
Talvez a cura para as mazelas da humanidade realmente esteja no SOMA, afinal, que bom seria se pudessemos ter, ao final de um dia exaustivo de trabalho, nossa porcao de SOMA para poder deitar a cabeca no travesseiro e dormir em paz.
Teve problemas no trabalho ou com o vizinho ? Brigou com o namorado ? Esta muito estressado ou cansado ? Seus problemas acabaram ! SOMA ira resolver todos seus problemas ! Que tal umas Ferias de SOMA ? Pode tambem ser uma SOMAterapia. Nao acredita que existe ? Pois clique no link ao lado para ver com seus proprios olhinhos ! Mas infelizmente essa SOMA que esta a venda eh apenas um simples relaxante muscular
.
Aparentemente sem efeitos colaterais SOMA (a do livro) eh capaz de nos fazer deixar a realidade de lado e viver em um mundo paralelo aonde tudo eh perfeito e prazeiroso. Afinal, como ja dizia muito sabiamente Scarlet Ohara: “Amanha sera um novo dia !”. Mas calma meu povo, pois doses exageradas de SOMA pode levar a morte. Assim como aconteceu com a mae, figura profana, do Selvagem.
Pode parecer estranho e corro o risco de ser acusada de herege e ser queimada na fogueira, ou entao agora voces vao descobrir que sou maluca de pedra e sem solucao, mas duas passagens do livro aonde o autor falava do consumo do SOMA me fizeram lembrar rituais religiosos. A primeira se da quando Bernard, ainda bem no comeco do livro, capitulo 5, participa de uma especie de consumo de soma em grupo. Os participantes entravam em uma especie de transe aonde podiam escutar e ver Ser Supermo (no caso Ford). E gritavam com a mesma forca que os evangelicos fazem em suas igrejas ao ver e sentir a presenca de Cristo. Bernard aparece no papel do cetico.
A segunda vez quase me mata de rir ao ver a distribuicao de SOMA sendo feita exatamente como se fosse a distribuicao da hostia sagrada em uma igreja catolica. Isso se passa no capitulo 15 e a cena eh interrompida pelo proprio Selvagem que entra de maneira gloriosa e dramatica prometendo a salvacao dos probres miseraveis. Apos o controle da situacao e a crucificacao do infiel, e apos o consumo da “hostia” pelos Deltas fieis, todos se confraternizaram e se abracaram, so faltavaram falar “A paz de Cristo!”.
Nao sei se havia alguma intencao no livro em fazer essa correlacao, mas eu acredito que a religiao a maioria das vezes eh usada como valvula de escape, assim como o SOMA. Eh facil responsabilizar o outro, no caso um ser supremo, por nossas mazelas e nos conformar com a situacao que vivemos. Nesse aspecto a religiao eh a garantia de estabilidade que um mundo desequilibrado e injusto necessita. A unica maneira de uma pessoa permanecer morrendo de fome ao lado de outra que joga comida fora eh instituindo o medo de ser queimado no fogo dos infernos. Nesse mundo onde nada eh justo so mesmo a religiao para manter o conformismo e a estabilidade.
Karl Marx ja dizia que “A religiao era o opio do povo” nao eh mesmo ? Pois entao acho que Huxley concordava com isso. De fato, “a religiao eh o SOMA do povo”.
Uma coisa eh fato, dificil mesmo eh encarar a vida como o Selvagem e viver nesse mundo sem nossa SOMA !




9 comments
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Fevereiro 10, 2008 às 12:43 pm
Luciane
Oi, Lys! Eu também entendi de cara que o soma, Our Ford e tudo mais era nada mais que uma analogia à religiao. PORÉM, contudo, todavia… eu entendi que a crítica não era à religião em si, mas ao fato de que nesse Mundo Novo o lugar que a religião exercia até Descartes (“penso, logo existo”) passou a ser exercido pela tecnologia e pelas descobertas científcas, e isso pode ser tão perigoso quanto. Pra mim, essa é uma das grandes finesses do livro: Huxley anteviu a substituicäo da teocracia pela tecnocracia. Só pra contextualizar, até as ciências humanas (por ex. a Sociologia de Comteno século XIX) ja estavam usando modelos mecanicistas das ciências exatas (estatística, observacão empírica, etc) para se “elevarem” ao nível científico. Então se “Deus está morto” (Nietzsche, 1900), quem vai assumir o papel dele, quem, quem?
