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Um rápido estudo de “O admirável mundo novo” nos remete a um conceito que, no Brasil, foi usado à exaustão entre 1964 e 1985, quando se encerrou o ciclo conhecido como Regime Militar: subversão.

Sim, porque “o Selvagem” foi um subversivo. Da mesma forma como tentaram ser, e não conseguiram, Helmholtz e Bernard que, em vão, procuraram entender aquela criatura retirada de um antro perdido no meio do (quase) nada e levado para a civilização junto com sua mãe (que coisa imoral!).

O que é ser subversivo? Vamos a um conceito: “o termo subversão (daí, subversivo) está relacionado a transtornos, revoltas, principalmente nos sentidos ético e moral. A palavra está presente em todos os idiomas de origem latina, e era originalmente aplicada a diversos eventos, como a derrota militar de uma cidade. Já no século XIV era usado na língua inglesa com referência a temas de direito e, no século XV, começou a ser usado relacionado a reinados. Esta é a origem de seu uso moderno, que se refere a tentativas de destruir estruturas de autoridade. Portanto, o conceito moderno de subversão se refere a algo clandestino, como erodir as bases da fé no status quo ou criar conflitos entre pessoas”.

Quando o regime militar foi instalado no Brasil, ele desprezou as leis. Foi justamente por isso que seus opositores agiram ao arrepio dessas mesmas leis. O que gerou uma luta interna onde, de um lado, o Governo, investido nas funções de detentor do controle do Estado, procurava manter intocado o poder e, de outro, os opositores, subvertendo ou tentando subverter a ordem estabelecida, lutavam para derrubar o Governo e dar outra conformação ao Estado.

Em “O admirável mundo novo”, a hipotética sociedade imaginada por Aldous Huxley cria um Estado multinacional onde as estruturas são rígidas como são hoje ou foram ontem as que detiveram o poder de Estado em grande parte dos países americanos, aí incluído o Brasil. E, como nos casos reais, no Mundo Novo a contestação não pode ser admitida, sob o risco de colocar em ruína a estrutura criada para que os cidadãos fossem todos “felizes”.

Por isso, tanto no mundo imaginário quanto no mundo real, é preciso censurar a produção intelectual. Por isso, tanto no mundo imaginário quanto no mundo real, é necessário que as pessoas se distanciem o máximo possível de situações que possam levá-las a questionar a estrutura do Estado. A ditadura fez isso no Brasil com o uso de muita propaganda, com o adesismo de grande parte dos meios de comunicação de massa (note que no livro de Huxley o Estado também detém o poder sobre a produção de informação) e com a ajuda da censura. No caso de Huxley, bastavam algumas frações de grama de soma para idêntico efeito.

>A Doutrina de Segurança Nacional classificava os subversivos de acordo com a ideologia. Era a época da classificação de “guerra subversiva”. Para os detentores do poder, essa contestação tinha as seguintes características: 1. Era conduzida nos pressupostos do marxismo-leninismo; 2. Pretendia, em última análise, a implantação do comunismo; 3. Utilizava uma amplitude de meios e processos, que vão da guerra convencional à guerra subversiva, ou simples aspectos de guerra fria, ou mesmo, o mero esquema de agitação/propaganda (…)”. 4. Praticava o desenvolvimento lento, baseando a sua estratégia na guerra prolongada e no esgotamento da ordem constituída (…)””.

Mustapha Mond não precisava se preocupar com o lado político-ideológico do “Selvagem”. Mas como ele sabia que “a estabilidade não é, nem de longe, tão espetacular como a instabilidade” e como, também, “toda mudança é uma ameaça à estabilidade”, o fato de seu mundo agredir ética e moralmente os valores que aquele “Selvagem” havia trazido de seu cantinho particular, era absolutamente irrelevante. Da mesma forma como interessava pouco aos regimes militares instalados no mundo real da América do Sul nas décadas de 1960 e 1970, saber o que pensavam e por que lutavam os esquerdistas. Cabia apenas combatê-los, como coube a Mond eliminar a contestação.

É simples, não? No mundo real, a oposição foi ganhando corpo, número e os estados autoritários caíram. No mundo imaginário, nem Helmholtz nem Bernard tinham estrutura, sobretudo emocional ou ideológica para iniciar um movimento contestatório. Daí porque, ao “Selvagem”, não restou alternativa que não fosse a da corda da forca. Um epílogo literário previsível.