ver… essa eu pago para ver
Prometo que nao vou influenciar meus rebentos
beijos
Lys
Fevereiro 20, 2008 às 10:46 am
Lys
Ei… ja inventaram algum cachorrinho que nao faca coco e nem xixi ?
bjs
Lys
Fevereiro 21, 2008 às 5:58 pm
Lino
Quem determina o que é normal, sempre, é o establishment, o que significa a maioria, mesmo que silenciosa. Se não concordamos com ela, somos desviantes e, portanto, a exemplo de Bernard Marx, podemos ser ejetados da sociedade. É assim no social e também na ciência.
Quando se fala no melhor, não é o melhor individual, mas olhando-se o estabelecido na sociedade. Mas será que é o melhor mesmo? É a velha questão das dúvidas do selvagem.
Fevereiro 21, 2008 às 8:33 pm
Luciane
Oi, Scliar! Eu gostei da idéia do Meyviu, de que o lance da criacao de humanos na história do Huxley como uma metáfora. Faz sentido, né?
Mas voltando ao seu exemplo, do casal com Down, eu lembrei de como funciona aqui na Suécia. Todas as grávidas com mais de 35 anos são “convidadas” a fazer um exame gratuito, que identifica possíveis doencas genéticas do bebê, esse mesmo que o casal que vc citou se recusou a fazer. Não é uma forma de fabricar bebes, mas de escolher quais são desejáveis ou não, e isso e super delicado.
Beijo!