Para finalizar meus posts em tema livre, escolhi um tema que me intrigou durante toda a leitura do livro. Pouco se comentou sobre isso aqui no Clube portanto vou propor o tema novamente ate chegarmos ao climax da questao
. Vou dividir com voces minhas impressoes sobre a questao sexual proposta pelo livro Admiravel Mundo Novo.
No mundo civilizado as pessoas sao livres para fazer sexo sem o compromisso de amar. Amor, assim como conhecemos no mundo dos selvagens, eh algo profano e que so existe mesmo entre a selvageria. O conceito de familia nao existe e com isso a procriacao perde seu sentido em absoluto.
Em principio podemos questionar (e ate questionamos em algum post) a intensidade e qualidade do sexo no AMN. Eh facil pensar que em um mundo anticeptico o prazer seja uma coisa inconcebivel. Mas quem foi que disse que prazer esta relacionado com procriacao ou com amor ? Sera que realmente uma coisa tem a ver com a outra ? Acho que esse eh um conceito valido apenas para pessoas “romanticas”. Fora disso, apos a invencao do anticoncepcional, sexo eh sexo e ponto final e nao precisa ser civilizado para concordar com isso.
O fato eh que no Admiravel Mundo Novo todos sao livres para experimentar sexualmente o que quiser com o simples pretexto de que “todo mundo eh de todo mundo”. Algo que na selvageria que conheco parace bastante com o que chamam de “relacionamento aberto” se eh que isso de fato existe. O problema eh que entre os selvagens tambem aprendemos que em um mundo onde “todo mundo eh de todo mundo”, ninguem de fato eh de ninguem. E como bons selvagens temos horror de nao “ser” de ninguem e muito mais horror ainda de ninguem “pertencer” a nos. Mas como eu me considero selvagem, condicionada por minha visao profana e romantica de familia, nao cabe a mim julgar o sexo dos civilizados.
O problema eh que nesse momento podemos chegar a pensar que no Admiravel Mundo Novo, sem o papel da procriacao e da familia, as diferencas entre sexos nao faria absolutamente sentido nao eh mesmo ? Afinal que diferenca ha entre os homens e as mulheres sem esses conceitos profanos e selvagens ? E como podemos colocar as palavras civilizacao e desigualdade em uma mesma frase ?
Tudo bem… ja sei que nesse mesmo instante apareceu um balaozinho na sua cabeca com a seguinte mensagem: “La vem aquela chata feminista arrumar confusao novamente”. Juro que esperei ate o ultimo momento pois nao queria ter que ser eu a notar esse detalhe. Mas tambem nao posso deixar passar meu povo. Devo contar a voces minhas impressoes e essa foi uma das que achei mais interessantes.
O fato eh que, ao ler o livro estamos tao condicionados e acostumados com o papel secundario da mulher que nem reparamos alguns detalhes importante e muitas vezes nos enganamos profundamente a respeito do termo igualdade de sexos. No Admiravel Mundo Novo a igualdade entre a mulher e o homem acaba na liberdade de fazer sexo com quem bem entender.
Na questao de igualdade dos sexos o Admiravel Mundo Novo eh bastante semelhante ao mundo dos selvagens. Afinal, voce chegou a ver alguma alfa mulher em qualquer ponto do livro ? Lenina era Beta assim como sua melhor amiga. A mae profana tambem era Beta. E mesmo que uma mulher alfa tenha escapado aos meus olhos, o que duvido muito pois meus olhos sao atentos a essas coisas, nao havia absolutamente nenhuma mulher envolvida em trabalhos de primeiro escalao e muito menos nos assuntos mais intelectuais.
Ao contrario da inteligencia, Huxley emprestou as mulheres civilizadas a futilidade e a falta de amor proprio, chegando a se tratar como verdadeiras “carne de acougue” nao so por elas como pelos homens civilizados. E isso era legal ! Boas mesmo eram as mulheres lindas e perfeitas. Essa parte era agressiva ate mesmo para um selvagem, mas a questao citada no paragrafo acima passou completamente despercebida ate mesmo pelo nosso esperto e sensivel Selvagem romantico.
Mas voces acham que Huxley fez de proposito ? De jeito nenhum. Provavelmente ele nem tenha percebido. Afinal, o que tem de mal nisso nao eh mesmo ? Que diferenca faz ter uma alfa mulher ou nao ? Essas feministas… ai ai ai. Acham problemas em tudo !