Se tu aceitas “cegamente” que o saber científico (desse jeito murrinha que existe aí) como sendo A VERDADE, tu não estás muito longe dos que encontram em Deus a resposta pra tudo.
Beijo
Fevereiro 10, 2008 às 2:33 pm
Lys
Eh isso ai Lu ! Legal seu comentario. Eu realmente nao acredito que no livro a intencao fosse fazer uma critica a religiao. Voce tem toda razao. Mas achei legal as analogias nao so quanto ao Our Ford mas tambem nas cenas que descrevi em meu post. Imaginava quando lia e pensava o que coloquei no meu post. Conclusao apenas minha. Mas que foi divertido a isso sim foi.
Quanto a substituicao da teocracia pela tecnocracia, colocados em dois extremos, acredito que isso possa ate acontecer em uma obra de ficcao mas nao na vida real. Na minha humilde opiniao, acreditar cegamente em qualquer um dos lados eh sinal de ignorancia e a humanidade nao esta tao perdida assim. E nesse aspecto os selvagens estao lado a lado com os civilizados no livro. Na minha opiniao eh impossivel uma pessoa com o minimo de discernimento acreditar cegamente em qualquer um dos extremos
. Deve haver uma solucao intermediaria ne nao ?
No mundo do selvagem a religiao eh bastante presente. Talvez entao a mensagem seja que religiao eh coisa da selvageria
Beijos linda e um lindo final de semana proce ! Eu estou aqui plantando tulipas.
Lys
Fevereiro 10, 2008 às 5:16 pm
Bia
Lys,
fiquei sabendo sobre seu clube do livro pela Elzinha, do Blog do Beagle, e gostaria muito de fazer parte. Será que é tarde e vocês já definiram todos os participantes? Espero que não… Se ainda tiver uma vaguinha, você me chama?
Obrigada!
Bia
Fevereiro 10, 2008 às 7:12 pm
Luciane
Lys, eu concordo contigo. A humanidade nao está tao perdida assim. Gracas a Deus!


Fevereiro 10, 2008 às 8:19 pm
Lys
Ou seria gracas a Ford ?
Fevereiro 10, 2008 às 8:23 pm
Lys
Bia, seja muito bem vinda.
Ja somos 7 autores no clube do livro, um para cada dia da semana. Com isso fechamos o ciclo de autores do Clube, mas podes participar como palpiteira.
Voce pode participar com os comentarios, discutindo conosco os topicos escolhidos pelos autores e isso seria muito bacana.
Se fores uma palpiteira ativa, com a saida de um autor por alguma eventualidade, voce seria uma candidata direta a autora.
Portanto, bora palpitar !
bjs
Lys
Fevereiro 10, 2008 às 9:21 pm
danipontes
Lys, adorei a correlaçao que vc fez!!! Eu nao tinha feito a correlaçao com a distribuiçao da hostia… apesar de no capitulo 5 ter me sentido dentro de um templo!!! hehehehe
Beijos, Dani
Fevereiro 11, 2008 às 2:01 pm
Blog do Lino
Lys:
Você tem razão e nos dois casos, tanto no transe coletivo que Marx finge, quanto na distribuição de soma a analogia com rituais religiosos é total. Acho que a intenção do Huxley foi essa mesmo, de correlacionar o “mundo perfeito” ao imperfeito, mas sem falar isso claramente.
Quanto à citação de Marx, o Karl, na verdade, ele não disse isso, não. Falou algo próximo, mas em outro contexto. A frase foi transformada, tirada do contexto e ganhou o significado que lhe dão, ficando como tendo sido dita por ele.
Fevereiro 11, 2008 às 2:19 pm
Lys
Puxa Lino, essa da frase do Marx eu nao sabia nao. Valeu.
Nao era essa a frase que esta no manifesto comunista ?
Vou dar uma procurada para me informar melhor.
bjs
Lys