Sera que mais uma vez a minha visao profana de selvagem me impede de ver a igualdade dos sexos no mundo civilizado ? Ou sera que nao ha lugar para a igualdade feminina nem no meio da selvageria e nem na civilizacao ? Uma coisa eh fato, sou uma subversiva (como definido pelo Alvaro aqui) em ambos os mundos. Sera que terei que apelar para a forca ? ![]()


14 comments
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Fevereiro 15, 2008 às 9:35 am
Falta de Tempo « Lys, no labirinto de seu universo desconexo
[...] nao ficarem com muita saudade dos meus posts quilometricos, hoje eh dia de publicacao minha la no Clube do Livro. E o assunto esta quente por la viu ? Eh isso mesmo… hoje estou falando sobre Sexo . Pois eh [...]
Fevereiro 15, 2008 às 2:16 pm
Lino
Acho que o fato de as mulheres serem, no AMN, subordinadas aos homens e inferiores a eles reflete uma cultura de época, pois quando Huxley escreveu o livro este era o entendimento dominante. Então, acho que foi de propósito.
Olhando o lado feminino, o AMN é cruel com as mulheres, pois as transforma em objeto de prazer, embora possa também lhes proporcionar prazer. E são mais objetos na medida em que são mais belas.
De um lado ou de outro as mulheres são vistas como segunda linha. No mundo civilizado, objeto. No lado selvagem, propriedade.
Fevereiro 15, 2008 às 3:05 pm
scliar
Lyz, muito bem colocado! A minha dúvida - ou angústia, ou deprê (ai, cada meu Soma? O gato comeu!!!) é se, e quando, e como, conseguimos nos desprender destas imposições sócio-culturais. Afinal, como diz Foucault, estamos imersos no conjunto de possibilidades de nossa Era. Somos feministas, porque este mapa desenhado no ano de 2008 pontua uma série de ocorrencias que nos permitem esta reflexão. Acho que aquela caricatura, lembra?, que eu tinha postado traz um insight sobre isto: mudava a tecnologia, mas a questão de gênero permanecia a mesma! Difícil pensar o impensável - e a forca é a saída possível pelos nossos padrões de hoje. Bzus mil scliar
PS: Problema parecido com as propostas do comunismo…
PS2: O reflexo do que o seu tempo, ou a personalidade da própria pessoa, compromete a obra? Pensei nisto por conta do livro Infiel (Infidel), de Ayaan Hirsi Ali, que apareceu por estas bandas, e como a história de vida da autora parece uma grande mentira, o livro foi implodido. Não li - mas e se for bom? Caso de vários outros autores, em que obra e vida são bem antagonicas!
PS3: Ixi, os ps tão ficando mais longos que o comentário, que daqui a pouco tá mais longo que o post! kkkk É que a respeito do suicídio, lembrei do livro do Durkheim, que trata do assunto e é super interessante. Aliás, um dos achados que me fascinaram é que existe uma estabilidade percentual do número de suicidios em diferentes populações, independente de fatores externos, ou seja, o suicídio analisado não do pontos de vista individual, mas como vetor social.
Fevereiro 15, 2008 às 3:36 pm
titacoelho
Lys,
Minha opinião é, sexo é sexo, e pode ser praticado sem existir o amor, somente o desejo e o tesão! Vou te contar uma coisa, sem querer ser feminista até pq não sou…Mas sexo, por sexo com mulheres é algo absolutamente não aceito! E as próprias mulheres, evitam falr sobre o assunto, temo desejos né não…Como qualquer ser humano…Só que alguns acreditam que mulheres só podem praticar sexo, quando existe amor e milhares de luzinhas brilhantes meigas…Como se mulher não tivesse desejo e tesão!
Vou ler o livro…ainda não li, daí me sinto mais a vontade para discutir o assunto!
Mas teu texto está ótimo!
beijos
Fevereiro 15, 2008 às 3:46 pm
Marcelo
Acho que o “ninguém é de ninguém” é a decadência do mundo dito civilizado… O barato da civilização é que ela sustenta, justamente, uma des-igualdade, a possibilidade de que se possa manifestar uma diferença - o que, nos selvagens não é possível, porque não escapam da genética.
A diferença é a marca da civilização.
Beijos
Fevereiro 15, 2008 às 4:10 pm
Lys
E sabe o que mais me preocupa mocada ? Eh que mesmo hoje em dia, ao ler a obra, eh dificil nos atentar a essas coisas. Eu nao pesquei de primeira lida. So pesquei na relida e so porque esse assunto esta na minha cabeca essa semana por conta da coletiva pois caso contrario passaria batido certamente.
Perguntei pra varias pessoas se elas tinham percebido a questao da desigualdade entre os sexos e ninguem, absolutamente ninguem me respondeu que tinha notado que nao existiam alphas mulheres no AMN por exemplo.
Ou seja, mesmo na nossa era Scliar, mesmo hoje em dia, estamos tao acostumados com a desigualdade que nem percebemos esses detalhes em um livro. Se fosse o oposto saltaria aos nossos olhos nao eh mesmo ?
E isso porque ? Porque na verdade a desigualdade eh o padrao que estamos condicionados. E isso parece normal para nosso inconsciente. Anormal eh ver a igualdade. Isso eh triste ne ? Por mais que nos digamos mais avancadinhos em relacao a condicao da mulher ainda estamos dentro de um sistema sexista e patriarcal. Dificil romper as amarras.
Fevereiro 15, 2008 às 4:17 pm
Lys
Eh isso ai Lino, ou a mulher no AMN eh propriedade ou entao eh objeto. Essa dualidade concordo que possa ter sido de proposito, mas a questao de a mulher ser secundaria em ambos os mundos foi inconsciente. Eh apenas o reflexo da sociedade nao so daquela epoca, mas da atual. Afinal a mulher continua ate hoje tendo um papel secundario na sociedade mesmo que muitos achem que esse problema ja foi resolvido.
Fevereiro 15, 2008 às 10:40 pm
scliar
Ah, Lys, com certeza… É tão introjetado, que passa como “normal”, como “natural”. To guardando uma resposta sobre este assunto para a blogagemcoletiva do dia 8, duma pergunta que chegou la no meu blo do womarket.blogspot.com. Bemmmmmm difícil lidar com isto! Bzus atarefados desta “muié” com 3,4 ou 5 jornadas de trabalho!
Fevereiro 16, 2008 às 8:56 pm
aninha-pontes
Querida, prefiro continuar selvagem. E bem selvagem.
Quero amor com sexo, e sexo com muito amor.
Beijinhos
Fevereiro 17, 2008 às 6:36 am
Dani
Lys, so vc pra reparar nisso!! Juro q nao tinha atentado pra esse fato e fiquei chocada ao relembrar o livro!! Alem disso nao sei se vc lembra mas em uma parte do livro eles falam q a mae eh algo mto mais feio q o pai. O pai ate daria pra aceitar mas a mae eles nao conseguem conceber!!
Beijos, Dani
Fevereiro 17, 2008 às 9:55 am
Luciane
Bem pensado, Lys!
Beijo
Fevereiro 17, 2008 às 11:41 am
Lys
Dani ! Eh verdade… voce tem razao. Existe essa colocacao mesmo.
Fevereiro 17, 2008 às 2:33 pm
Ciça
Eu reparei ontem, ao terminar o livro… ihm, mas agora nao vale mais hehehhehehe
Acho que o ponto principal nao é a capacidade, ou fatal, de fazer sexo por sexo, é sim o proposito de simplesmente nunca se ligar emocionalmente a ninguém seja filho, mae, pai ou parceiro!
Até mesmo os relacionamentos abertos, ah, tá nao conheco nenhum de verdade, mas acredito que até mesmo esses um hora, na hora em que a torneira do banheiro quebra, por ex, a falta de ligacao emocional vai pesar… a nao ser que oc ara desmarque com a loira descomunal só para atender a parceira de relacionamento aberto!!!
Fevereiro 18, 2008 às 6:51 pm
Pela Valorizacao da Mulher Brasileira « Lys, no labirinto de seu universo desconexo
[...] complicado para discutir mas que tambem dariam otimos posts. Leia por exemplo um que escrevi no clube do livro a respeito do desigualdade dos sexos em uma obra de ficcao. A questao que quero discutir nao eh o [...]